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Dia seguinte

Escrito por Daniel Medeiros | 5 de outubro de 2026

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Dia seguinte à derrota, a defesa da democracia recomeça: como Sísifo, é preciso voltar à pedra e seguir - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DANIEL MEDEIROS*

Dia seguinte. Há derrotas que parecem maiores do que uma eleição. Não porque uma eleição possa decidir tudo, mas porque este resultado condensou, em números, uma vontade que se espalhava pelas ruas, pelos grupos de conversa, pelos almoços de domingo, cheia de tensão e ainda sem coragem de ser gritada aos quatro ventos: a vontade de uma parte significativa do país que se cansou da promessa de igualdade, que desconfia dos direitos sociais e que prefere a segurança de um passado imaginado à incerteza de um futuro que não controla.

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O novo Congresso parece confirmar isso. Mais conservador, mais hostil a muitas das conquistas inscritas na Constituição de 1988, ele se instala para os próximos quatro anos carregando não um programa político, mas uma pilha de ressentimentos. O curioso ressentimento de quem acredita ter perdido alguma coisa, mesmo quando não consegue dizer exatamente o quê. E, como todo ressentimento, ele precisa encontrar culpados. Seremos muitos de nós.

Para quem acredita que é importante estar do lado dos direitos, da democracia social e da equidade, mesmo sem precisar deles para si, o resultado destas eleições desconcerta. Parece um absurdo. Revolta.

Pois é. Talvez seja justamente agora que precisemos nos lembrar de Sísifo.

Albert Camus, escritor e filósofo francês nascido na Argélia, reconta em O mito de Sísifo a história do homem condenado pelos deuses a empurrar uma pedra montanha acima. Quando ele chega perto do alto, a pedra rola de novo para baixo. E Sísifo precisa recomeçar. Não há vitória. Nunca há conclusão. Não há aquele momento reconfortante em que o trabalho finalmente termina e podemos respirar aliviados. Não há. Só Sísifo e a pedra.

A democracia é um pouco assim.

Cada direito conquistado pode rolar montanha abaixo. Cada avanço pode ser detido. E cada geração precisa reaprender coisas que dávamos por resolvidas. A Constituição de 1988 não acabou com a desigualdade brasileira. Apenas estabeleceu, em seu texto e em suas instituições, que a desigualdade não deveria ser aceita como destino. Talvez tenhamos cometido o erro de imaginar que determinadas conquistas haviam se tornado irreversíveis, de tão boas e tão desejadas que eram. Mas não se tornaram. E o desejo envelheceu. Direitos não são como monumentos romanos que resistem aos séculos. É preciso cuidar deles. É preciso defendê-los da mesma forma que é preciso respirar. E, de tempos em tempos, é preciso refundá-los. E sempre, sempre, sempre, é preciso praticá-los.

Nossa maior fraqueza é a distorção epistemológica de supor que todo mundo luta pela democracia. Na maior parte do país, democracia é uma palavra de almanaque. As pessoas querem brilhar, querem sucesso, querem ter bens, querem cuidar da família, querem crer e querem crescer. E a democracia, do jeito como foi cultivada nas últimas décadas, distante e arrogante, não rima, aos ouvidos da maioria, com nenhum desses desejos.

Mas precisamos persistir, reinventando-nos. E o absurdo, diria Camus, está justamente aí. Não haverá garantia de que nosso esforço produzirá o resultado esperado. Não há nenhuma lei histórica que assegure que o amanhã será melhor que o hoje. Não existe uma marcha inevitável do progresso. Há apenas homens e mulheres disputando, em cada tempo, aquilo que entendem ser uma vida justa e boa.

É por isso que a pior resposta a esse resultado eleitoral seria desanimar. A segunda pior, embarcar no ressentimento. Não precisamos nos tornar aquilo que criticamos. Se uma parte da política brasileira decidiu transformar a frustração em ódio, não precisamos responder convertendo a derrota em desprezo. O outro continua sendo cidadão. O adversário continuará sentado no Congresso. E, gostemos ou não, continuará fazendo parte do país que precisamos transformar. Isso não significa aceitar tudo. Significa compreender que a democracia não é a vitória definitiva de um lado sobre o outro. É, isto sim, a permanente possibilidade de disputar o sentido da vida comum sem destruir as condições que permitem essa disputa.

Nos próximos quatro anos, muita coisa poderá ser difícil. Direitos serão questionados. Políticas públicas serão atacadas. A desigualdade poderá voltar a ser apresentada como mérito, e a proteção social, como privilégio. Haverá, provavelmente, muito barulho. Mas, quem sabe, seja justamente no meio desse barulho todo que teremos de recuperar duas virtudes pouco apreciadas neste tempo líquido: a paciência e a humildade.

Sísifo sabe que a pedra vai cair. E, ainda assim, volta para buscá-la. Não porque seja ingênuo. Não porque espere que os deuses finalmente reconheçam seu esforço. Não porque tenha recebido alguma garantia de que, desta vez, tudo será diferente. Ele simplesmente não aceita que o absurdo tenha a última palavra.

É preciso que façamos o mesmo.

A pedra rolou lá para baixo. Pois bem, senhoras e senhores. Vamos buscá-la.

*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

foto de daniel medeiros, autor do artigo dia seguinte
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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