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O oceano absorve 90% do calor do planeta e recebe menos de 1% do financiamento climático

Escrito por Neo Mondo | 17 de julho de 2026

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O oceano guarda pontos de não retorno que ainda não sabemos medir - Foto: Ilustrativa/Magnific

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Depois de Belém, o oceano precisa provar que não foi só um momento de palco

Há uma conta que Marinez Scherer repete em quase toda entrevista: o oceano absorve 90% do calor que a queima de combustíveis fósseis produz, segura um quarto do carbono que jogamos na atmosfera — e, até pouco tempo atrás, recebia menos de 1% do dinheiro destinado a combater a crise do clima. A conta não fecha. Foi para tentar fechá-la que ela passou 2025 viajando entre Belém, Nice e uma sucessão de salas de negociação, na função inédita de Enviada Especial para o Oceano da COP30.

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Agora ela está em São Paulo, no Hub FGV, para um dia inteiro dedicado a tirar o oceano da margem — "O Futuro é Azul" reúne governo, ciência, setor privado e comunidades costeiras na mesma sala, sem o peso simbólico de uma COP para segurar a atenção.

É esse o contraste que interessa: Belém deu ao oceano um momento de protagonismo com presidente discursando e imprensa internacional cobrindo — um protagonismo que, segundo ela, já vinha sendo construído ao longo de todo o ano, com diálogos permanentes criados dentro da própria estrutura da ONU e uma mobilização inédita que antecedeu a própria conferência. São Paulo não tem esse palco. O que está em jogo aqui não é se o ano de avanços foi real — foi —, mas se essa pauta consegue manter tração sem o peso simbólico de uma COP sustentando a atenção.

Ela fala como cientista que aprendeu, à força, a falar como negociadora. E é justamente nessa fricção — entre o dado que ela mede em laboratório e o número que ela precisa vender a investidor e a chefe de Estado — que mora o que vale a pena perguntar.

A seguir, a conversa completa com Marinez Scherer.

Estamos aqui porque o oceano regula o clima, sustenta a economia e protege milhões de pessoas — e, mesmo assim, segue fora do centro das discussões climáticas. Na sua leitura, o que explica essa ausência?

O problema nunca foi falta de ciência. Sabemos há décadas que o oceano regula o clima, absorve cerca de um quarto das emissões de CO₂ e mais de 90% do excesso de calor gerado pelo aquecimento global. O que faltou foi transformar esse conhecimento em prioridade política. O oceano não tem um ministério global nem um setor econômico que o represente de forma integrada. Ele acaba fragmentado entre pesca, transporte, energia, turismo e conservação. Meu trabalho tem sido justamente ajudar a construir essa narrativa: o oceano não é um setor da agenda climática. Ele é a infraestrutura natural que sustenta todos os outros — e é a integração dessa agenda que ainda está por fazer.

Você passou o ano rodando eventos internacionais como enviada da COP30. Nessa amostra toda, as negociações sobre oceano evoluíram de fato, ou o que mudou foi só o volume de gente falando sobre o assunto?

Sim, evoluíram. E essa evolução pode ser vista em marcos concretos. Um deles foi a criação dos Ocean and Climate Change Dialogues no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que estabeleceram um espaço permanente para discutir a relação entre oceano e clima nas negociações internacionais. Na COP30, vivemos outro momento histórico: o oceano ocupou lugar de destaque na Reunião de Líderes que antecedeu a abertura oficial da conferência. Como Enviada Especial para os Oceanos, tive a oportunidade de abrir esse encontro, com chefes de Estado e lideranças globais presentes, reforçando a necessidade de colocar o oceano no centro da agenda climática. Também realizamos uma sessão de alto nível dedicada à conexão entre oceano e florestas, deixando claro que esses ecossistemas são aliados inseparáveis no enfrentamento da crise climática. Esse protagonismo não aconteceu apenas durante a COP30. Ao longo de todo o ano de 2025, houve uma mobilização inédita em torno da agenda oceano-clima, com eventos, iniciativas e articulações internacionais que continuam se fortalecendo na preparação para a COP31. Isso demonstra que o oceano deixou de ser um tema periférico e passou a integrar, de forma definitiva, a agenda política de mais alto nível. O que falta agora é transformar esse reconhecimento em decisões, investimentos e ações concretas. Ainda há muito discurso e pouca implementação, mas percebo uma mudança significativa: hoje existe um entendimento crescente de que não será possível enfrentar a crise climática sem colocar o oceano no centro das soluções.

Existem soluções para o oceano já testadas e prontas para serem replicadas em escala. Das que você conhece de perto, quais você apostaria como as mais prontas para sair do papel agora?

