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Catástrofes despertam solidariedade, mas manter o hábito da doação ainda é desafio

Escrito por Neo Mondo | 12 de dezembro de 2025

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A nova edição da pesquisa “Retrato da Solidariedade” escancara uma verdade incômoda e urgente: - Flávio Pinheiro, do Instituto Pensi, da Fundação José Luiz Setúbal, apresentou a pesquisa ontem, ao Terceiro Setor e Academia, no Itaú Cultural - Foto: Alécio Cezar

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

Segunda edição de pesquisa nacional avalia o comportamento solidário da população e  as dificuldades para consolidar uma cultura de doação no País

A solidariedade dos brasileiros diante de tragédias e emergências segue viva, mas ainda não se traduz em uma prática de doação consistente. É o que revela a segunda edição da pesquisa "Retrato da Solidariedade – Comportamento Pró-Social no Brasil", iniciativa da Fundação José Luiz Setúbal (FJLS) por meio Departamento de Pesquisa em Ciências Sociais e Filantropia do Instituto Pensi, frente de ensino e pesquisa da entidade. Liderado pelo pesquisador Flávio Pinheiro, o estudo mostra que eventos como as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, mobilizam um grande número de doações imediatas, mas essas contribuições raramente se mantêm no longo prazo.

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Um dos dados mais expressivos do estudo é que mais de um quarto da população adulta (27%) prestou algum tipo de ajuda às vítimas da tragédia no RS — seja doando bens, dinheiro ou atuando como voluntário. Esse movimento impulsionou o aumento do número de doadores pontuais, ou seja, aqueles que fazem doações esporádicas, sem planejamento ou regularidade. Em 2024, eles representaram 24% da população, contra 17% no ano anterior. Já os doadores recorrentes, que mantêm contribuições programadas, caíram de 11% para 8%, o que revela uma base de apoio instável para as organizações da sociedade civil (OSCs).

Dr. José Luiz Setúbal - Foto: Divulgação

“A mobilização diante das enchentes no Sul revela a capacidade de empatia e engajamento da população. Mas o desafio que permanece — e que o estudo escancara — é como transformar esse impulso pontual em apoio contínuo”, avalia dr. José Luiz Setúbal, presidente da Fundação.

Mobilização imediata, fragilidade no longo prazo

A pesquisa ouviu 2.568 brasileiros em todas as regiões do País e mostra que, embora as doações financeiras tenham aumentado em 2024 — tanto em volume quanto em número de doadores — a maior parte dessas contribuições foi reativa e motivada por acontecimentos emergenciais.

No total, os brasileiros doaram cerca de R$ 23,6 bilhões a OSCs, um aumento de 40% em relação a 2023 (R$ 16,9 bilhões). Também cresceu a mediana do valor doado por pessoa, que passou de R$ 260 para R$ 300 por ano.

Porém, 83% das pessoas decidiram o valor da doação no momento em que foram abordadas, sem planejamento prévio. E, apesar da ampliação do volume doado, o número de brasileiros que contribui de forma regular caiu, prejudicando a previsibilidade e sustentabilidade das organizações.

Flávio Pinheiro - Foto: Divulgação

“O que vemos é um ciclo de comoção e esquecimento. Crises geram picos de mobilização, mas não se consolidam em laços de longo prazo com as OSCs. Essa instabilidade afeta diretamente a capacidade dessas organizações de planejar e manter seus projetos”, destaca Flávio Pinheiro (foto).

Generosidade proporcional dos que têm menos

Um dado recorrente — e que se manteve em 2024 — é a inversão proporcional entre renda e doação. Embora em números absolutos as famílias mais ricas doem mais, são os mais pobres que comprometem a maior fatia da renda com doações.

A pesquisa mostra que pessoas com renda familiar de até quatro salários mínimos doam, proporcionalmente, mais que qualquer outro grupo. Em contraste, as faixas de renda mais altas apresentaram queda na frequência e no valor mediano doado, como é o caso dos brasileiros com renda acima de 20 salários mínimos, cujo valor anual mediano caiu de R$ 1.000 para R$ 800.

Além disso, houve queda no número de doadores entre os mais ricos. Enquanto a doação cresceu nas faixas de renda até 10 salários mínimos, nas camadas mais abastadas houve estagnação ou recuo, o que levanta questionamentos sobre estratégias de mobilização voltadas a esse público.

O que motiva (ou desmotiva) a doação?

O estudo investigou as motivações para doar e revelou que a maioria dos brasileiros doa por motivos emocionais e de responsabilidade social. As razões mais citadas foram “sentir-se bem ao ajudar” (32%) e “sentimento de dever social” (30%). Cresceu também o número de pessoas que afirmam doar porque acreditam que o governo não cumpre seu papel no atendimento de demandas sociais (13%). 

Por outro lado, entre os que não doam, o principal motivo é a falta de recursos (34%), seguido pela desconfiança sobre o uso do dinheiro pelas OSCs (21%). A maioria dos entrevistados também afirmou não receber pedidos de doação — especialmente entre os mais pobres, que são menos abordados. 

