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O tomate subiu 37,76% em setembro, e 44,8 milhões de brasileiros já não conseguiam pagar por um prato saudável

Escrito por Neo Mondo | 16 de outubro de 2026

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Tomate mais caro expõe a distância entre ter comida à mesa e conseguir pagar por uma alimentação saudável - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

No Dia Mundial da Alimentação, dados da FAO e do IBGE mostram que o clima encarece primeiro frutas, legumes e verduras. São justamente os itens que separam comer de comer bem

A FAO celebra hoje, 16 de outubro, o Dia Mundial da Alimentação com o tema “Inovar hoje para nutrir o amanhã”. Segundo a organização, a inovação de que fala o tema inclui soluções de ponta, mas também conhecimentos tradicionais e abordagens inclusivas, com o objetivo de ampliar o acesso a uma alimentação diversificada, saudável e nutritiva. A data chega uma semana depois de o IBGE divulgar o IPCA de setembro. O grupo Alimentação e bebidas subiu 0,83% após três meses seguidos de recuo. A alimentação no domicílio avançou 0,96%, puxada pelo tomate (37,76%), pela batata-inglesa (24,07%), pela cebola (10,14%) e pelo arroz (4,56%). Os números expõem uma distância que o Mapa da Fome não mede. O Brasil está fora dele, mas 21,1% da população, o equivalente a 44,8 milhões de pessoas, ainda não podia pagar por uma alimentação saudável em 2025.

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O tomate conta essa história em dois atos. Em agosto, ele estava entre os itens que mais caíram no IPCA, com recuo de 10,94%, e a CNA atribuiu o movimento às temperaturas mais altas, que aceleraram a maturação dos frutos. O calor jogou tomate demais no mercado de uma vez. Em setembro, faltou. O preço médio pago ao produtor paulista passou de R$ 2,66 o quilo em agosto para R$ 4,30 em setembro, uma alta de 61,4% no mês e de 93,5% sobre setembro de 2025. Para o consumidor de Vitória, a conta pesou mais: a capital capixaba teve a maior inflação do mês entre as regiões pesquisadas, com o tomate subindo 43,19%.

O sobe e desce não é exclusivo do tomate. É o padrão dos alimentos frescos. Um estudo do Rabobank sobre o El Niño mostra que os alimentos in natura, como frutas, legumes e verduras, são os primeiros a sofrer reajustes fortes depois de um choque climático. Nos industrializados, o efeito do clima é mais brando. E os produtos que o clima atinge primeiro são os mesmos que tornam uma dieta saudável cara. Segundo a FAO, alimentos de origem animal, frutas e hortaliças respondem pela maior fatia do custo de uma dieta saudável no mundo.

Esse custo é o assunto central do relatório anual da FAO. A edição 2026 do SOFI, publicada com o tema “Compreender e enfrentar o alto custo de uma dieta saudável”, foi apresentada em Roma durante o 30º período de sessões do Comitê de Agricultura. O documento trabalha com dois indicadores diferentes, que não devem ser confundidos. O primeiro mede a fome: 7,8% da população mundial em 2025, cerca de 645 milhões de pessoas. O segundo mede o acesso à boa comida: 2,69 bilhões de pessoas, ou 32,7% da humanidade, não conseguiam pagar por uma dieta saudável. O segundo número caiu, mas o preço subiu. O custo médio global de uma dieta saudável chegou a 4,28 dólares em paridade de poder de compra por pessoa por dia, contra 3,44 em 2021 e 2,94 em 2017.

No Brasil, a mesma tensão aparece em escala menor. Entre 2021 e 2025, a parcela de brasileiros sem dinheiro para uma dieta saudável caiu de 31,2% para 21,1%, ou de 65,3 milhões para 44,8 milhões de pessoas. No mesmo período, a cesta ficou mais cara. O custo da dieta saudável no país foi estimado em US$ PPC 4,89 por pessoa ao dia em 2025, acima dos US$ PPC 4,69 de 2024. Mesmo assim, o valor brasileiro ficou abaixo da média da América do Sul (US$ 4,94) e da América Latina e Caribe (US$ 4,91). A insegurança alimentar severa caiu de 6,6% no triênio 2021-2023 para 0,6% em 2023-2025. O relatório registra, ao mesmo tempo, os dois lados da má nutrição. Em 2024, 63,3% das crianças brasileiras de 6 a 23 meses tinham uma alimentação minimamente diversificada, contra uma média global de 30,8%. No mesmo ano, 10,9% das crianças menores de 5 anos, ou 1,4 milhão, estavam acima do peso saudável.

