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“Água: o recurso que definirá o século”

Escrito por Neo Mondo | 22 de março de 2026

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Água como centro de tudo: para Alexander Turra, a crise hídrica não é consequência do aquecimento global — é o sistema pelo qual ele se traduz em colapso - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Alexander Turra explica por que o colapso do ciclo hidrológico já redesenha riscos climáticos, decisões econômicas e a própria governança do desenvolvimento

Há uma certa estranheza em começar uma conversa sobre crise climática pela água, e não pelos gases de efeito estufa. Estes têm gráficos, metas, acordos internacionais com siglas conhecidas. A água tem rios que secam, chuvas que caem quando não deveriam e aquíferos que ninguém vê, desaparecendo. É justamente a invisibilidade política desses fenômenos que a torna um elo frágil, porém crítico nas discussões climáticas.

Alexander Turra, professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e coordenador da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, insiste na ampliação desse foco há anos. Para ele, as alterações no ciclo hidrológico são um importante termômetro da homeostase planetária, uma consequência das mudanças climáticas, o sistema pelo qual o aquecimento da atmosfera se traduz em colapso da natureza e da sociedade: falta de água, de comida, de energia, de equilíbrio.

Esta conversa parte de uma pergunta simples e desconfortável: e se estivermos deixando de cuidar da segurança hídrica enquanto não conseguimos reduzir as emissões de gases de efeito estufa?

Professor Turra, durante décadas tratamos a água como pano de fundo — abundante, gratuita, quase invisível. Hoje, ela emerge como um fator central de risco global. Em que momento a humanidade se desconectou da água, e o que isso revela sobre os limites do nosso modelo de desenvolvimento?

A água sempre foi o fundamento da vida. Cerca de 70% do corpo humano é composto por ela; uma proporção semelhante cobre a superfície do planeta. Essa dependência estrutural — biológica, climática, civilizatória — sempre esteve ali. Nós é que escolhemos não enxergá-la ou priorizá-la.

Do ponto de vista termodinâmico, a água é o principal meio de redistribuição de energia no sistema terrestre, atuando tanto na atmosfera quanto nos oceanos. A água nunca foi periférica; nós é que a empurramos para as margens do nosso raciocínio.

Esse equívoco começa a ruir quando fica evidente que a água, embora pareça abundante, é, na prática, finita — em quantidade, em qualidade, em acesso. A escassez hídrica, as migrações forçadas pela seca, as desigualdades de acesso: tudo isso revela que não estamos lidando apenas com um recurso natural, mas com um vetor de opressão e exclusão social.

Diferentes tradições — inclusive no âmbito da Rede Ecumênica da Água, da qual participo — defendem que a água deve ser compreendida como direito humano, bem comum, dom sagrado. Ignorar essa centralidade nos levou aos limites do modelo atual. Reconhecê-la é condição para qualquer transição real rumo à sustentabilidade. Mas além dos princípios, necessitamos de ações para enfrentar a insegurança hídrica, uma das principais consequências da emergência climática.

A crise climática costuma ser narrada em termos de temperatura, carbono e energia. Mas a ciência tem sido clara: o colapso em curso passa pelo ciclo da água. O que muda quando entendemos que o problema central do século, além do aquecimento em si, se reflete na desorganização da água no planeta?

Quando colocamos o ciclo da água no centro da análise, as alterações climáticas passam a ser percebidas de outro modo. A água é o principal canal pelo qual o calor que entra no sistema terrestre é transportado e distribuído. Oceano e atmosfera interagem continuamente, e os fluxos de calor e energia regulam a evaporação, os ventos, a precipitação e o degelo.

Na prática, isso significa que a regulação climática se traduz, sobretudo, em onde chove, quanto chove e onde deixa de chover. É aí que a crise se torna mais palpável para as pessoas. Mas essa crise tem outras nuances, como o degelo de glaciares e calotas polares que eleva o nível do mar e, ao mesmo tempo, reduz a capacidade do planeta de refletir os raios solares que chegam à sua superfície, contribuindo ainda mais para o aquecimento da atmosfera.

A desorganização do ciclo hidrológico amplifica a vulnerabilidade em cascata: afeta a agricultura, pressiona a geração de energia — especialmente em países com matriz energética dominada por fontes hidrelétricas, como o Brasil — e intensifica os conflitos pelo uso da água. A degradação da qualidade hídrica, como a crescente presença de microplásticos e outros contaminantes nos rios e no oceano, já começa a comprometer a segurança alimentar.

Não estamos diante de uma crise setorial. A instabilidade do ciclo da água conecta insegurança hídrica, energética e alimentar num único nó. Entender isso amplia os eixos das políticas públicas: além de fortalecer a agenda de mitigação climática, entra na agenda a resiliência socioecológica — que também é urgente. Em outras palavras, enquanto buscamos estratégias e acordos globais para reduzir as emissões, temos que atuar fortemente na adaptação às mudanças já em curso, como a crise hídrica.

