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Humanos não praticantes

Escrito por Daniel Medeiros | 20 de abril de 2026

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Humanos na primeira classe. Passageiros, no resto - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação

POR - DANIEL MEDEIROS

Tem se tornado comum, em meio à feroz disputa pelo mercado de atenção, oferecer serviços humanizados: hospitais, hotéis, escolas, creches, funerárias, todos irmanados em garantir uma experiência humana aos humanos. Não tardará que os pet shops embarquem nessa onda.

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O que chama a atenção é imaginar que oferecer serviços humanizados aos humanos é uma opção, um tipo de plus para o cliente. O que implica, por dedução, que devem existir os serviços desumanizados ou não humanizados. E que faz parte do business. Ou seja: para ser tratado como gente, basta apenas pagar um extra.

Há alguns anos eu procurava um carro para comprar e o vendedor ofereceu-me um modelo no qual estaria incluído no preço um kit de sobrevivência, com limpa-vidro e desembaçador traseiro. Eu confesso que achei engraçado, em um primeiro momento, e só depois fiquei indignado com a oferta: como assim, um kit "sobrevivência" como acessório?

Naturalizar que tratar qualquer pessoa de acordo com a dignidade que lhe é inerente é algo que não está disponível no mercado está na raiz da crise de violência e intolerância que assola a sociedade contemporânea. Recentemente, por exemplo, algumas companhias aéreas estabeleceram que dois dos quatro banheiros, nos voos internacionais, seriam de uso exclusivo da primeira classe e da classe executiva, destinando os outros dois para toda a classe econômica. O departamento de marketing da companhia "justificou" a medida da seguinte maneira: as pessoas que pagam mais têm o direito de saber que dispõem de serviços diferenciados e exclusivos. Mesmo que isso signifique obrigar duas centenas de pessoas, em um voo de dez a doze horas, sem qualquer outra opção possível, a dividir duas cabines de banheiro enquanto não mais do que vinte pessoas podem usufruir de duas cabines para si.

Alguns movimentos políticos, no mundo todo, têm se esmerado em destacar que a condição de ser humano não é suficiente para merecer um tratamento digno, entendendo o conceito de digno como a convicção e a garantia de que podemos viver a nossa vida sem que os direitos básicos para essa vida sejam negados — como, por exemplo, andar pelas ruas, respirar, beber água, ingerir alimentos, ter uma moradia, poder pleitear um trabalho, ir a um hospital, arranjar escola para os filhos, sentar em um banco de praça ou mesmo caminhar a esmo pelos corredores de um shopping, sem sermos importunados ou constrangidos por sermos nós, desde que concordemos em não ferir, matar, humilhar ou atentar contra a propriedade legítima dos outros.

Mas essas garantias têm se estreitado continuamente e, na maior parte das vezes, não temos percebido. E por não percebermos, aos poucos vamos admitindo que é assim, porque, afinal, há os que pagam e, se pagam, ganham o "direito" de se sentirem especiais.

A falácia que esse raciocínio encerra é que o direito de se sentir especial não poderia avançar sobre o que é necessário. Que um cidadão que queira assistir a um show de rock pague mais para ficar mais perto do palco ou pague menos e fique nas arquibancadas mais distantes é diferente do cidadão que ergue barreiras em um trecho de praia impedindo a circulação das pessoas, ou coloca seguranças na entrada de shoppings e proíbe o ingresso de quem não parece ter "perfil" de consumidor naquele ambiente ou, pior, prende ou constrange pelo fato de um indivíduo não parecer ser uma pessoa "de bem". Os casos têm se tornado tão corriqueiros que não mais nos afetamos por sua incidência em nosso cotidiano. E, assim, as fronteiras vão sendo testadas, dia após dia. Um dia é a cachorra que é espancada até a morte em uma praia por jovens de boa família. Noutro dia, é o morador de rua que recebe choques elétricos para a diversão de universitários entediados. Fora as zombarias, as agressões verbais, os gestos que diminuem e que estigmatizam.

Ainda somos o maior país católico do mundo. Mas nos acostumamos a ser católicos sem exercer nossa fé integralmente, ou mesmo em um nível básico de atenção às palavras compassivas de Jesus. Criamos o termo "católico não praticante", como se a primeira parte da expressão compensasse a confissão que a segue. O mesmo parece estar acontecendo com a nossa humanidade. Ainda batemos no peito e exaltamos nossa condição diante dos animais e da natureza. Mesmo que estejamos praticando muito pouco o potencial que a palavra humanidade encerra.

Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

foto de daniel medeiros, autor do artigo Humanos não praticantes
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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