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Bagaço que as vinícolas descartam faz calêndula comestível mais que triplicar o betacaroteno

Escrito por Neo Mondo | 16 de setembro de 2026

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Bagaço de uva convertido em biofertilizante fez calêndulas pôr do sol cultivadas pela Unicamp e pela UFPR acumularem mais de 250% de betacaroteno em relação ao cultivo convencional - Foto: Ilustrativa/Shutterstock

POR - REDAÇÃO NEO MONDO*

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR) transformaram bagaço de uva, a massa de cascas, sementes e engaços que sobra da fabricação de vinho, em um biofertilizante líquido que fez flores de calêndula pôr do sol acumularem até 80,97 miligramas de betacaroteno por 100 gramas de flor liofilizada. Segundo a equipe, o ganho supera 250% em relação ao cultivo sem o insumo. O estudo saiu em junho na revista ACS Omega e mostra que o resíduo também aumentou a produção de flores e a biomassa das plantas.

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O volume em jogo é grande. O bagaço corresponde a 20% a 25% da massa da uva processada e soma de 9 milhões a 13 milhões de toneladas por ano no mundo. No Rio Grande do Sul, maior produtor do país, a Emater/RS-Ascar projetou a safra 2025/2026 em 905.291 toneladas de uva, colhidas em 42,4 mil hectares, a maior parte destinada a vinhos, sucos e espumantes. Um documento da Embrapa Agroindústria de Alimentos de 2018 estimou que só 3% do bagaço ganhava algum uso, principalmente como adubo nas próprias vinícolas ou como ração animal.

Mal gerido, o material cobra seu preço. Uma avaliação de ciclo de vida publicada neste ano na revista Recycling aponta emissões de gases de efeito estufa, contaminação de solo e água, eutrofização e odor entre os efeitos de resíduos de vinícola sem tratamento adequado. O digestato também tem riscos próprios. Os autores do estudo brasileiro citam salinidade, toxicidade por amônia e possível acúmulo de metais pesados como fatores que limitam seu uso na agricultura.

Para chegar ao fertilizante, a equipe usou a digestão anaeróbia, processo em que microrganismos decompõem matéria orgânica sem oxigênio e liberam biogás. O bagaço veio de uma vinícola de Campinas. Num reator piloto de 4,3 litros do Laboratório de Bioengenharia e Tratamento de Água e Resíduos (Biotar), na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA-Unicamp), o resíduo passou 40 dias a 36 °C, misturado a água e a microrganismos retirados de um reator que trata efluentes de um abatedouro de aves. O digestato saiu com pH de 8,52, 1,65 grama de nitrogênio total por 100 gramas e relação carbono/nitrogênio de 17,79. As análises não encontraram arsênio, mercúrio nem chumbo.

"Utilizamos o bagaço da uva porque ele é um dos principais resíduos da produção de vinho e ainda possui uma composição muito rica em substâncias de interesse, como fibras, açúcares, compostos fenólicos, antioxidantes e pigmentos naturais. Tem, portanto, um grande potencial para gerar novos produtos de alto valor agregado", diz Luiz Eduardo Nochi Castro, autor principal. O trabalho integra seu doutorado na FEA-Unicamp, feito com bolsa da FAPESP e com recursos de outros dois projetos.

A flor entrou na pesquisa por causa da parceria com o grupo da UFPR, que já estudava cultivo de flores. A variedade pôr do sol se adapta a climas diferentes e pede ao menos quatro horas de sol direto por dia. Os ensaios ocorreram numa estufa de 7 por 12 metros no norte do Paraná, a 807 metros de altitude, em dois ciclos. O primeiro começou em março e durou 124 dias. O segundo começou em setembro, durou 107 dias e registrou média das máximas de 36,6 °C. Cada vaso recebeu substrato com 0%, 10%, 20% ou 30% de digestato e uma de quatro regas diárias, de 57 a 232 mililitros. Das 16 combinações, os pesquisadores avaliaram 48 vasos por ciclo.

As doses de 20% e 30% elevaram o número de flores e a biomassa da parte aérea. Também aumentaram os teores de proteínas, lipídios, açúcares solúveis, carotenoides e compostos fenólicos. A atividade antioxidante passou de 1.300 micromoles equivalentes de Trolox por 100 gramas. A estação alterou o perfil químico: o verão favoreceu açúcares e carotenoides, e o inverno, a estabilidade dos pigmentos e a retenção de minerais.

Mais adubo não significa flor melhor. "Verificamos que a quantidade do composto [digestato] e de água faz diferença. Doses moderadas proporcionaram os melhores resultados, enquanto quantidades excessivas tendiam a prejudicar o desenvolvimento das plantas. Isso mostra que o uso do digestato deve ser feito de forma equilibrada", afirma Tânia Forster-Carneiro, professora da FEA-Unicamp e orientadora de Castro.

A escolha da calêndula tem lógica comercial. A Calendula officinalis concentra carotenoides, flavonoides e triterpenoides com ação anti-inflamatória, antimicrobiana, antioxidante e cicatrizante documentada, e já abastece as indústrias farmacêutica, cosmética e de alimentos funcionais. Os autores indicam as flores obtidas como matéria-prima para nutracêuticos e corantes naturais.

Parte do setor vitivinícola já devolve o bagaço ao campo por outro caminho. A Cooperativa Vinícola Garibaldi, na Serra Gaúcha, manda desde a safra 2025 todos os resíduos do processamento para compostagem. São cerca de 4,5 milhões de quilos por ano, que retornam aos vinhedos como adubo em até dois anos. A rota testada em Campinas produz, além do fertilizante, biogás que pode virar eletricidade e calor.

Bagaço de uva, formado por cascas e sementes que sobram da prensagem, responde por 20% a 25% da massa da fruta processada e vira matéria-prima de biofertilizante no estudo da Unicamp e da UFPR - Foto: Ilustrativa/Shutterstock

Os resultados ainda não saíram da escala experimental. As plantas cresceram em vasos de 700 mililitros com 250 gramas de substrato comercial à base de turfa, e o digestato veio de um reator de bancada. A equipe afirma que faltam estudos de viabilidade técnica e econômica, de integração às vinícolas ou a empresas que já tratam resíduos por digestão anaeróbia, e de custo, logística e mercado para flores comestíveis.

Uma nova linha de pesquisa do grupo vai extrair do bagaço açúcares e pigmentos naturais, além de antioxidantes e compostos fenólicos, para ingredientes de alimentos e cosméticos. "A ideia é aproveitar o bagaço de uva para produzir também energia, além de biofertilizante para cultivar as flores comestíveis, e, posteriormente, transformar tanto as flores quanto os resíduos desse cultivo em novos produtos de alto valor agregado", diz Castro.

*Com informações da Agência FAPESP.

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