CLIMA Destaques Emergência Climática Meio Ambiente Saúde Segurança Sustentabilidade Tecnologia e Inovação
Escrito por Neo Mondo | 18 de agosto de 2025
Afloramento do aquífero Guarani na gruta Itambé, em Altinópolis (SP) - Foto: Jonathan Wilkins/Wikimedia Commons
Por - José Tadeu Arantes | Agência FAPESP / Neo Mondo
Estudo aponta que a maioria dos reservatórios subterrâneos do país vai perder sua capacidade de renovação, aumentando o risco de escassez hídrica em diversas regiões, especialmente Sudeste e Sul. Uma estratégia para enfrentar o problema é a “recarga manejada”, que inclui técnicas para favorecer a infiltração da água de chuva ou até mesmo de esgoto tratado
A crise climática global pode comprometer de forma significativa a recarga natural dos aquíferos brasileiros, reduzindo a oferta de águas subterrâneas em praticamente todo o território nacional. A conclusão é de um estudo conduzido por cientistas do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc-USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que analisou os impactos de diferentes cenários climáticos sobre a disponibilidade hídrica até o final do século. O trabalho foi publicado no periódico Environmental Monitoring and Assessment.
Leia também: Histórico de incêndios ameaça a biodiversidade até mesmo em florestas que não pegaram fogo
Leia também: Declínio de animais dispersores de sementes dificulta combate às mudanças climáticas
Águas subterrâneas são aquelas que se acumulam abaixo da superfície terrestre, em formações geológicas chamadas aquíferos. Infiltram-se lentamente no solo após as chuvas e abastecem poços, nascentes, rios e ecossistemas. No Brasil, estima-se que 112 milhões de pessoas (56% da população) sejam abastecidas total ou parcialmente por essa fonte.
O estudo do IGc-USP e do Inpe utilizou um modelo de balanço hídrico baseado em geoprocessamento e em dados corrigidos de projeções climáticas do Coupled Model Intercomparison Project Phase 6 (CMIP6), para estimar as alterações de temperatura, precipitação, escoamento superficial e recarga de aquíferos entre 2025 e 2100. O CMIP6 unifica dados de vários centros de pesquisa no mundo e é o modelo mais recente produzido pelo Programa Mundial de Pesquisa Climática (WCRP, na sigla em inglês).
A pesquisa considerou dois cenários de emissões de gases de efeito estufa: um moderado e outro pessimista. “O que constatamos foi a possibilidade de uma diminuição drástica da recarga dos aquíferos do país, especialmente nas regiões Sudeste e Sul, que devem ficar mais secas, segundo praticamente todos os modelos climáticos analisados”, afirma Ricardo Hirata, professor titular do IGc-USP e primeiro autor do artigo.
Os resultados indicam que o país deverá registrar aumentos consistentes de temperatura ao longo do século, entre 1,02 °C e 3,66 °C, dependendo do cenário e do período considerado. Ao mesmo tempo, a distribuição das chuvas tende a se tornar ainda mais desigual. A região Norte e parte do litoral Leste devem apresentar queda na precipitação média anual, ao passo que o Sul e parte do Nordeste (especialmente Ceará, Piauí e Maranhão) podem experimentar aumentos pontuais.
“Mesmo em regiões como o Sudeste, onde a quantidade total de chuvas não deverá variar muito, teremos uma mudança de regime, com verões mais chuvosos e períodos secos mais longos. Chuvas muito intensas e concentradas promovem o escoamento superficial e podem provocar inundações, mas não favorecem a infiltração da água no solo. E, sem infiltração, não há recarga”, informa Hirata.
O pesquisador destaca que, mesmo quando a água penetra no solo, o processo até atingir o aquífero pode levar meses. “Em vários estudos nossos, vimos que a água leva dois ou três meses para atravessar de 10 a 15 metros de solo e chegar ao lençol freático. Se a chuva for intensa demais e durar pouco, essa água não chega lá”, pontua.
