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O xixi que o mundo desperdiça

Escrito por Neo Mondo | 11 de maio de 2026

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Xixi em frasco de coleta: o que vai para análise clínica pode, no futuro, ir direto para o solo como fertilizante - Foto: Ilustrativa/Magnific

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

O xixi humano representa cerca de 1% do volume total de efluentes produzidos por uma cidade — uma fração tão pequena que, nas estações de tratamento, mal aparece nas equações de engenharia. Ele entra no sistema junto com tudo o mais, é diluído, processado e descartado como se fosse mais uma parcela qualquer do problema. O paradoxo está no que esse 1% carrega: a maioria dos nutrientes que a agricultura moderna gasta enormes quantidades de energia para sintetizar do zero.

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Um estudo publicado em abril de 2026 no Journal of Environmental Chemical Engineering, conduzido pela Universidade de Surrey, no Reino Unido, em parceria com a Universidade de KwaZulu-Natal, na África do Sul, demonstrou que é possível concentrar esses nutrientes de forma eficiente, retendo nitrogênio, fósforo e potássio em níveis úteis para a produção agrícola — sem recorrer às tecnologias convencionais de tratamento de efluentes, notoriamente intensivas em energia. O processo utilizado é a osmose direta, uma técnica de membranas que opera a partir de gradientes de pressão osmótica naturais, sem a demanda energética da filtração sob pressão.

O que a pesquisa traz de novo não é a observação de que o xixi é rico em nutrientes — isso a agronomia tradicional já sabia, e comunidades agrícolas em vários países utilizaram o recurso por séculos. A novidade está na demonstração sistemática do comportamento do processo em condições realistas, com urina humana de verdade submetida a múltiplos ciclos de concentração. A equipe liderada por Siddharth Gadkari, professor de Engenharia de Processos Químicos de Surrey, mapeou como diferentes variáveis afetam a incrustação das membranas — o acúmulo de material biológico e orgânico que, ao longo do tempo, compromete a eficiência do sistema — e concluiu que etapas simples de pré-tratamento, como a filtração, reduzem significativamente esse efeito. Boa parte da incrustação restante pode ser revertida por limpeza, tornando o ciclo operacional viável.

Para compreender o peso dessa equação, é preciso recuar um século e observar o que o processo Haber-Bosch significou para a civilização industrial. Desenvolvido pelos químicos alemães Fritz Haber e Carl Bosch no início do século XX, o método viabilizou a síntese de amônia a partir do nitrogênio atmosférico e do hidrogênio extraído do gás natural. A produção de alimentos em escala global passou a depender desse mecanismo. Segundo a Associação Internacional de Fertilizantes, a fabricação de fertilizantes nitrogenados responde hoje por 94% de todo o consumo de energia do setor de fertilizantes — e as principais matérias-primas são o gás natural, responsável por 73% desse total, e o carvão mineral, com os 27% restantes. Juntos, os fertilizantes inorgânicos consomem cerca de um terço de toda a energia do setor agrícola global. O sistema que alimenta a humanidade está, portanto, amarrado a combustíveis fósseis de uma forma que a transição energética ainda não conseguiu desfazer.

É nesse contexto que a recuperação de nutrientes a partir do xixi — tratado até aqui como resíduo urbano sem valor — deixa de ser uma curiosidade tecnológica e passa a ocupar um lugar na discussão sobre segurança alimentar e descarbonização. A pesquisa de Surrey não propõe substituir os fertilizantes sintéticos da noite para o dia — as dimensões do problema exigem mais do que uma técnica de membrana, por mais promissora que seja. O que ela propõe é uma peça de uma arquitetura diferente de produção e consumo de nutrientes: uma em que o fluxo não termine no esgoto.

A parceria com KwaZulu-Natal não é incidental. A universidade sul-africana tem histórico de trabalho com sistemas de separação de urina na fonte — banheiros que segregam urina de fezes antes do descarte — em comunidades periurbanas de Durban, no âmbito do projeto VUNA, iniciativa financiada pela Fundação Bill e Melinda Gates que envolveu ainda o Instituto Federal Suíço de Ciências Aquáticas (Eawag) e o ETH Zurique. A municipalidade de eThekwini instalou dezenas de milhares desses banheiros em áreas historicamente mal atendidas pela rede convencional de saneamento. A infraestrutura de separação já existe, em escala, num contexto em que o acesso a fertilizantes comerciais é limitado e o custo do insumo pesa diretamente sobre a segurança alimentar local.

Essa dimensão geopolítica raramente aparece nas coberturas científicas sobre o tema. O debate sobre soberania de nutrientes — análogo, em certa medida, ao debate sobre soberania energética — começa a ganhar tração em fóruns internacionais de política agrícola. O fósforo, um dos três macronutrientes presentes no xixi, é um caso exemplar: suas reservas comerciais estão concentradas em poucos países, e o escritor Isaac Asimov já o chamava de "efeito gargalo da vida" por sua insubstituibilidade nos processos biológicos. Não existe síntese industrial de fósforo a partir do ar, como existe para o nitrogênio. O que se extrai de minas em Marrocos, na China ou nos Estados Unidos é o que existe — e parte relevante do que é aplicado no solo vai parar nos rios e, eventualmente, no oceano.

A osmose direta como tecnologia de recuperação de nutrientes não exige a escala de uma refinaria. Essa é, talvez, sua propriedade mais estratégica: ela pode operar de forma distribuída, próxima às fontes de geração, sem a infraestrutura centralizada que torna as soluções convencionais inacessíveis a países e regiões com sistemas de saneamento frágeis. A pesquisa de Surrey e KwaZulu-Natal situa esse potencial no campo do verificável, ao mostrar que o sistema funciona sob condições que se aproximam do mundo real.

Há obstáculos que o estudo não resolve — e que qualquer leitura honesta da pesquisa precisa nomear. A separação na fonte exige mudanças na infraestrutura de banheiros e, mais difícil ainda, mudanças culturais na forma como as populações percebem os próprios resíduos. O tabu em torno do reaproveitamento de excreções humanas é real e variável conforme o contexto: o que é rotina em certas práticas agrícolas asiáticas é impensável em contextos urbanos ocidentais. A logística de coleta, transporte e processamento em escala urbana acrescenta camadas de complexidade que a pesquisa laboratorial ainda não resolve por completo.

Mas a lógica sistêmica aponta em uma direção. Quando se observa que a produção de fertilizantes sintéticos emite gases de efeito estufa, que a dependência de gás natural expõe a cadeia alimentar a choques geopolíticos, que o fósforo é um recurso não renovável e que as estações de tratamento de esgoto gastam energia considerável para remover os mesmos nutrientes que a agricultura vai comprar em seguida — a pergunta que emerge é menos sobre tecnologia e mais sobre o desenho do sistema.

O xixi que vai pelo ralo, como regra, não é desperdício em termos bioquímicos. É uma escolha de infraestrutura.

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