Na COP30, o Grupo de Ativação do Objetivo 7 da Agenda de Ação — voltado à preservação e restauração dos oceanos e dos ecossistemas costeiros — entregou o Pacote Azul, o Blue Package. A proposta reuniu um conjunto de compromissos voluntários, iniciativas e mecanismos de financiamento já em desenvolvimento, voltados a ampliar a implementação de soluções baseadas no oceano, mobilizando governos, setor privado, bancos de desenvolvimento e filantropia. O pacote foi estruturado em torno de alguns eixos principais: conservação dos ambientes costeiros e marinhos; transição energética justa, sustentável e equitativa; resiliência climática da pesca e maricultura; descarbonização da frota de navios; e turismo costeiro e marinho sustentável. Esses eixos são entendidos como complementares e sinérgicos, dentro de um planejamento e gestão sustentáveis do oceano, com participação e engajamento social legítimo. O aspecto mais inovador do Blue Package foi mostrar que o oceano deve ser reconhecido como parte da solução — proteger o oceano não é apenas uma agenda ambiental, mas uma estratégia climática, econômica e social. Além disso, lançamos o Mutirão Azul, chamando a sociedade brasileira e internacional a mapear exemplos de soluções já em prática, implementadas por sociedade civil, empresas, governos locais e academia, com resultados climáticos claros, mensuráveis, escaláveis e replicáveis. Foram recebidas 67 soluções, sendo 48 de implementação no Brasil e 19 em outras regiões do planeta — a maioria delas coordenadas por mulheres. O Blue Package e o Mutirão Azul não encerram o trabalho. O sucesso dessas soluções vai depender da capacidade de transformá-las em implementação, monitoramento e financiamento contínuo, incorporando esses compromissos às estratégias climáticas nacionais.

Setor privado entrando no oceano pode significar conservação com capital de verdade, ou pode significar transporte marítimo e turismo se apropriando da palavra "azul" sem mudar prática nenhuma. Onde essa entrada te preocupa?

O setor privado deve fazer parte das soluções. Muitas das ações necessárias, da mitigação à adaptação, dependem do seu engajamento — seja na adequação do próprio negócio para uma Economia Azul sustentável, justa e equitativa, seja no financiamento das soluções propostas. O investimento privado é indispensável, mas precisa estar comprometido com resultados mensuráveis para a natureza e para as pessoas, e não apenas com marketing ambiental.

Tudo isso esbarra em financiamento. Que valor você considera que realmente mudaria o jogo, e o que trava a gente de chegar perto disso?

Não existe um único número mágico. O que está em jogo é mobilizar centenas de bilhões de dólares por ano em investimentos públicos e privados alinhados à conservação e ao uso sustentável do oceano. O Pacote Azul aponta que, até 2030, precisamos de pelo menos 116 bilhões de dólares por ano para implementar as soluções propostas. No entanto, o maior gargalo não é apenas falta de recursos — é que ainda financiamos muito mais atividades que degradam o oceano do que soluções que o recuperam. Precisamos mudar esse fluxo. No contexto dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, o ODS 14, relacionado à vida no oceano, é o que recebe menor investimento.

Qual o peso real de ouvir povos e comunidades tradicionais nessa conta toda?

É enorme. Não é uma questão de participação simbólica, mas de produzir decisões melhores com os atores sociais envolvidos. Trabalhando com planejamento espacial marinho, vi várias vezes mapas técnicos mudarem completamente depois da escuta de pescadores artesanais e comunidades costeiras, a partir do entendimento das áreas importantes para a manutenção dos modos de vida desses povos. O mapeamento participativo dos usos do oceano, por exemplo, revela usos, conflitos e conhecimentos que simplesmente não aparecem nos bancos de dados. Um mapa da situação atual, ou futura, nunca está completo até incorporar quem vive e depende daquele território.

Se você tivesse que apostar no que ainda não sabemos sobre o oceano e que pode virar essa crise de cabeça para baixo, no que você apostaria?

Para mim, a grande questão é entender melhor os pontos de não retorno dos ecossistemas marinhos. Ainda não conhecemos completamente a velocidade nem os limites das mudanças provocadas pelo aquecimento, pela acidificação e pela perda de biodiversidade. Descobrir esses limiares pode mudar profundamente a forma como planejamos o futuro e como nos adaptamos aos efeitos que essas alterações terão em todo o planeta. É necessário ter consciência de que o nosso planeta é um conjunto de ambientes conectados, que funcionam em conjunto. As alterações no oceano afetam a nossa vida cotidiana: o aquecimento global, e principalmente do oceano, altera regimes de chuvas e temperatura, leva ao aumento de eventos extremos e à vulnerabilidade social. Toda a sociedade e todos os setores econômicos dependem de um oceano saudável, que continue sendo nosso principal aliado na regulação climática.

Depois de um ano inteiro nesse papel, o que te tira o sono hoje quanto ao futuro do oceano, e o que te faz acreditar que valeu a pena?

O que me preocupa é que o clima está mudando muito mais rápido do que nossa capacidade de responder, mitigar e adaptar. Ainda discutimos soluções em uma velocidade incompatível com a crise climática, sem trazer para a mesa de negociações o financiamento necessário. Mas o que me dá esperança é ver uma transformação em que cientistas, governos, setor privado, comunidades e organizações internacionais começam a construir uma agenda comum para o oceano. Quando diferentes atores passam a compartilhar a mesma visão, existe um movimento de mutirão pelo clima — e a mudança deixa de ser uma possibilidade e começa a virar realidade.

Em algum momento da conversa, Marinez repete o número: menos de 1%. É o tipo de dado que funciona bem em manchete e mal em memória — esquece-se rápido. Talvez o que fique, depois que a entrevista terminar, não seja a estatística, mas a imagem por trás dela: uma bióloga que passou meses longe de casa para conseguir, pela primeira vez, um assento à mesa onde o clima do planeta é negociado — e que agora precisa descobrir se esse assento sobrevive sem o peso de uma COP sustentando-o. A pergunta que fica não é se o oceano finalmente entrou na conversa. É se alguém vai continuar puxando essa cadeira quando as câmeras não estiverem olhando.

foto de marinez scherer, entrevista da da matéria O oceano absorve 90% do calor do planeta e recebe menos de 1% do financiamento climático
Marinez Scherer - Foto: Arquivo pessoal

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