A recarga subterrânea pode diminuir até 666 milímetros por ano nas áreas mais afetadas. A situação mais crítica deve ocorrer no Sistema Aquífero Bauru-Caiuá (localizado na região Centro-Oeste do Brasil, abrangendo partes dos Estados de Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso), com redução de 27,94% no volume recarregado. Outros aquíferos importantes, como a área de afloramento do Guarani (em porções dos Estados de MG, SP, GO, MS, MT, PR, SC e RS), Furnas (BA, GO, MG), Serra Geral (MS, SP, PR, SC, RS), Bambuí Cárstico (PI, PB, PE, BA, GO, MG) e Parecis (RO, AM, MT), também devem sofrer perdas significativas (leia mais em: revistapesquisa.fapesp.br/esgotamento-dos-aquiferos-ameaca-florestas-e-rios/).
Apesar de sua importância estratégica, a dimensão subterrânea da crise hídrica tem recebido pouca atenção das políticas públicas. “A água subterrânea continua sendo esquecida na discussão sobre mudanças climáticas. Quando se fala do clima, fala-se de rios, de vegetação, de agricultura. Mas os aquíferos não entram na agenda”, aponta Hirata.
Ele lembra que mais da metade dos municípios brasileiros utiliza água subterrânea para abastecimento. “Temos uma gigantesca reserva de água, que é resiliente a variações de recarga. Mesmo em anos de estiagem, o aquífero continua fornecendo água, porque seu armazenamento é muito grande. Foi o que ocorreu na grande estiagem de 2014-2016. As cidades abastecidas por água superficial foram duas vezes mais atingidas pela crise hídrica do que aquelas abastecidas exclusivamente por água subterrânea”, afirma.
Existem cerca de 3 milhões de poços tubulares perfurados e outros 2 milhões de poços escavados no Brasil, que extraem entre 550 e 600 metros cúbicos de água por segundo. Desse total, de 80% a 90% destinam-se a uso privado, como agricultura, indústria, serviços e abastecimento residencial complementar nas áreas urbanas.
Um exemplo é a cidade de São Paulo. “Apenas 1% do abastecimento público vem de aquíferos. Mas há cerca de 13 mil poços privados na região metropolitana que respondem por 11 metros cúbicos por segundo. Durante a crise hídrica, isso chegou a suprir 25% da demanda”, quantifica Hirata. Ele argumenta que, apesar de sua evidente distorção, o uso privado acaba tendo um papel social importante: “Pode parecer contraditório, mas, quando os ricos usam água de poços, sobra mais água da rede para os mais pobres”.

O estudo não se limita a apontar problemas: também propõe soluções. Uma estratégia promissora é a recarga manejada de aquíferos (MAR, na sigla em inglês para managed aquifer recharge), que emprega técnicas para favorecer a infiltração da água da chuva ou de esgoto tratado. A MAR inclui até mesmo a injeção direta no aquífero, como já ocorre em Madri, na Espanha.
O pesquisador explica que a recarga manejada pode ser feita com estruturas simples, como bacias de infiltração ou pequenas barragens, até sistemas mais sofisticados de injeção direta. “É possível captar a água da chuva ou mesmo o esgoto tratado e conduzir isso a sistemas de infiltração planejados. O solo funciona como um super-reator biogeoquímico, capaz de purificar essa água durante o trajeto até o aquífero.”
Em cidades grandes, como São Paulo, parte da recarga subterrânea já ocorre de forma involuntária. “Estudos com isótopos mostram que cerca de 50% da recarga na região central vem de vazamentos nas redes de água e esgoto. Isso mostra que a ocupação urbana também pode afetar positivamente os processos subterrâneos”, pondera Hirata.
Urbanização avança sobre encostas e várzeas e amplia exposição territorial no Brasil
Especial Semana Mundial da Água 2026 | Neo Mondo