Escrito por Neo Mondo | 14 de agosto de 2019
Bibliotecas cidadãs
Com o exemplo protagonizado por estas bibliotecas cidadãs, qualquer tipo de estereótipo cai por terra, pois se trata de uma desconstrução com o objetivo de mostrar que a sociedade também tem um poder incalculável para colocar em prática mecanismos, que servem de exemplo, para atingir alguns dos propósitos do Objetivo do Desenvolvimento Sustentável 4, da Organização das Nações Unidas (ODS4/ONU), como o que trata de assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos até o ano de 2030. Atitudes locais que se baseiam em consumo sustentável, o ODS12, e que deveriam ser compromissos permanentes de políticas e gestores públicos.
Uma dessas histórias inspiradoras aconteceu no extremo sul da zona Sul de São Paulo, no bairro de Parelheiros, em 2009, em uma região de proteção ambiental, e envolveu um coletivo de jovens moradores, entre eles, Bruno Souza, Ketlin Santos, Rafael Simões, Sidineia Chagas e Silvani Chagas, com apoio do Instituto Brasileiro de Estudo e Apoio Comunitário (IBEAC). (
Seguindo para o Centro Oeste brasileiro, em Brasília, o exemplo vem do açougueiro baiano Luiz Amorim, que se alfabetizou aos 16 anos e desvendou os segredos da leitura a partir dos 18. Segundo seu relato à imprensa, tudo começou com sua paixão pelos clássicos da Filosofia, já nos anos 90. A vontade de compartilhar o prazer da leitura começou com uma estante para empréstimo de livros com dez exemplares e as doações só foram aumentando. Chegou um momento, conta, que a Vigilância Sanitária, no seu caso, não achava compatível que tivesse livros em um comércio como o dele. Problema resolvido: a Câmara do Distrito Federal aprovou uma lei que permite atividades culturais em estabelecimentos comerciais.
No ano de 2007, ele levou sua ideia para as paradas de ônibus, na W3 Norte. A iniciativa ganhou patrocinadores e agora, já existem cerca de 40 paradas por onde circulam cerca de 200 mil livros por ano. Não à toa, sua história figura no museu virtual Brasília e já virou inspiração também para projeto no metrô da cidade e para estrangeiros.
E por muitas vezes, as iniciativas estão bem perto de nós. Em São Caetano do Sul, há cerca de um mês, vi uma moradora, que estuda idiomas na mesma escola que frequento, deixar alguns livros no banco em frente à unidade, com recados simpáticos para quem quisesse levá-los. Ela se inspirou na filha, que também se motivou por meio de outra pessoa. O interessante foi observar as pessoas passavam e olhavam um pouco desconfiadas, mas depois folheavam os exemplares. Algumas viam que os assuntos as interessavam e levavam o livro. Doei alguns livros para seu projeto familiar por achar a ideia muito criativa.
Nesta rede de atitudes inspiradoras, a poucas quadras de casa, no parque municipal Guaiamu, também no município, o zelador da unidade fez uma casinha suspensa, na qual a administração da unidade colocou na entrada, para que as pessoas possam doar livros e retirar para leitura. Os usuários aproveitam a natureza do entorno para viajar, inclusive, na natureza das letras. E assim, vimos que pequenos gestos podem ganhar proporções ‘gigantecas’, pois são a essência da “alfabetização” da cidadania. Já o analfabetismo no stricto sensu deve ser extinto até 2024, segundo o Plano Nacional de Educação (PNE). Neste caso, será?
Veja também no Blog Cidadãos do Mundo (desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade) artigos referentes a esse e outros temas, ao longo dos últimos anos. É só consultar na busca.
*Sucena Shkrada Resk é jornalista, formada há 27 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo.
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