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Escrito por Neo Mondo | 10 de agosto de 2026
Planeta menos brilhante absorve mais energia solar à medida que mudanças nas nuvens reduzem a capacidade da Terra de refletir radiação de volta ao espaço - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
A Terra reflete menos luz solar de volta ao espaço, acumula energia em ritmo crescente e expõe uma variável incômoda para quem transforma clima em preço: o passado pode estar perdendo valor como referência para calcular o risco do futuro
Visto do espaço, o Planeta Terra está mudando de brilho. Não é uma metáfora. Satélites que medem há mais de duas décadas a quantidade de energia que chega ao planeta e a parcela devolvida ao espaço registram uma redução de sua refletividade. Mais radiação solar permanece no sistema climático. E a diferença entre a energia recebida e a energia perdida — o chamado desequilíbrio energético da Terra — aumentou de forma acentuada neste século.
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Uma análise liderada por Norman Loeb, do NASA Langley Research Center, publicada em 2024 na Surveys in Geophysics, calculou que o desequilíbrio energético médio passou de 0,5 ± 0,2 watt por metro quadrado na primeira década deste século para 1,0 ± 0,2 W/m² na década seguinte. O aumento decorreu principalmente de maior absorção de radiação solar, parcialmente compensada pelo crescimento da radiação térmica emitida para o espaço.
O número parece pequeno apenas enquanto permanece abstrato. Aplicado continuamente à superfície do planeta, significa energia acumulada nos oceanos, continentes, atmosfera e criosfera. Em março de 2026, a Organização Meteorológica Mundial informou que o desequilíbrio energético atingiu em 2025 o maior nível de toda a série observacional de 65 anos. Mais de 91% do excesso de calor armazenado pelo sistema terrestre está nos oceanos.
A questão que agora ocupa uma parcela crescente da pesquisa climática está alguns quilômetros acima deles.
As nuvens baixas, particularmente aquelas que cobrem extensas áreas oceânicas, funcionam como enormes superfícies refletoras. Seus topos claros devolvem parte da radiação solar antes que ela seja absorvida pela água. Quando essas nuvens diminuem ou se tornam menos refletivas, o oceano escuro fica mais exposto e absorve mais energia.
Em estudo publicado na Science, Helge Goessling, Thomas Rackow e Thomas Jung identificaram um albedo planetário excepcionalmente baixo como uma das explicações para o salto da temperatura global observado em 2023. Segundo os pesquisadores, a redução da refletividade foi associada sobretudo à menor cobertura de nuvens baixas nas latitudes médias do Hemisfério Norte e nos trópicos.
Uma investigação publicada em março de 2026 na Atmospheric Chemistry and Physics avançou sobre esse mecanismo. Paulo Ceppi, do Imperial College London, e colaboradores analisaram observações de satélite entre meados de 2003 e meados de 2024. A diminuição global das nuvens baixas elevou a absorção de radiação solar em 0,22 ± 0,07 W/m² por década. No mesmo período, o desequilíbrio energético aumentou 0,44 W/m² por década. Em outras palavras, as alterações nas nuvens baixas responderam por uma parcela expressiva dessa trajetória.
A explicação, porém, não cabe em uma única causa.
O trabalho de Ceppi encontrou uma combinação entre feedback das próprias nuvens e ajustes relacionados aos gases de efeito estufa e aos aerossóis. Juntos, esses fatores explicaram cerca de 74% da tendência radiativa atribuída às nuvens baixas no período estudado. A contribuição estimada da variabilidade climática natural foi pequena, mas cercada por incerteza.
É justamente nessa fronteira que a discussão se torna mais delicada.
Se parte da perda de nuvens baixas for uma resposta persistente ao próprio aquecimento, estabelece-se uma retroalimentação: temperaturas maiores reduzem determinadas formações de nuvens; menos nuvens permitem maior absorção solar; a energia adicional favorece novo aquecimento.
Mas não existe consenso de que esteja emergindo uma retroalimentação muito mais forte do que a prevista pelos modelos. Um estudo publicado em 2026 na Communications Earth & Environment concluiu que observações recentes permanecem compatíveis com limites anteriormente estabelecidos para feedback de nuvens e interações entre aerossóis e nuvens. Outro trabalho, publicado em maio na mesma revista, encontrou reduções futuras mais moderadas de nuvens marinhas baixas quando determinados processos atmosféricos e oceânicos são incorporados à análise.
A incerteza, portanto, não diminui a relevância da descoberta. Ela a desloca.
