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Escrito por Daniel Medeiros | 27 de abril de 2026
Último: entre o conforto e a renúncia silenciosa, a tranquilidade que evita o risco também apaga qualquer impulso de grandeza - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DANIEL MEDEIROS
O último homem é estimado pelos amigos e pela família. É tranquilo e passa um ar de sabedoria quando, em meio às discussões acaloradas, mantém-se distante com um discreto sorriso no rosto. O último homem não se posiciona, apenas diz: "o importante é saber viver em paz com as coisas".
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O último homem é apreciado no trabalho, porque é eficiente sem ser arrogante, prestativo sem ser submisso, alegre sem excesso e sério nas horas necessárias. Não reclama das horas extras nem do longo tempo sem promoções. Quando lhe perguntam se não deveria estar em um cargo de maior responsabilidade, ele sempre responde: "a minha hora vai chegar".
O último homem pratica esportes com acompanhamento médico, porque teme uma lesão séria. Há muito tempo não faz viagens de aventura, porque diz que os tempos estão difíceis e não é mais possível expor a família nesses ambientes mais isolados. Deixou o futebol do fim de semana porque o cardiologista disse que poderia ter um infarto. O boteco com os amigos, só de vez em quando, e sempre para depois do primeiro chope. Fritura, nunca mais. Mas se diverte, ao seu modo. Quando instigado a algum arroubo, diz, sem nostalgia: "isso é coisa do passado. Agora sou um homem maduro".
Nietzsche via o Último Homem como uma consequência inevitável da "morte de Deus" e do avanço da modernidade técnica e democrática, caso a humanidade não encontrasse um novo sentido para a existência. Sem um horizonte de transcendência ou de grandes objetivos, o ser humano tenderia, segundo o filósofo, a se tornar um "animal doméstico" — bem alimentado, seguro, mas desprovido de qualquer grandeza.
"Nós inventamos a felicidade — dizem os últimos homens, e piscam." Para o último homem, o objetivo supremo da existência é a "felicidade". No entanto, trata-se de uma felicidade entendida apenas como ausência de sofrimento, esforço ou conflito. Ele evita qualquer risco ou tensão que possa perturbar sua tranquilidade. O último homem é aquele que busca o "calor" do rebanho para se sentir seguro.
Esse conceito aparece logo no início do livro mais poético e enigmático de Friedrich Nietzsche, Assim Falou Zaratustra. Zaratustra, personagem principal da obra e encarnação do que o filósofo chama de "além-homem", apresenta o último homem e sobre ele alerta: "o último homem é o ser humano que desistiu de aspirar a algo maior e se contenta com a mediocridade confortável".
No entanto, quando Zaratustra alerta a multidão sobre o perigo de ser assim — de não possuir mais o "caos interior" necessário para dar à luz uma "estrela dançante", de enterrar a vida em uma mesmice morna e fantasmática, assumindo uma representação da existência como um protetor de tela de computador —, a multidão responde: "Dá-nos esse último homem, Zaratustra! Transforma-nos nesses últimos homens!".
O último homem distrai-se lendo livros sobre mindset e está curtindo as aulas de soft yoga. Uma vez por semana, uma amiga lhe dá orientações de meditação online. Nas próximas eleições estará viajando, mas se ficasse por aqui escolheria um candidato de centro. O último homem não acredita em nada radical. "Sou um homem que já passou dessa fase", ele diz, sem querer parecer presunçoso.
O último homem é o fim.
Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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