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Escrito por Neo Mondo | 23 de julho de 2026
Epidemia: o rosto da preocupação já é familiar em milhões de lares brasileiros. Uma mãe e um filho diante da tela que decide se o mês vai fechar — ou se vai faltar. Cobrir esse dano é o que nos move a dizer não à propaganda de bets - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Uma família que recebe o Bolsa Família em uma cidade do interior brasileiro abre o aplicativo do banco para sacar o benefício e encontra, na tela seguinte, o convite de uma casa de apostas. Essa cena, hoje banal, resume um deslocamento que atravessou a economia doméstica antes de atravessar qualquer debate público. Em agosto de 2024, segundo o Banco Central, R$ 3 bilhões oriundos do programa chegaram a casas de apostas online — e o Ministério do Desenvolvimento Social já havia identificado 1,8 milhão de beneficiários usando o cartão do Bolsa Família nesse circuito. Não é um desvio de conduta isolado. É a assinatura de um mercado que aprendeu a se infiltrar em qualquer superfície disponível, do orçamento das famílias mais pobres à rotina de quem nunca havia apostado antes.
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A base factual desse quadro vem de fontes que dificilmente poderiam ser lidas como exagero retórico. Um estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo aponta as bets como o principal fator de endividamento das famílias brasileiras, cinco vezes acima do peso de cartões de crédito e empréstimos pessoais. O Instituto Locomotiva registrou que um terço dos apostadores já estava endividado em 2024, e quase metade afirmou ter sofrido prejuízo direto por causa do hábito. No campo da saúde ocupacional, os afastamentos pelo INSS motivados por ludopatia — a compulsão patológica por jogos — cresceram mais de 2.000% no mesmo período, um salto que qualquer epidemiologista reconheceria como sinal de disseminação descontrolada, não de flutuação estatística.
O dinheiro que sustenta essa disseminação é robusto e crescente. A Kantar Ibope Media calculou que as empresas de apostas investiram R$ 2,3 bilhões em compra de mídia no Brasil só em 2024 — 58% em televisão, 42% em canais digitais —, enquanto a receita bruta do setor alcançou R$ 37 bilhões no mesmo ano. Esses números explicam por que o setor, liberado em 2018 e regulamentado apenas em 2023, acumulou em poucos anos um poder de barganha suficiente para travar o avanço de matérias regulatórias no Congresso. Regulação tardia e lucro precoce formam, juntos, um desequilíbrio estrutural: o mercado amadureceu financeiramente antes que o Estado amadurecesse institucionalmente para supervisioná-lo.
É nesse vácuo que a publicidade das bets ocupou espaços que vão muito além do intervalo comercial. Ela está em jogos de futebol, em programas de auditório, em sites de notícias, em revistas, em shows e festas populares — uma onipresença que normaliza a aposta como gesto cotidiano, ao lado do café da manhã e do transporte público. O efeito sobre a população mais pobre não é colateral: é o núcleo do modelo de negócio. Endividar quem tem menos margem para se recuperar de uma perda não é falha do sistema; é o mecanismo pelo qual o sistema se sustenta.
Diante desse quadro, uma coalizão de dezesseis veículos jornalísticos brasileiros — Agência Lupa, Agência Pública, Alma Preta, Amado Mundo, Aos Fatos, Manual do Usuário, Matinal, Meio, Mobile Time, My News, Notícia Preta, NeoFeed, Plural, Portal IMPRENSA, Reset e o próprio Portal Neo Mondo — assinou nesta semana o editorial conjunto "Aqui não tem propaganda de bets", recusando publicamente qualquer publicidade de casas de apostas online. É um gesto coerente com o diagnóstico: aceitar esse tipo de patrocínio significaria contradizer, na prática comercial, o que a própria apuração jornalística documenta como dano social.
O gesto tem precedentes conhecidos em outras faixas do consumo — tabaco e bebida alcoólica já foram, historicamente, objeto de restrições publicitárias voluntárias e depois legais, por conta do dano social documentado que geravam. As bets parecem hoje seguir trajetória semelhante, ainda que sem o mesmo arcabouço regulatório: o próprio governo federal editou, em julho, portarias que proíbem comentaristas esportivos de recomendar apostas específicas durante transmissões e vedam campanhas que associem o jogo ao sucesso pessoal ou financeiro. Mas a norma chega depois do estrago: os afastamentos do INSS, o desvio do Bolsa Família e o endividamento em massa já aconteceram enquanto o setor discutia, em Brasília, os termos da própria regulação.

Fica a pergunta que a coalizão de veículos apenas devolve ao poder público: se o jornalismo conseguiu, voluntariamente e sem obrigação legal, recusar essa receita publicitária em nome do interesse público, o que falta para que o Estado regule com o mesmo rigor a atuação e a propaganda das próprias casas de apostas? Enquanto a resposta não vem, é a família que abre o aplicativo do banco quem continua pagando a conta.
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