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Donald Trump: quando quem mais polui decide sair da sala

Escrito por Neo Mondo | 9 de janeiro de 2026

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Retrato oficial de Donald Trump para seu novo mandato na Casa Branca - Foto: Daniel Torok/ TRUMP VANCE TRANSITION TEAM HANDOUT/EPA

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

Ao deixar acordos globais, Donald Trump envia um recado perigoso: acumular riqueza importa mais do que dividir responsabilidade — mesmo que o planeta pague a conta

Há decisões políticas que fazem barulho. Outras fazem silêncio. E há aquelas que, mesmo anunciadas em tom burocrático, ecoam como um alerta vermelho no sistema climático global. A retirada dos Estados Unidos de dezenas de tratados e instituições ligadas ao clima, biodiversidade, energia limpa e direitos humanos pertence a essa última categoria.

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Não é só mais uma guinada ideológica. É um gesto que reposiciona o maior poder econômico do mundo fora da mesa onde se decide o futuro comum da humanidade.

Sob a liderança de Donald Trump, os EUA anunciaram a saída da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) — espinha dorsal da governança climática global — e de ao menos outras 65 organizações internacionais. O país também ficou fora da COP30, realizada em Belém, no coração da Amazônia. Um simbolismo que dispensa metáforas.

A pergunta que paira no ar é simples e desconfortável:
o que acontece quando quem mais polui decide não seguir nenhuma regra comum?

O ângulo que poucos estão explorando: não é fuga, é estratégia

À primeira vista, a decisão parece um retorno ao velho negacionismo climático. Mas há algo mais sofisticado — e mais perigoso — em jogo.

O abandono da UNFCCC, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) e de instituições como a IRENA não representa apenas desinteresse ambiental. Representa uma tentativa deliberada de escapar de constrangimentos multilaterais num momento em que:

  • a transição energética redefine cadeias globais de valor;
  • dados científicos passam a orientar regulações duras;
  • o carbono vira ativo financeiro e risco sistêmico;
  • e a pressão por responsabilidade climática cresce sobre grandes economias.

Em outras palavras: sair da sala é uma forma de não assinar recibos.

Como se dissesse ao mundo: “continuaremos produzindo, consumindo e lucrando — mas sem auditoria moral, científica ou diplomática”.

“Acumulam dinheiro e poluem o planeta”: a conta não fecha

Os Estados Unidos concentram capital, tecnologia, poder militar e influência cultural. Mas também estão entre os maiores emissores históricos de gases de efeito estufa. Ao abandonar tratados climáticos, o país descola riqueza de responsabilidade, algo que especialistas classificam como um erro estratégico.

A ex-assessora climática da Casa Branca no governo Biden, Gina McCarthy, foi direta ao ponto ao classificar a decisão como “míope, constrangedora e tola”. Já Manish Bapna, presidente do Natural Resources Defense Council, chamou a medida de “autossabotagem econômica”.

Não é retórica. Ao se afastar das instâncias multilaterais, os EUA:

  • perdem influência sobre regras futuras do mercado de energia limpa;
  • enfraquecem sua competitividade em inovação verde;
  • se afastam de fluxos globais de investimento sustentável;
  • e deixam espaço para que outros países liderem — especialmente China e União Europeia.

Isolamento, nesse caso, não é força. É vulnerabilidade disfarçada de soberania.

Quando o problema deixa de ser só o clima

O memorando presidencial não se limita à agenda ambiental. Ele atinge também organismos ligados a direitos humanos, igualdade de gênero, proteção de crianças e governança democrática — incluindo ONU Mulheres, UNFPA e fóruns da ONU sobre populações vulneráveis.

O recado é claro: o multilateralismo, como ideia, virou inimigo.

Para Simon Stiell, secretário-executivo da UNFCCC, a decisão é um “gol contra colossal” que tornará os EUA “menos seguros, menos prósperos e menos preparados para o futuro”. A Comissão Europeia foi ainda mais dura, apontando indiferença com o sofrimento humano e ambiental.

E o mundo, vai seguir sem os EUA?

Aqui está a virada mais interessante dessa história — e talvez a menos óbvia.

O mundo não vai parar. A transição energética segue. O mercado de carbono cresce. A ciência avança. Países, empresas, cidades e investidores continuam se movendo. O risco é outro: um planeta que avança com um gigante andando para trás.

Isso fragmenta esforços, encarece soluções e aumenta desigualdades. Quem paga essa conta? Os países mais pobres. As populações mais vulneráveis. Os territórios mais expostos à crise climática — como a Amazônia, o Sul Global, as periferias urbanas.

O vice-presidente eleito dos EUA, J.D. Vance, e o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, durante posse Presidencial de Trump na Rotunda do Capitólio dos EUA em Washington, EUA, 20 de janeiro de 2025. Foto: REUTERS/Kevin Lamarque/Pool ORG XMIT: GPD
O vice-presidente eleito dos EUA, J.D. Vance, e o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, durante posse Presidencial de Trump na Rotunda do Capitólio dos EUA em Washington, EUA, 20 de janeiro de 2025 - Foto: REUTERS/Kevin Lamarque/Pool ORG XMIT: GPD
No fim das contas, não é sobre tratados. É sobre escolha moral

Abandonar a UNFCCC não apaga a crise climática. Abandonar o IPCC não invalida a ciência. Abandonar o multilateralismo não elimina a interdependência entre países.

Só revela uma escolha.

A escolha de acumular dinheiro hoje e empurrar o custo para amanhã.
A escolha de poluir sem pedir licença.
A escolha de sair da sala quando a conversa fica séria demais.

E talvez seja justamente isso que mais preocupe: quando quem tem mais poder decide que responsabilidade coletiva é opcional, o futuro comum vira um território sem regras.

E sem regras, todos perdem — até quem acredita que pode pagar para não sentir o impacto.

"Neo Mondo — jornalismo que conecta clima, poder e futuro".

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