Escrito por Neo Mondo | 11 de maio de 2021
Em 4 de maio, Tony Goes destacava na Folha de S. Paulo o engasgo de uma trajetória estratosférica subitamente aniquilada. “A morte de Paulo Gustavo, aos 42 anos de idade, marca o fim precoce e repentino de uma carreira estelar, com poucos paralelos na indústria do entretenimento do nosso país. Em pouco mais de 15 anos, o ator saiu do anonimato para o posto de maior chamariz de público do cinema brasileiro.” É a vida que poderia ter sido e não será, em uma licença bandeiriana.Já no El País, Joana Oliveira registrou em 6 de maio que a morte de Paulo Gustavo “catalisou a dor coletiva e o ódio pela perda de quase meio milhão de brasileiros. A avaliação mais frequente é que ao menos parte das mortes seria evitável caso o governo federal, sob comando de Jair Bolsonaro, tivesse adotado as medidas necessárias na gestão da pandemia, como a compra em massa de vacinas já no ano passado”. Paulo Gustavo como símbolo, como a expressão mais panoramicamente possível do crime e tragédia covidiana nacional. Ainda no dia 6, Maurício Thuswohl noticiava na Carta Capital a iniciativa de moradores da cidade natal do ator. “Em Niterói (RJ), uma petição iniciada pelos moradores de Icaraí, bairro onde vive a família dele, pede que o nome Paulo Gustavo passe a batizar uma das principais vias da cidade: a Coronel Moreira César. A proposta, já encampada por vereadores e pela Prefeitura de Niterói, ganhou ares de protesto contra Jair Bolsonaro e sua postura frente à pandemia.”
Por fim, em 7 de maio Jana Sampaio e Raquel Carneiro resumiam na Veja o caráter ecumênico da tragédia pessoal de Paulo Gustavo. “Anestesiado por quase 420 mil mortes pela pandemia, o País via a doença, implacável, ganhar o rosto e o nome de Paulo Gustavo, inventor e encarnação de Dona Hermínia, a personagem levada do teatro para o cinema e que virou a mãe debochada de cada um. E, então, os brasileiros ficaram órfãos.”Quando esse homem de 42 anos, que atingiu o estrelado vestido de mulher inspirado pela própria mãe, pai de dois filhos pequenos e com a coragem de ter outro homem como marido neste país insistentemente conservador, morre pelas complicações de uma doença cuja pandemia poderia ter seus impactos diminuídos com menos negacionismo e políticas públicas eficientes, temos um resumo, uma versão condensada de todos os nossos erros recentes como país. Por isso, sua morte é um símbolo, é um canal para expressar sentimentos de angústia e frustração, mas também de carinho e solidariedade. O professor Luciano Maluly, chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, analisa o significado dessa comoção: “Paulo Gustavo não era uma peça, mas sim a pessoa que buscamos nas notícias, ou seja, aquele que luta contra a morte da cultura”, disse o professor ao Jornal da USP. “Seu talento é indiscutível e seu legado de vida deve e precisa ser preservado. Ele foi pai, mãe, filho, ator, entre outros tantos papéis que exerceu como um ato de amor.” Um homem morre e leva junto, também, a magia da arte. Especificamente essa que é tão difícil, a da comédia. É a alegria que se vê acuada por uma tropa de opressão, dor e confinamento. E, quando acontece, sentimos faltar o ar, o espaço e a esperança. Se é possível que o próprio riso – alívio mas também arma – tombe, o que nos resta, País que sem ilusões de heroísmo romântico elegeu como salvadores seus humoristas?
Dona Hermínia, personagem interpretada por Paulo em Minha Mãe É Uma Peça – Foto: DivulgaçãoBelo Monte: permanência, diálogo e desenvolvimento
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