A pressão de fora também cresce. O Índice de Preços dos Alimentos da FAO ficou em média em 136,0 pontos em setembro, terceira alta mensal seguida, e voltou ao nível de novembro de 2022. O índice de cereais subiu 5,1% no mês e ficou 17,2% acima de setembro de 2025. Segundo a FAO, o temor de um El Niño severo levou o preço internacional do açúcar ao maior nível em 18 meses. O economista-chefe da organização, Máximo Torero, disse que bloqueios no Estreito de Ormuz e no Mar Negro, somados a choques climáticos, pressionam energia, transporte e alimentos, e que essa pressão deve chegar ao consumidor se persistir, sobretudo nos países que importam comida e energia.

O governo brasileiro já trabalha com esse risco. Em julho, o Ministério da Fazenda elevou de 4,5% para 5,1% a projeção de inflação de 2026, citando a alta de produtos in natura, leite, arroz e feijão e o risco de um El Niño mais intenso, que pode pressionar preços ainda neste ano e ameaçar a safra de 2027. O Rabobank colocou números nesse risco. Um El Niño moderado somaria cerca de 0,36 ponto percentual ao IPCA acumulado em 12 meses. Um evento severo somaria 0,53 ponto. O efeito chegaria ao orçamento das famílias cerca de seis meses depois do início da safra 2026/2027. Maurício Une, economista-chefe do banco para a América do Sul, citou projeções da NOAA que dão cerca de 63% de chance de um El Niño forte entre novembro e dezembro.

A relação entre prato e clima tem mão dupla. A produção de comida sofre com o tempo e também altera o tempo. A Comissão EAT–Lancet, em relatório de outubro de 2025, estimou que os sistemas alimentares respondem por cerca de 30% das emissões globais de gases de efeito estufa. Menos de 1% da população mundial vive no chamado “espaço seguro e justo”, e os 30% mais ricos geram mais de 70% das pressões ambientais ligadas à comida. No Brasil, o peso é maior. Uma reportagem do Jornal da USP aponta que o sistema agroalimentar responde por três quartos das emissões do país.

A ciência mais recente desmonta a ideia de que comer de forma saudável e com menos carbono é sempre mais caro. Um estudo publicado na Nature Food em 2025 calculou custos e emissões de 440 produtos alimentares necessários para dietas saudáveis em 171 países. Em 2021, uma dieta saudável montada com os alimentos mais consumidos em cada país emitia 2,44 kg de CO₂ equivalente por pessoa ao dia e custava, em média, US$ 9,96. A versão de menor custo emitia 1,65 kg e custava US$ 3,68. Na maioria dos casos, a escolha mais barata dentro de cada grupo de alimentos também é a menos poluente.

Renda é o outro lado da conta. Uma modelagem publicada em 2026 na Communications Earth & Environment projetou as dietas brasileiras de 2020 a 2100 e concluiu que reduzir a desigualdade de renda melhora em 5,7% a qualidade nutricional e evita de 40% a 50% do aumento das pressões ambientais previsto em cenários de desigualdade crescente. O efeito não é imediato. No curto prazo, a redução da desigualdade piora as pressões ambientais da dieta em 2,2% em média, e os autores avaliam que ela sozinha não basta: precisa vir acompanhada de um pacote mais amplo de políticas.

Uma dessas políticas entrou em vigor em janeiro. A Lei nº 15.226, de 1º de outubro de 2025, elevou de 30% para 45% a fatia mínima dos recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) destinada a compras diretas da agricultura familiar. A Resolução nº 4/2026 do FNDE regulamentou a regra e deu prioridade a comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas. Alguns estados já estavam perto do novo piso. Pernambuco aplicou 40% dos recursos da alimentação escolar da rede estadual em produtos da agricultura familiar em 2025, mais de R$ 40 milhões. É o tipo de inovação que o tema da FAO descreve: menos máquina e mais arranjo institucional entre quem planta e quem come.

O estudo da Nature Food também calculou o caso extremo. Uma dieta saudável com os produtos de menor emissão, como aveia, atum, sardinha e maçã, emitiria apenas 0,67 kg de CO₂ equivalente por dia, mas custaria US$ 6,95, quase o dobro da opção mais barata.

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