Confiança e causas

A confiança nas OSCs aumentou entre 2023 e 2024 (de 32% para 36%), superando a confiança nas esferas governamentais (18%) e se aproximando das instituições religiosas (44%). 

Quanto às causas, os temas mais apoiados financeiramente em 2024 foram:

  • Combate à fome (30%)
  • Assistência social (25%)
  • Saúde (21%)
  • Proteção dos animais (14%)

Já áreas como educação (5%), meio ambiente (4%) e cultura (1%) receberam menos atenção, revelando que o engajamento ainda está fortemente vinculado a causas  que são entendidas, pela população, como necessidades básicas.

Meios de doação e influência social

A pesquisa também mostra mudanças nos meios de pagamento e canais de estímulo. O Pix se consolidou como ferramenta de doação, sendo o meio mais usado por 34% dos doadores, ultrapassando cartões e boletos. Doações em dinheiro vivo ainda são relevantes, especialmente em comunidades locais. 

A influência para doar continua sendo majoritariamente pessoal: recomendações de familiares e amigos são o principal fator de estímulo. Canais digitais como redes sociais também têm peso, mas formas impessoais, como telemarketing e mala direta, apresentaram queda na eficácia.

Metodologia

O estudo investigou as motivações para doar e revelou que a maioria dos brasileiros doa por motivos emocionais e de responsabilidade social. As razões mais citadas foram “sentir-se bem ao ajudar” (32%) e “sentimento de dever social” (30%). Cresceu também o número de pessoas que afirmam doar porque acreditam que o governo não cumpre seu papel no atendimento de demandas sociais (13%).

Indicador20232024Variação
População que doou para OSCs (qualquer forma)57%58%Estável
População que fez doação financeira27%32%+5 p.p.
Doadores recorrentes11%8%–3 p.p.
Doadores pontuais17%24%+7 p.p.
Valor total estimado doadoR$ 16,9 biR$ 23,6 bi+40%
Mediana anual de doaçõesR$ 260R$ 300+15%
Confiança nas OSCs32%36%+4 p.p.
Proporção da renda doada (até 4 SM)>1,5%>1,5%Se manteve alta
Doadores entre os mais ricos (+20 SM)42%36%–6 p.p.

OBS: p.p (pontos percentuais).

foto de Da esq.p/dir: Flávio Pinheiro, do Instituto Pensi; Mário Aquino Alves, da FGV; Félix Garcia Lopez Jr., do IPEA (no telão) e Márcia Kalvon, do Infinis; discutiram resultado da pesquisa no evento de apresentação, remete a matéria Catástrofes despertam solidariedade, mas manter o hábito da doação ainda é desafio
Da esq.p/dir: Flávio Pinheiro, do Instituto Pensi; Mário Aquino Alves, da FGV; Félix Garcia Lopez Jr., do IPEA (no telão) e Márcia Kalvon, do Infinis; discutiram resultado da pesquisa no evento de apresentação - Foto: Divulgação

Quem fez a pesquisa

A Pesquisa Retrato da Solidariedade é realizada pelo Instituto Pensi, a frente de Ensino e Pesquisa da Fundação José Luiz Setúbal. O Departamento de Pesquisa do Instituto Pensi atua em duas linhas: Pesquisa em Ciências da Saúde e Pesquisa em Filantropia e Ciências Sociais. Nesta última área, o Instituto Pensi investiga práticas filantrópicas na sociedade e a saúde infantojuvenil sob a perspectiva das Ciências Sociais. De maneira transversal a ambas, as áreas de investigação do departamento envolvem ainda políticas públicas, organizações, comportamento pró-social e ética aplicada. O núcleo de Pesquisa em Filantropia e Ciências Sociais conta com seis laboratórios: o Laborátorio de Comportamento Pró-Social e Políticas Públicas – responsável pela Pesquisa Retrato da Solidariedade –, o Laboratório de Estratégia, Governança e Filantropia para Transições Sustentáveis, o Laboratório de Ética em Políticas de Saúde, o Laboratório de Filantropia, Políticas Públicas e Desenvolvimento, o Laboratório de Antropologia da Saúde e Engajamento Comunitário e o Laboratório Políticas Públicas e Desigualdades em Saúde. 

Sobre a Fundação José Luiz Setúbal (FJLS)

A Fundação José Luiz Setúbal é o maior sistema filantrópico de saúde infantil do Brasil. Com o propósito de pensar, cuidar e defender a infância saudável, atua em quatro frentes: assistência médica, ensino e pesquisa, advocacy e filantropia. É formada pelo Sabará Hospital Infantil, em São Paulo (SP), referência no atendimento pediátrico; pelo Instituto Pensi– centro de pesquisa e formação em saúde infantil; e pelo Infinis – Instituto Futuro é Infância Saudável, frente de advocacy e filantropia, que atua na defesa dos direitos da criança e do adolescente e no fortalecimento da sociedade civil. 

logo das instituições da fundação José Luiz Setúbal, remete a matéria Catástrofes despertam solidariedade, mas manter o hábito da doação ainda é desafio






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