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Manguezal vira tema de mostra inédita no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro

Escrito por Neo Mondo | 8 de novembro de 2025

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“Preservar manguezais é proteger o início da vida no mar e o futuro do clima na Terra” - Foto: Enrico Marone

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

“Manguezal” é a primeira exposição dedicada aos manguezais do Brasil, unindo vida, resistência, ciência e arte contemporânea

Hoje — ou melhor: na véspera da COP30 — visitei a exposição Manguezal, que estreou no dia 29 de outubro de 2025 no CCBB Rio de Janeiro e ficará em cartaz até 2 de fevereiro de 2026.
Confesso: saí dali mais leve, mais esperançoso — e com vontade de contar a todos que o manguezal não é só um cenário, mas um protagonista.

Leia também: Manguezais brasileiros armazenam 1,9 bilhão de toneladas de CO2 com potencial de gerar R$ 48 bilhões em créditos de carbono

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Entrada em cena: o convite para um mergulho

Logo na entrada do CCBB RJ, fui recebido por uma voz baixinha do meu quase-eu curioso que disse: “Ok, de que lado está esse ‘manguezal’ que virou tema de exposição?”
E aí foi só seguir — pelos corredores, pela rotunda, por salas que aos poucos iam me transportando da urbanidade do Centro do Rio para os pântanos de raízes retorcidas, lodo, maré, vida escondida.

A curadoria de Marcelo Campos e a produção do Andrea Jakobsson Estúdio fazem desse lugar um território de sentidos. Em cada sala a exposição se apresenta não como “uma coisa de biologia” fria, mas como “um mundo que pulsa”.

O que eu vi — e senti
  • Fotografias de Enrico Marone que documentam manguezais de Norte a Sul do Brasil — lodo, folhas, raízes erguidas no alagado — viço e silêncio ao mesmo tempo.
  • Instalações contemporâneas que dialogam com o tema: artistas envolvidos como Annia Rízia, Gabriel Haddad & Leonardo Bora, entre muitos outros.
  • Obras históricas de nomes como Lasar Segall e Hélio Oiticica, que já tinham – de modos distintos – captado o mangue como parte da cidade, da modernidade, da resistência.
  • A materialidade do manguezal: barro-argila, raízes entrelaçadas, lama que não é sujeira — é berço. A exposição nos faz reconhecer que esse ecossistema sustenta comunidades, artes, ideias.

Eu me peguei tocando com o olhar um painel que representava o mangue como escultura de raízes que se erguem do chão lodoso. “Aqui se respira vida que sobrevive”, pensei. E sorri.

Por que isso importa — e muito

Para o público leigo — como muitos de nós somos —, o manguezal costuma parecer um lugar “estranho”, meio esquecido, entre o mar e o rio. E o fato é: ele é meio esquecido.
Mas, como a exposição lembra, o manguezal:

  • é berçário de vida marinha: muitas espécies de peixes, crustáceos, moluscos passam ali parte vital de seu ciclo.
  • atua como barreira natural contra marés e erosões costeiras — e, portanto, protege comunidades costeiras.
  • funciona como sumidouro de carbono — ou seja: ele sequestra carbono e ajuda a mitigar mudanças climáticas. Isso está sendo apontado por estudos recentes para o Brasil.
  • tem valor cultural e social: para comunidades tradicionais, indígenas, populações costeiras, o manguezal não é apenas “natureza”, é lar, trabalho, memória. VEJA

Quando a exposição trata o manguezal como território de vida, resistência e ancestralidade, não está exagerando — está sendo honesta com o que esse ecossistema representa no Brasil.

Arte + Ciência + Cultura: o triângulo da mudança

Uma das coisas que mais me tocaram foi perceber como essa exposição rompe com barreiras tradicionais: arte contemporânea encontra a ciência ambiental encontra a cultura popular. Por exemplo:

