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Urbanização avança sobre encostas e várzeas e amplia exposição territorial no Brasil

Escrito por Neo Mondo | 4 de março de 2026

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Urbanização em encostas expõe cidades a deslizamentos recorrentes e transforma risco geológico em crise urbana anunciada - Foto: Morro São Bento em Santos/Felixx Drone

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

O Brasil expandiu suas cidades 2,5 vezes entre 1985 e 2024. Parte relevante desse crescimento ocorreu onde o risco físico é maior

Dados divulgados pelo MapBiomas mostram que as áreas urbanizadas passaram de 1,8 milhão para 4,5 milhões de hectares no período — cerca de 0,5% do território nacional, com incremento médio de 70 mil hectares por ano. Mais de 60% dessa expansão ocorreu a partir de 1985.

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A questão central não é apenas o quanto se urbanizou, mas onde.

As áreas urbanizadas em alta declividade triplicaram. Eram 14 mil hectares em 1985. Em 2024, somam 43,4 mil hectares. Desse total, 40,5 mil hectares estão na Mata Atlântica, o bioma mais urbanizado do país.

Encostas acima de 30% de inclinação concentram maior suscetibilidade a deslizamentos e erosão. A expansão sobre esses terrenos cresceu mais rapidamente do que a urbanização total.

Minas Gerais lidera em área urbanizada em alta declividade, com 14,5 mil hectares em 2024. Juiz de Fora tornou-se a terceira cidade brasileira com maior ocupação em terrenos íngremes, atrás de Rio de Janeiro e São Paulo. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, o crescimento proporcional foi ainda mais acelerado — sete e seis vezes, respectivamente.

A exposição não se limita às encostas.

O MapBiomas também analisou áreas urbanizadas com diferença vertical de até três metros em relação à drenagem natural mais próxima. Essas áreas, mais suscetíveis a enchentes e inundações, cresceram 145% em quatro décadas — de 493 mil hectares para 1,2 milhão de hectares.

Rio de Janeiro e São Paulo lideram em termos absolutos. Em termos proporcionais, Roraima apresenta o maior percentual de urbanização nessa faixa altimétrica: 46,4% de sua área urbanizada está até três metros da drenagem mais próxima. No Rio de Janeiro, esse percentual é de 43%.

O padrão histórico de ocupação junto a corpos d’água tornou-se mais sensível diante da intensificação de eventos hidrológicos extremos. A expansão urbana consolidou-se em áreas que cumprem função natural de absorção e regulação de cheias.

Há ainda uma dimensão social explícita.

As áreas urbanizadas em favelas cresceram 2,75 vezes entre 1985 e 2024 — ritmo superior ao da urbanização média nacional. Passaram de 53,7 mil hectares para 146 mil hectares. Em 2024, 82% dessas áreas estavam localizadas em regiões metropolitanas.

Em encostas, a área de favelas aumentou mais de 150%. Em áreas até três metros acima da drenagem, o crescimento superou 200%, alcançando 45 mil hectares.

O fenômeno é tipicamente metropolitano. A Região Metropolitana de São Paulo concentra 11,8 mil hectares urbanizados em favelas. Manaus e Belém apresentam proporções elevadas em relação ao território urbano total. Brasília reúne quatro das cinco favelas que mais expandiram no período, incluindo Sol Nascente e 26 de Setembro.

A sobreposição entre expansão urbana e áreas de segurança hídrica crítica reforça o padrão. De 670 mil hectares de expansão urbana sobre áreas naturais, 25% ocorreram em zonas classificadas como de segurança hídrica mínima, afetando 1.325 municípios. Em cinco estados do Nordeste, mais de 70% do crescimento urbano ocorreu nessas condições.

A expansão territorial superou em dobro o crescimento populacional no período: 2,4% ao ano contra 1,1%. Predomina um modelo espraiado e de baixa densidade.

Ao mesmo tempo, 680 mil hectares urbanizados em 2024 eram áreas naturais em 1985. Outros 1,84 milhão de hectares substituíram áreas agropecuárias. O avanço urbano sobre uso agropecuário foi 2,7 vezes maior do que sobre áreas naturais.

Quase metade da área urbanizada brasileira está hoje em regiões metropolitanas. A concentração territorial permanece elevada, embora o crescimento percentual fora desses núcleos seja maior.

A Mata Atlântica registrou expansão urbana de 1,3 milhão de hectares no período. O incremento médio foi de 34,2 mil hectares por ano.

As áreas urbanas vegetadas aumentaram 293%, alcançando 620 mil hectares em 2024. Contudo, nas áreas já consolidadas em 1985 houve perda líquida de vegetação. O ganho ocorreu sobretudo na incorporação de áreas periurbanas ainda em processo de ocupação.

O conjunto dos dados aponta para um padrão consistente: o país expandiu sua mancha urbana em ritmo superior ao crescimento demográfico e com elevada incorporação de territórios ambientalmente sensíveis.

foto de deslizamento em são sebastião, remete a matéria Urbanização avança sobre encostas e várzeas e amplia exposição territorial no Brasil
Deslizamento em Sã Sebastião - Foto: Divulgação

A urbanização brasileira das últimas quatro décadas não apenas ampliou a superfície construída. Ampliou a superfície exposta.

Os dados completos estão disponíveis em: https://brasil.mapbiomas.org/

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