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Escrito por Neo Mondo | 27 de março de 2026
Ciência ao amanhecer: o Canal Grande de Veneza, cidade que sediou o primeiro Simpósio Internacional para uma Ciência Oceânica Transformativa, entre 24 e 27 de março de 2026 - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Primeiro simpósio internacional dedicado à ciência oceânica transformativa reuniu 400 pesquisadores de 23 países na cidade italiana; o Brasil marcou presença com agenda própria — e com perguntas que incomodam
O Arsenal da Marinha de Veneza foi construído para fabricar guerras. Durante séculos, aquelas tesas abobadadas deram forma a galeras, armamentos e impérios. Na última semana de março de 2026, o mesmo espaço abrigou uma pergunta radicalmente diferente: o que precisa mudar na forma como a ciência oceânica é produzida para que ela consiga, de fato, transformar o mundo?
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O Simpósio Internacional para uma Ciência Oceânica Transformativa — organizado pelo Instituto de Ciências Marinhas do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália (CNR-ISMAR), em colaboração com dezenas de parceiros nacionais e internacionais — reuniu entre 24 e 27 de março cerca de 400 pesquisadores, formuladores de política e representantes de 13 organizações internacionais. Não era um congresso de resultados, daqueles em que séries de dados são apresentadas e arquivadas. Era uma conversa sobre arquitetura — sobre como redesenhar a ciência para que ela produza transformação real, e não apenas conhecimento acumulado.
O tema escolhido para a primeira edição do evento foi o Pacto Europeu para o Oceano, estratégia adotada pela Comissão Europeia em junho de 2025 que estabelece seis prioridades para a governança marinha no continente: saúde oceânica, economia azul sustentável, comunidades costeiras, pesquisa e inovação, segurança marítima e diplomacia internacional. O Pacto pretende ser o guarda-chuva normativo sob o qual uma futura lei europeia do oceano — o Ocean Act, previsto para ser proposto ainda em 2026 — ganhará estrutura vinculante. O que se discutiu em Veneza foi precisamente o intervalo entre essas ambições e a realidade: como a ciência pode ajudar a preencher esse espaço?
Os três dias de sessões fechadas giraram em torno de três eixos. O primeiro interrogou o papel da pesquisa na conciliação entre desenvolvimento econômico, responsabilidade ética e equilíbrio ambiental — o que os organizadores chamaram de "ciência transformativa". O segundo mapeou as novas fronteiras científicas e as abordagens interdisciplinares necessárias para implementar o Pacto. O terceiro, mais operacional, foi dedicado à produção de ferramentas concretas: um roteiro estratégico para orientar prioridades de pesquisa colaborativa, um policy brief com recomendações para o Parlamento Europeu e a Comissão, e um white paper sobre ciência oceânica transformativa. O quarto dia abriu as portas para o público na Sala Squadratori do Arsenal — a mesma onde navios de guerra esperavam o mar.
Um dos temas recorrentes nos debates foi a co-construção do conhecimento: a ideia de que a ciência oceânica não pode mais ser produzida apenas dentro das universidades, transmitida depois para os governos e por eles traduzida — ou não — em política. Esse modelo linear está em colapso não por falta de ciência, mas por excesso de distância entre quem pesquisa e quem decide. O simpósio apostou no seu oposto: na integração, desde o início, de tomadores de decisão, setor privado, terceiro setor e comunidades locais no processo científico. Não como receptores de resultado, mas como co-autores de perguntas.
A presença brasileira em Veneza foi discreta nas listas oficiais, mas substantiva em termos de agenda. Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e titular da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, acompanhou o simpósio e registrou em vídeo, durante o intervalo do almoço no Arsenal, a síntese do que viu: uma semana de discussões sobre como tornar a ciência aliada de processos transformativos, com ênfase no diálogo entre comunidade científica e atores não-acadêmicos, e na necessidade de investimento apropriado para que as soluções possam sair do papel.
Turra tem razão em prestar atenção nessa arquitetura. O Brasil não lidera nenhum programa da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, proclamada pelas Nações Unidas para o período 2021–2030 — e isso é um dado que o próprio pesquisador não hesita em nomear como problema. O país, com área marítima de cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados e economia associada ao ambiente marítimo estimada em 19% do PIB nacional, participa da Década sem protagonizá-la.
O Programa FAPESP para o Atlântico Sul e Antártica (PROASA), coordenado por Turra e lançado em 2024, representa uma tentativa de mudar essa equação. Endossado pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO como contribuição à Década do Oceano, o programa é descrito como a primeira iniciativa estruturada de uma agência de fomento à pesquisa no mundo diretamente acoplada à agenda da Década. Seu objetivo declarado é construir uma representação digital do Atlântico Sul e da Antártica para reduzir a vulnerabilidade da sociedade a riscos marinhos — inundações, deslizamentos, disrupções climáticas —, além de fomentar diplomacia científica e preencher lacunas de conhecimento sobre a porção mais subestimada do Atlântico. Associado ao PROASA está o Painel Internacional para a Sustentabilidade Oceânica (IPOS), apoiado pela FAPESP e pela USP, cuja concepção foi antecipada pela Declaração de Bruxelas, assinada por instituições científicas de vários países em 2023.
A lógica que atravessa tanto o simpósio de Veneza quanto o PROASA é a distinção entre dois modos de fazer ciência: aquela movida pela curiosidade — essencial, e que não deve ser descartada — e aquela que os organizadores do evento chamaram de "orientada a objetivos". Nesta segunda modalidade, a pergunta científica nasce do problema que precisa ser resolvido, e não apenas do que parece interessante investigar. Não se trata de substituir uma pela outra, mas de construir uma arquitetura de financiamento e institucionalidade que permita às duas coexistir e dialogar.
O momento para essa discussão não poderia ser mais preciso — ou mais exigente. A Conferência das Nações Unidas sobre o Oceano, realizada em Nice em junho de 2025, terminou com mais de 800 compromissos voluntários firmados sob o Plano de Ação de Nice e a adesão de mais de 170 países a uma declaração política que reafirma a meta de proteger 30% do oceano até 2030. A COP30, encerrada em Belém em novembro do mesmo ano, adicionou pressão climática à agenda marinha. O Tratado de Biodiversidade em Áreas Além da Jurisdição Nacional, assinado em 2023, entrou em vigor em janeiro de 2026. O mundo não está mais legislando sobre o oceano em ritmo de antecipação — está cobrando implementação. E o simpósio de Veneza foi, em parte, uma tentativa de responder a essa cobrança com algo além de promessas.

Ao final dos quatro dias no Arsenal, os participantes deixaram Veneza com três documentos a produzir e uma pergunta sem resposta definitiva: quanto tempo a ciência consegue esperar até que os legados da Década do Oceano sejam, de fato, legados — e não apenas relatórios sobre problemas que seguem os mesmos de quando a Década começou?
Fontes: CNR-ISMAR, Symposium on Transformative Ocean Science (symposiummarinescience.cnr.it); Agência FAPESP (agencia.fapesp.br); Revista Pesquisa FAPESP; Comissão Europeia — European Ocean Pact, COM(2025)281; Parlamento Europeu, EPRS Briefing, junho de 2025; IOC-UNESCO, Decade of Ocean Science for Sustainable Development.
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