  • A fotografia científica de Marone faz base da mostra — pesquisa visual.
  • A arte contemporânea questiona, interpreta, revisita o mangue como símbolo político, como memória de comunidades negras, indígenas, mestiças.
  • A cultura popular aparece em propostas que envolvem o Carnaval carioca: fantasias protótipo que dialogam com o mangue, o enredo da escola de samba que será “A Nação do Mangue”. Isso liga a exposição ao cotidiano brasileiro, à festa, à vida.
  • E tudo isso se dá no momento em que se aproxima a COP30, logo ali, na agenda global da sustentabilidade — a mostra não é decorativa: ela é estratégica, provocativa.
Algumas minhas impressões pessoais
  • Senti uma alegria silenciosa ao ver o manguezal ganhar esse palco. Porque por tanto tempo esteve à margem — e ali está sendo celebrado.
  • Fiquei com os pés “meio lodados” de imaginação — pensei em raízes, marés, barro — e percebi que até meu corpo queria se inclinar para escutar o mangue.
  • Também senti uma saudade — de estar ali, fisicamente no mangue — o que me fez valorizar este ambiente mais ainda.
  • Por fim, saí com esperança. Se o manguezal vira tema de arte, de ciência, de exposição — há mais pessoas vendo, mais conversas começando, mais mudança possível.
O que isso significa para o Brasil / para a COP30 / para nós
  • Para o Brasil: reforça que temos riquezas naturais incríveis — e que não se trata apenas de florestas amazônicas, cerrado, pampas — o litoral também abriga ecossistemas vitais.
  • Para a COP30: esse tipo de mostra ecoa exatamente o que se discute em fóruns globais — natureza + sociedade + cultura. A arte pode ser canal de mudança.
  • Para nós, leitores, cidadãos, jornalistas: é um chamado para ver o invisível, valorizar o aparentemente “comum” (como o barro e a raiz) e entender que o futuro da vida pode depender de cuidados que hoje parecem invisíveis.
Conclusão: um convite para visitar – e para agir

Então — a exposição “Manguezal” no CCBB RJ é mais do que uma visita bonita. É uma conveniência — no bom sentido — de se posicionar, de aprender, de sentir e de transformar.
Te convido a percorre-la (se ainda não teve chance) — e depois refletir: o que posso fazer, como posso contribuir para que manguezais deixem de estar “esquecidos” e passem a estar “vistos”, “valorizados”, “protegidos”.

foto de homem no manguezal
A mostra “Manguezal”, é um convite poético e urgente para enxergarmos um dos ecossistemas mais vitais — e mais subestimados — do planeta - Foto: Matheus Belém

FIQUE POR DENTRO:

IndicadorValor / InformaçãoFonte
Área estimada de manguezais no BrasilCerca de 1,4 milhões de hectares ao longo da costa brasileira. Jornal da USP
Proporção em relação ao território nacionalAproximadamente 0,13% do território brasileiro. Fundação Grupo Boticário+1
Concentração dos manguezais em três estadosCerca de 80% dos manguezais brasileiros estão em Maranhão (~36 %), Pará (~28 %) e Amapá (~16 %). Serviços e Informações do Brasil+2Jornal da USP+2
Estoque estimado de carbono armazenadoOs manguezais brasileiros armazenam cerca de 1,9 bilhões de toneladas de CO₂ (equivalente) com potencial para gerar até R$ 48 bilhões em créditos de carbono. Guardiões do Mar
Potencial de sequestro por hectareEstudos indicam cerca de ≈ 468,3 toneladas de carbono por hectare em manguezais da Amazônia, “3 a 20 vezes” maior que biomas de terras altas. Universidade Federal do Espírito Santo+1
Comparativo solo/biomassaO solo dos manguezais da costa brasileira armazena até 4,3 vezes mais carbono nos primeiros 100 cm do que outros biomas. Notícias ambientais
Tendência de área entre 1985-2021A área total dos manguezais no Brasil aumentou cerca de 4% (de ~970 mil ha para ~1,011 milhão ha) nesse período. MapBiomas Brasil
Funções ecológicas / serviços ecossistêmicos• Berçário para espécies marinhas
• Barreira natural contra erosão e impacto de marés
• Armazenamento de carbono (“carbono azul”)
• Filtragem de resíduos costeiros.

Serviço
Exposição Manguezal
Curadoria: Marcelo Campos
Artistas: Ygor Landarin, Lucélia Maciel, Azizi Cypriano, Almir Lemos, Aislane Nobre, Gabriella Marinho, Abelardo da Hora, Ayrson Heráclito, Carybé, Celeida Tostes, Marcel Gautherot, Frans Post, Maureen Bisilliat, Marcone Moreira, Uýra Sodoma, Ganhadeiras de Itapuã, Enrico Marone, Gabriel Haddad, Leonardo Bora, Annia Rízia, Lasar Segall, Hélio Oiticica, Antônio Gonzaga
Exposição: de 29 de outubro de 2025 a 02 de fevereiro de 2026
Entrada gratuita - De quarta a segunda, das 9h às 20h (fecha às terças-feiras)
*Aos domingos, das 8h às 9h, atendimento exclusivo para visitação de pessoas com deficiências intelectuais e/ou mentais e seus acompanhantes, conforme determinação legal (Lei Municipal nº 6.278/2017).
Classificação indicativa: Livre
Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB RJ)
Rua Primeiro de Março, 66 – 2º andar
Centro – Rio de Janeiro / RJ
Contato: (21) 3808-2020 | ccbbrio@bb.com.br
Mais informações AQUI.

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