Para a ciência climática, significa descobrir por que a Terra está absorvendo energia em ritmo tão elevado e até que ponto os modelos reproduzem corretamente essa evolução. Para setores que dependem de previsibilidade física para calcular perdas futuras, significa algo diferente: a distribuição estatística do risco pode estar se movendo enquanto os contratos são precificados.
É aí que entram as seguradoras.
Seguro é, em grande medida, uma indústria construída sobre probabilidades. Furacões, incêndios, enchentes, tempestades convectivas e secas são convertidos em curvas de frequência, severidade, exposição e perda. Modelos de catástrofe combinam essas variáveis para calcular quanto determinado risco custa e quanto capital deve ser reservado para absorvê-lo.
O problema aparece quando as relações climáticas deixam de ser estacionárias.
A própria Swiss Re descreve seus modelos de catástrofes naturais como instrumentos para seleção de risco, precificação e controle de acumulação. A resseguradora opera mais de 160 modelos globais para diferentes perigos e reconhece que o crescimento dos riscos associados ao clima, combinado à concentração de pessoas e patrimônio em áreas vulneráveis, torna a modelagem cada vez mais relevante para a sustentabilidade econômica do seguro.
Os balanços já mostram essa pressão. Segundo o Swiss Re Institute, catástrofes naturais produziram US$ 107 bilhões em perdas seguradas em 2025. Incêndios florestais, tempestades convectivas severas e inundações — os chamados riscos secundários — responderam por 92% desse total, a maior participação registrada. Apenas os incêndios de Los Angeles produziram aproximadamente US$ 40 bilhões em perdas seguradas.
Isso não significa que a redução do albedo possa ser ligada diretamente a determinada enchente, incêndio ou indenização. Fazer essa conexão seria cientificamente imprudente. O que a nova física do balanço energético altera é o pano de fundo sobre o qual esses fenômenos se desenvolvem.
Mais energia armazenada significa oceanos mais quentes, maior disponibilidade de calor no sistema climático e alterações capazes de modificar probabilidades de extremos. O risco segurador surge da tradução dessas mudanças físicas em frequência e severidade de perdas, combinadas à expansão urbana, valorização dos ativos, custos de reconstrução e concentração patrimonial.
A Munich Re chegou a conclusão semelhante ao analisar 2025: incêndios, inundações e tempestades severas responderam por praticamente todas as perdas seguradas associadas a catástrofes naquele ano, enquanto a mudança climática continua alterando as condições físicas nas quais esses eventos ocorrem.
No Brasil, essa conversa já ultrapassou os departamentos de sustentabilidade. Em abril de 2026, a Superintendência de Seguros Privados afirmou que o mercado segurador ocupa posição central na construção de resiliência econômica diante da elevação dos riscos climáticos.
A mudança mais profunda talvez esteja naquilo que uma seguradora considera um dado confiável.
Durante décadas, séries históricas ofereceram uma espécie de memória estatística do clima. O passado ajudava a delimitar as probabilidades do futuro. Mas uma atmosfera com concentrações crescentes de gases de efeito estufa, oceanos acumulando quantidades recordes de calor e alterações observáveis na refletividade planetária não reproduz exatamente as condições físicas nas quais essas séries foram construídas.
Esse problema não significa abandonar os modelos. Significa torná-los progressivamente mais dependentes de física climática, observações de satélite, projeções prospectivas e dados de alta resolução, em vez de extrapolar mecanicamente frequências históricas.
A própria ciência ainda trabalha para entender o que está acontecendo. Em maio de 2025, Thorsten Mauritsen, da Universidade de Estocolmo, e dezenas de pesquisadores publicaram na AGU Advances uma análise cujo título condensava o problema: Earth’s Energy Imbalance More Than Doubled in Recent Decades. Os autores observaram que a magnitude da tendência surpreendeu a comunidade científica e defenderam maior esforço para compreender suas causas.
Há ainda uma ironia adicional. No momento em que pequenas alterações na refletividade do planeta se tornam uma peça relevante para compreender sua trajetória térmica, a continuidade das observações passa a ser parte da própria infraestrutura de gestão de risco. Mauritsen e colegas alertaram para a deterioração da capacidade de monitorar o balanço energético à medida que satélites são retirados de operação. Um estudo publicado em julho de 2026 na Communications Earth & Environment voltou a enfatizar a necessidade de observações contínuas para compreender a estabilidade do albedo terrestre.
O planeta não ficou escuro. Ficou ligeiramente menos reflexivo.
A diferença parece pequena aos olhos. Para um satélite, aparece em watts por metro quadrado. Para o oceano, transforma-se em calor armazenado. Para a atmosfera, altera o orçamento de energia que organiza o clima.
E para uma seguradora, pode acabar aparecendo onde a abstração termina: no preço do risco.
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