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Um El Niño como não se via desde 1950

Escrito por Neo Mondo | 21 de julho de 2026

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El Niño no horizonte: o Pantanal em chamas, retrato do que o Brasil pode voltar a enfrentar a partir de agosto — Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

A National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) divulgou na quinta-feira passada um número que muda a conta de qualquer balanço ambiental brasileiro para o segundo semestre: a chance de o El Niño atingir a categoria "muito forte" entre outubro e dezembro subiu de 63%, na projeção de junho, para 81%. Se a previsão se confirmar, será o episódio mais intenso desde que a série histórica começou a ser medida, em 1950 — um fenômeno que já se fortaleceu de maneira expressiva em junho, com a temperatura da superfície do Pacífico central e leste subindo mais de um grau em poucas semanas, e que a própria NOAA estima ter 97% de probabilidade de seguir ativo até o outono do hemisfério sul em 2027.

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O que torna esse número especialmente incômodo para o Brasil não é o El Niño em si, mas o solo sobre o qual ele vai atuar. A climatologista Friederike Otto, do Imperial College London, resume bem o problema: o fenômeno não chega a um planeta neutro, chega a um planeta que atravessou os três anos mais quentes já registrados, com 2024 fechando 1,55°C acima da média pré-industrial. A seca de 2023 e 2024 foi a mais extensa e intensa das últimas sete décadas no país, atingindo mais de 80% dos municípios em algum grau, e boa parte dos reservatórios e dos solos que sofreram com ela ainda não se recuperou plenamente. Um El Niño que chegasse sobre uma base neutra teria efeito. Um El Niño que chega sobre essa base já degradada tende a produzir consequências que, em outra época, exigiriam um evento de intensidade ainda maior.

O ponto de maior exposição é o Pantanal, onde a combinação de chuva abaixo da média, calor intenso e baixa umidade tende a se repetir a partir de agosto, justamente quando a estação seca atinge o auge — e onde 2024 já deixou um dos episódios de queimada mais graves da história recente do bioma. Há também o setor elétrico: Sudeste e Centro-Oeste concentram cerca de 70% da capacidade hidrelétrica instalada do país, e um El Niño "muito forte" tende a reduzir justamente as chuvas de que essas bacias dependem para gerar energia. Nenhum desses riscos é hipotético; todos já se manifestaram, em menor grau, nos episódios anteriores da série histórica.

Há uma ironia que qualquer leitor atento ao noticiário ambiental brasileiro dos últimos dias vai reconhecer: o país acaba de comemorar a menor área queimada na Amazônia desde 1985 e o menor volume de fogo em todo o território desde 2018. É um resultado real, mas construído sobre um ano climático relativamente favorável — e é exatamente essa variável climática que a NOAA agora revisa para cima. Um super El Niño entre outubro e dezembro não anula o mérito da fiscalização que ajudou a produzir os números deste ano, mas testa se esse ganho é estrutural ou circunstancial. A resposta só vai aparecer quando a estação seca do segundo semestre encontrar, pela primeira vez desde 1950, um fenômeno dessa escala.

Para quem monitora risco sistêmico, o dado da NOAA não é meteorologia distante — é uma variável que deveria entrar na conta de qualquer projeção sobre geração de energia, preço de commodities agrícolas, disponibilidade hídrica e, também, sobre a sustentação política dos números ambientais que o governo brasileiro leva à disputa eleitoral deste ano. Um resultado que hoje é motivo de discurso pode, em dezembro, ser a exceção que confirma o quanto o país ainda depende do clima para parecer bem-sucedido em sua própria política ambiental.

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