Em fóruns internacionais, cresce a percepção de que disputas por rios, aquíferos e oceanos já moldam relações diplomáticas, alianças e conflitos. Estamos entrando em uma nova geopolítica da água? E quais são os riscos quando ela passa a ser tratada como um ativo estratégico, e não como um bem comum?

A água já ocupa uma posição estratégica crescente nas agendas nacionais. Países vêm estruturando políticas para aumentar sua resiliência hídrica diante de eventos extremos mais frequentes — tanto de seca quanto de excesso de água, como as enchentes recentes no Brasil deixaram claro.

O ponto mais sensível, porém, emerge nas regiões sujeitas à desertificação e à insegurança hídrica crônica. Nesses contextos, a escassez gera deslocamentos populacionais — os chamados refugiados climáticos ou hídricos — que frequentemente encontram barreiras políticas e sociais nas áreas de destino. Esse é um problema que ainda não encontrou uma resposta à altura.

Há também uma dimensão menos visível nessa geopolítica: o comércio internacional de produtos água-intensivos. Quando um país importa commodities agrícolas em vez de produzi-las localmente, quando pode, está, na prática, importando água enquanto economiza a sua. A soja brasileira ilustra bem essa dinâmica — bem como suas implicações para quem cede o recurso sem contabilizá-lo nos custos ambientais da produção.

O risco é claro: se a água passa a ser tratada como ativo estratégico acima de tudo, crescem as decisões orientadas por interesses de curto prazo. É por isso que a mitigação das emissões precisa andar de mãos dadas com estratégias robustas de adaptação — da recuperação de nascentes e de matas ciliares ao fortalecimento de soluções baseadas na natureza que recarregam os aquíferos. No caso do Brasil, proteger a Amazônia e os fluxos de umidade que ela promove — os chamados rios aéreos — não é uma agenda exclusivamente ambiental. Mais do que isso, é uma questão de soberania econômica, pois a chuva que sustenta a agricultura no Centro-Oeste e no Sudeste do país depende da umidade gerada pela floresta em pé.

O Brasil é frequentemente descrito como uma potência hídrica. Ao mesmo tempo, convive com crises de abastecimento, saneamento precário e desigualdade extrema no acesso à água. Essa contradição é apenas um problema de gestão ou revela algo mais profundo sobre como distribuímos poder, renda e território?

A percepção de abundância hídrica no país produziu, historicamente, uma sensação enganosa de segurança. A ideia de que a água seria infinita contribuiu para uma cultura de baixo planejamento — e para o uso pouco estratégico de um recurso que, na prática, impulsiona a economia e a prosperidade do país.

Observamos um desacoplamento evidente: há grandes volumes de água disponíveis, mas escassez localizada — seja por problemas de qualidade da água, seja por desigualdade de acesso. Isso não é uma falha de gestão operacional. É estrutural.

A água é um dos principais impulsionadores da economia brasileira: da geração de energia ao regime de chuvas que sustenta o agronegócio, passando pela chamada economia do mar, que pode representar cerca de 20% do Produto Interno Bruto. E, ainda assim, persistem bolsões de vulnerabilidade hídrica profunda. No mar, por exemplo, a baixa qualidade da água compromete a pesca, a aquicultura e o turismo, além de impossibilitar a subsistência das comunidades indígenas, quilombolas e caiçaras.

Em muitos casos, a água se torna um instrumento de dominação. A dependência histórica de carros-pipa em regiões semiáridas é um exemplo vivo disso. Experiências como a expansão de cisternas ou de barragens subterrâneas mostram que soluções estruturantes são possíveis — e que mudam as relações de poder. O desafio central é elevar a água ao status de política de Estado, orientada pela equidade e pela geração compartilhada de bem-estar e dignidade.

A transição energética e a digitalização da economia são apresentadas como caminhos inevitáveis para enfrentar a crise climática. No entanto, hidrelétricas, data centers e inteligência artificial ampliam significativamente a demanda por água. Estamos criando uma nova pressão sistêmica sobre os recursos hídricos em nome de soluções consideradas "limpas"?

A água desempenha múltiplas funções na sociedade — do consumo humano à produção de alimentos, da navegação à manutenção da biodiversidade. Mas ela também é um insumo crítico para diversas infraestruturas que hoje são consideradas pilares da transição contemporânea. No caso brasileiro, essa pressão ganha uma camada adicional devido à nossa alta dependência de energia hidrelétrica, considerada renovável, mas que acarreta inúmeros impactos ambientais e sociais duradouros.

Processos industriais intensivos, usinas nucleares e, mais recentemente, data centers dependem fortemente de água para resfriamento. Computadores não bebem água, mas seus sistemas de resfriamento, sim. E a expansão acelerada de data centers no Brasil torna esse debate particularmente urgente — especialmente quando as escolhas de localização dessas estruturas raramente consideram a bacia hidrográfica como variável relevante.

