Dia Internacional da Biodiversidade 2026

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Dia internacional da
Biodiversidade 2026

Da floresta ao prato: biodiversidade e segurança alimentar

Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026

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Floresta em equilíbrio. Da diversidade genética das sementes aos polinizadores e predadores naturais, é a biodiversidade que sustenta silenciosamente a segurança alimentar de bilhões de pessoas - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

De cerca de 250.000 espécies de plantas conhecidas no planeta, apenas cerca de 200 são usadas na agricultura em escala comercial. Dessas, três culturas — trigo, arroz e milho — respondem por mais da metade das calorias consumidas pela população humana global, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A dieta da humanidade, em termos calóricos, é extraordinariamente concentrada em uma base genética estreita. É o oposto exato do que a evolução produziu ao longo de milhões de anos.

Essa concentração tem uma consequência direta que gestores de risco em segurança alimentar reconhecem há décadas, mas que os sistemas de precificação ainda não incorporam plenamente: vulnerabilidade. Uma praga ou patógeno adaptado às variedades geneticamente uniformes de trigo ou arroz que dominam a produção comercial pode devastar colheitas em escala continental, sem encontrar a resistência que a diversidade genética naturalmente proporcionaria. A ferrugem do cafeeiro (Hemileia vastatrix), que destruiu a economia cafeeira de Ceilão no século XIX e impulsionou a expansão global do chá, permanece um dos exemplos históricos mais eloquentes de como uma única doença vegetal pode reorganizar cadeias produtivas, mercados e hábitos de consumo em escala internacional.

O sistema alimentar global opera sobre uma contradição que raramente aparece nos relatórios de produtividade: para alimentar oito bilhões de pessoas, a humanidade depende de uma biodiversidade que está sendo sistematicamente destruída. A comida que chega ao prato é, em escala crescente, produzida por um sistema que homogeneíza, simplifica e fragiliza exatamente as bases biológicas sobre as quais a produção agrícola repousa.

As variedades crioulas — sementes selecionadas ao longo de gerações por comunidades rurais para se adaptarem a condições locais específicas — são o arquivo genético que a agricultura industrial vem descartando gradualmente. Elas carregam resistências a doenças, tolerâncias a variações climáticas e características nutricionais que as variedades comerciais de alta produtividade perderam no processo de seleção artificial voltado à uniformidade e ao rendimento. O Brasil possui um dos mais ricos patrimônios de variedades crioulas do mundo — concentrado especialmente em comunidades indígenas, quilombolas e de agricultores familiares do Nordeste, do Cerrado e da Amazônia — e a pesquisa da Embrapa em agrobiodiversidade tem documentado sistematicamente esse acervo, embora o ritmo de documentação seja inferior ao de perda.

O controle biológico natural de pragas — realizado por predadores, parasitoides e micro-organismos que regulam as populações de insetos herbívoros — é outro serviço da biodiversidade que a agricultura convencional substituiu por agrotóxicos e depois tratou como tecnologia concorrente. Na prática, a pesquisa agrícola mais avançada voltou ao controle biológico não por razões ambientais, mas por razões econômicas: a resistência crescente dos artrópodes-praga aos pesticidas e o custo crescente do desenvolvimento de novos produtos tornaram a alternativa biológica progressivamente mais competitiva. A Embrapa Meio Ambiente mantém uma das mais completas coleções de agentes de controle biológico da América Latina — com pesquisa aplicada que já resultou em produtos comercialmente disponíveis para culturas como soja, cana-de-açúcar e algodão.

A relação entre biodiversidade e segurança alimentar também passa pelo oceano — uma dimensão frequentemente ausente das análises sobre os sistemas alimentares. Mais de três bilhões de pessoas dependem de proteína marinha como fonte primária de proteína animal, segundo a FAO. A saúde dos ecossistemas marinhos — incluindo a integridade dos recifes de coral, das pradarias e das zonas de ressurgência costeira — é uma condição fundamental e direta para a produtividade pesqueira. A degradação desses ecossistemas não afeta apenas a biodiversidade marinha: também compromete a segurança alimentar de populações costeiras vulneráveis que não dispõem de alternativas proteicas de baixo custo.

A biodiversidade não é um complemento ao sistema alimentar. É sua fundação. E fundações removidas lentamente tendem a fazer barulho apenas quando o edifício desaba.

Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.

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