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SP Ocean Week 2026: como São Paulo se tornou o centro do debate oceânico do mundo

Escrito por Neo Mondo | 27 de maio de 2026

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SP Ocean Week 2026 — O Mundo Sereístico marcou presença no Memorial da América Latina com performers caracterizadas como sereias, traduzindo em fantasia e cor o que os painéis científicos traduziram em dados: o oceano como universo a ser habitado, imaginado e defendido - Foto: João Faria

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Cinquenta painéis, 70 palestrantes, 40 instituições, mais de 15 mil visitantes e entrada gratuita durante cinco dias. Esses números descrevem a estrutura. O que eles não descrevem é o que acontece quando uma metrópole de 22 milhões de pessoas — sem praia, sem porto à vista, sem contato cotidiano com o mar — decide que o oceano é assunto seu. Entre 20 e 24 de maio de 2026, o Memorial da América Latina foi exatamente esse lugar: o ponto em que a ciência oceânica brasileira saiu dos laboratórios, encontrou artistas, gestores públicos, estudantes e famílias, e produziu algo que poucos eventos conseguem — uma conversa que não termina quando as luzes se apagam.

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A SP Ocean Week chega à sua sexta edição organizada pela MídiaMar Comunicação e pela Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, vinculada à Universidade de São Paulo. Ao longo dessas seis edições, o evento construiu uma identidade que poucos fóruns ambientais no Brasil alcançaram: é simultaneamente rigoroso o suficiente para atrair os melhores pesquisadores do país e acessível o suficiente para que uma criança de oito anos saia com uma pergunta nova sobre o mar. Essa amplitude não é acidente de programação. É o projeto.

A edição de 2026 começou antes de começar. Nos dias 13, 14 e 15 de maio, os painéis Economia Azul e Ideias Azuis foram transmitidos pelo canal oficial da Cátedra UNESCO no YouTube, funcionando como aquecimento intelectual para o evento presencial. A Economia Azul debateu crédito azul, inteligência de dados para o setor náutico, rastreabilidade de alimentos e oportunidades na cadeia de valor offshore. Os Ideias Azuis reuniram nove debates focados nas áreas marinhas protegidas, com ênfase na meta global 30x30 e na gestão de ecossistemas como Abrolhos, Fernando de Noronha e Alcatrazes. Quem chegou ao Memorial no dia 20 já tinha vocabulário. O evento presencial pôde ir além da introdução.

A abertura formal, na noite de 20 de maio, foi um espetáculo de duas horas no Auditório Simon Bolívar, com entrevistas e música em sequência contínua. Com apresentação de Marina Person, o palco reuniu a conservacionista Zelinha, da Reserva Biológica do Atol das Rocas, a navegadora Heloísa Schurmann, o cientista polar Jefferson Cardia Simões e o estilista e ativista Oskar Metsavaht. BNegão abriu a noite com o espetáculo "BNegão canta Caymmi", mergulhando na força mística do mar. Artistas da cultura caiçara completaram o arco. A ciência e a arte entraram pelo mesmo corredor — como a SP Ocean Week consolidou ao longo de suas edições — e isso não é detalhe de programação. É uma declaração de que o conhecimento sobre o oceano não pertence apenas a quem usa jaleco.

Nos cinco dias seguintes, o Memorial operou como um arquipélago de experiências simultâneas. O Cais do Porto reuniu mais de 40 expositores entre ONGs de conservação marinha e institutos de pesquisa, apresentando projetos e iniciativas ligadas ao oceano. O Palco Mar Aberto manteve programação contínua com teatro, contação de histórias, oficinas e performances. O Mar de Livros recebeu lançamentos, sessões de autógrafos e rodas de conversa com autores. A Galeria LACO, com curadoria de Fabiane Borges, expôs artistas que propõem formas de enfrentar a contaminação das águas — obras digitais, vídeos, visualizações, blueprints e protótipos físicos. O Cinema Comentado exibiu documentários com mediação especializada. Estudantes de graduação tiveram programação certificada. O mesmo espaço físico abrigou a pesquisadora de pós-doutorado e a criança que construiu um microscópio para analisar plâncton — e essa não é uma proeza logística menor.

Paralela ao evento, o fotógrafo e ambientalista Mario Barila apresentou na exposição Cine Oceano 24 fotografias produzidas ao longo de incursões socioambientais, todas tendo a água como elemento central. A água doce e a salgada tratadas como um continuum — o rio que deságua no estuário que encontra o mar que regula o clima. Quando a questão oceânica é apresentada assim, como sistema, ela deixa de ser assunto de nicho.

O Movimento Pororoca deu ao evento sua dimensão nacional. De 16 a 23 de maio, o movimento percorreu diversas regiões do Brasil, unindo ONGs, empresas, instituições de ensino, governos locais e coletivos comunitários em atividades de educação ambiental e cultura oceânica. Em 2024, o Pororoca mobilizou mais de 450 mil pessoas; para 2026, a meta era ultrapassar 500 mil. Os resultados foram apresentados durante o próprio evento como evidência de que a cultura oceânica já tem capilaridade nacional suficiente para escalar — e isso muda a natureza da conversa. Não se trata mais de convencer as pessoas de que o oceano existe. Trata-se de organizar o que já existe em ação coletiva com consequências verificáveis.

Alexander Turra, professor titular do Instituto Oceanográfico da USP e coordenador da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, definiu a aposta com precisão: "O Movimento Pororoca tem a proposta de conectar pessoas e instituições para gerar uma grande onda de transformação. Precisamos ampliar a promoção da cultura oceânica e engajar a sociedade em ações concretas que contribuam para a conservação dos oceanos." A metáfora da pororoca é exata: não é uma onda que se dissipa na areia. É uma onda que inverte o curso do rio.

O evento foi realizado com apoio do Governo Federal e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, e contou com patrocínio da Repsol Sinopec Brasil, do Instituto Aegea e da Wilson Sons. A composição dos apoiadores revela algo sobre a maturidade que o evento alcançou: empresas do setor de energia e do setor portuário presentes num fórum de conservação marinha não configuram contradição — configuram o sinal de que o debate oceânico chegou ao lugar onde as decisões são tomadas.

foto de multidão na sp ocean week
No Cais do Porto, uma senhora se debruça junto a crianças e jovens sobre os mesmos materiais de pesquisa — a mesma curiosidade, décadas de distância. É isso que o evento faz de melhor: lembrar que o oceano não tem faixa etária - Foto: Marco Ankosqui/Programa Educação & Cultura

O que a sexta edição da SP Ocean Week demonstrou, acima de qualquer painel ou exposição, é que há uma geração de pesquisadores, gestores, artistas e cidadãos no Brasil que não está esperando o consenso global para agir. Estão mapeando recifes, propondo planos de manejo, financiando iniciativas, educando crianças e pressionando instituições — com sofisticação e alcance crescentes, edição após edição. São Paulo aprendeu que o oceano começa onde a atenção começa. E em maio de 2026, a atenção estava toda lá.

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