O dilema está posto: como expandir infraestrutura energética e digital sem comprometer a segurança hídrica? Ignorar essa equação vai gerar externalidades que ainda não estamos precificando. Será necessário avançar em soluções tecnológicas e locacionais, por exemplo, avaliando a viabilidade de alternativas e estruturas adaptadas ao ambiente marinho, como parques eólicos offshore ou mesmo data centers submersos no oceano, onde as condições térmicas podem ser mais favoráveis.

Além da escassez, enfrentamos uma crise silenciosa de qualidade da água: microplásticos, poluentes persistentes, agrotóxicos e esgoto. Quando o risco deixa de ser visível, como muda a relação da sociedade com o problema — e por que esse pode ser um dos desafios mais difíceis de governar neste século?

A degradação da qualidade da água é particularmente desafiadora porque, muitas vezes, esse fenômeno é invisível. Em alguns casos, a poluição é denunciada pelo cheiro, como no esgoto urbano, ou pela presença de resíduos visíveis, como no lixo no mar. Em outros — como na contaminação por metais pesados ou microplásticos — os impactos são imperceptíveis a olho nu, mas profundamente sistêmicos.

Essa invisibilidade tende a reduzir a percepção social de risco, ao mesmo tempo em que amplifica os efeitos de longo prazo sobre a biodiversidade, a segurança alimentar e a saúde humana. É um problema que age em câmera lenta — e, por isso, raramente gera urgência política.

Um exemplo concreto: em regiões do interior de São Paulo, águas subterrâneas a dezenas de metros de profundidade já apresentam restrições ao consumo humano direto — especialmente para crianças — devido à contaminação por fertilizantes. Estamos perdendo um patrimônio que levou milênios para se formar, silenciosamente, sem manchete.

Quando esses contaminantes circulam pelos sistemas naturais — rios, estuários e oceanos —, integram-se às cadeias ecológicas e retornam à sociedade por múltiplas vias. É por isso que a crise da poluição não se separa da crise da biodiversidade nem da crise climática. É a mesma crise, vista de ângulos diferentes. É uma crise de degradação do sistema planetário. Governar riscos invisíveis exige monitoramento robusto, transparência e uma mudança cultural profunda na forma como valorizamos a água.

Se o século XXI está se consolidando como o "século da água", que tipo de liderança ele exige? Mais tecnologia, mais natureza, mais governança — ou uma transformação radical na forma como tomamos decisões coletivas, produzimos riqueza e definimos o que entendemos por progresso?

O século da água exige, acima de tudo, uma mudança de paradigma. Precisamos pensar de forma mais fluida — no melhor sentido — mas também com maior coesão entre ciência, política, economia e sociedade. Essas esferas têm operado em frequências distintas, o que acarreta prejuízos.

A água tem comportamento global: os impactos gerados em uma região reverberam em outras por meio das conexões climáticas e hidrológicas do planeta. Isso exige governança que ultrapasse fronteiras e interesses locais e setoriais — algo que ainda estamos longe de construir de forma consistente.

Apesar de avanços importantes — como a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021–2030) — ainda há uma enorme lacuna entre o que a ciência sabe e o que a política implementa. Não por falta de conhecimento. Por falta de prioridade.

Defendo a construção de um novo pacto: um pacto que reconheça a água como direito humano, bem comum e elemento central da vida. Um pacto que retire a água do lugar marginal que ela ocupa nas decisões sobre desenvolvimento e a coloque no centro. Sem essa inflexão, os riscos se intensificarão. Com ela, abre-se a possibilidade de um futuro mais resiliente e justo — no Brasil e no mundo.

foto de água caindo
O ciclo que sustenta tudo: cada gota que escapa carrega consigo a lógica de um sistema planetário que a humanidade ainda não aprendeu a governar à altura de sua complexidade - Foto: Ilustrativa/Pixabay

Ao fim desta conversa com Alexander Turra, fica difícil sustentar a ideia de que a crise da água pertence ao futuro. Ela já está aqui — moldando decisões, pressionando infraestruturas, redefinindo prioridades — muitas vezes antes de entrar no radar político.

O que Turra propõe não é um alerta ambiental. É uma mudança de época: a água sai da agenda de gestão de recursos naturais e passa a ocupar o centro das discussões sobre desenvolvimento, segurança, justiça social e resiliência econômica. O oceano, os rios, os aquíferos, as calotas polares e o próprio ciclo hidrológico emergem como sistemas interdependentes que exigem algo ainda escasso: governança à altura da complexidade do século XXI.

O conhecimento científico já existe em volume e qualidade suficientes para orientar decisões mais estruturantes. O que permanece em aberto — e urgente — é a capacidade coletiva de transformar a evidência em prioridade política e em ação coordenada.

No século da água, ignorar os sinais deixou de ser uma opção de baixo custo.

Esta entrevista faz parte do especial Semana Mundial da Água, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre os recursos hídricos do planeta e o papel do Brasil nessa equação global.

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