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Hidrogênio verde em Areia Branca, segurança energética em Berlim

Escrito por Neo Mondo | 23 de abril de 2026

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Hidrogênio verde redesenha o mapa da energia ao conectar vento, sol e porto em uma mesma equação industrial de escala global - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

Um consórcio Brasil-Alemanha anuncia € 2 bilhões para produzir hidrogênio verde em Areia Branca, no Rio Grande do Norte. A negociação revela a lógica real por trás da transição energética global: não é o planeta que está em crise — é o modelo industrial europeu que busca um novo fornecedor de energia

Na última semana de abril de 2026, enquanto a Hannover Messe reunia líderes industriais de dezenas de países no maior encontro fabril do mundo, uma cena discreta no pavilhão brasileiro sintetizou décadas de assimetria geopolítica em um único aperto de mãos. Werner Farkatt, diretor-geral do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte, entregava formalmente a licença ambiental prévia do Projeto Morro Pintado — o documento que autoriza o início do licenciamento de instalação, em Areia Branca, de um complexo integrado de hidrogênio verde, energia eólica e solar com investimento estimado em dois bilhões de euros, aproximadamente doze bilhões de reais. Do outro lado da mesa, os executivos de Thyssenkrupp Uhde, Siemens e Andritz. O governo alemão, ao fundo, como fiador discreto de toda a arquitetura financeira.

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O anúncio foi celebrado como vitória do Nordeste. Mas a narrativa mais precisa começa do outro lado do Atlântico.

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022, a Alemanha acordou para uma vulnerabilidade que havia construído durante décadas com meticulosa negligência: mais da metade de seu gás natural vinha de Moscou. A ruptura foi traumática. O país que se orgulhava de ser a locomotiva industrial da Europa descobriu que sua cadeia de produção dependia de um único fornecedor que havia se tornado um adversário geopolítico. A solução de emergência — terminais de regaseificação construídos em tempo recorde para receber GNL de outras origens — era cara, insustentável no médio prazo e politicamente fragilizada. O que a Alemanha precisava não era de um novo gás. Era de uma nova lógica de abastecimento.

O hidrogênio verde emergiu como a resposta estratégica. Em 2020, o governo alemão lançou sua Estratégia Nacional do Hidrogênio, destinando nove bilhões de euros ao setor — dois deles voltados especificamente para parcerias internacionais. A estrutura H2Global foi criada como plataforma de importação: um mecanismo de duplo leilão que contrata volumes de hidrogênio e seus derivados em países produtores, revende na Europa e cobre a diferença de custo com subsídios públicos. Em julho de 2024, os primeiros resultados foram anunciados: contratos de fornecimento de pelo menos 259 mil toneladas anuais de amônia verde, com preços abaixo de 4,50 euros por quilograma de hidrogênio equivalente. Em 2025, a segunda rodada de licitações mobilizou outros 2,5 bilhões de euros. O programa que começou como política climática havia se convertido em instrumento de segurança energética.

O Brasil, país parceiro da Hannover Messe 2026, entrou nesse contexto não apenas como potência em energias renováveis — o que já era — mas como candidato prioritário a fornecedor estratégico do sistema europeu pós-russo. Lula e o chanceler Friedrich Merz abriram a feira lado a lado. Mais de 140 empresas brasileiras, 800 executivos, seis pavilhões nacionais. O enquadramento oficial era de cooperação; a lógica subjacente, de contrato de longo prazo.

É nesse eixo que o Projeto Morro Pintado precisa ser lido.

Areia Branca fica na região de Mossoró, litoral oeste do Rio Grande do Norte, a 280 quilômetros de Natal. O município é pequeno, a orla com vocação industrial ainda incipiente, o cotidiano marcado pela pesca artesanal e pela extração de sal — uma das maiores do país. O projeto que ali se instala tem outra escala. A planta prevê 1.400 megawatts de capacidade instalada em energia eólica e solar, suficientes para produzir cerca de 80 mil toneladas anuais de hidrogênio de baixo carbono. O processo, feito por eletrólise a partir de fontes renováveis, não emite carbono — daí o adjetivo verde. A cadeia se estende: do hidrogênio derivam amônia verde, metanol e, em uma segunda fase, ureia verde, totalizando 438 mil toneladas anuais de derivados. O complexo terá um terminal portuário próprio, desenhado para exportação. A amônia, além de combustível e insumo industrial, é a principal matéria-prima para fertilizantes nitrogenados — e o Brasil, que importa hoje quase toda a amônia que consome na agricultura, poderia em tese abastecer parte de sua própria cadeia. A palavra em tese merece atenção.

O consórcio é formado pela Brazil Green Energy e pela Green Investors, empresas brasileiras, com a participação dos grupos industriais alemães. A ApexBrasil coordena o anúncio. O BNDES aparece nas conversas como possível financiador da parcela nacional. O governo do estado, sob Fátima Bezerra, celebra: a licença entregue em Hannover é a primeira concedida no Rio Grande do Norte para uma planta comercial de hidrogênio verde, resultado de uma regulamentação específica construída pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente em articulação com o Idema e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Do ponto de vista regulatório, foi uma mobilização notável.

Mas a licença prévia é apenas o primeiro ato de um processo longo. Ela atesta a viabilidade ambiental e jurídica do empreendimento — não autoriza a obra. Os prazos de conclusão não foram informados. O volume de investimento é uma estimativa, não um contrato fechado. E o contexto energético no qual o projeto foi anunciado contém uma contradição que os comunicados oficiais omitiram com cuidado.

Na mesma semana em que Morro Pintado ganhava manchetes internacionais, o Valor Econômico revelava que empresas de energia renovável haviam suspendido 38,8 bilhões de reais em investimentos previstos para o biênio 2025-2026 no Nordeste. O motivo: curtailment — o corte forçado de geração provocado pela incapacidade da rede de transmissão de absorver toda a energia produzida. Em 2025, 141 usinas devolveram outorgas, somando 18,9 bilhões de reais em projetos abandonados. Outros 5,9 bilhões em solar e 14 bilhões em eólica estavam suspensos. O Nordeste concentra mais de 95% dos investimentos em renováveis do país — e a infraestrutura de transmissão não acompanhou o ritmo da expansão.

O Rio Grande do Norte é, simultaneamente, o estado mais promissor e mais limitado do sistema elétrico brasileiro. Produz vento e sol em abundância. Não consegue escoar toda a eletricidade que gera. O Projeto Morro Pintado propõe uma solução elegante para essa equação: em vez de exportar elétrons por fios que não existem, converte a energia em moléculas — hidrogênio, amônia — e as exporta por navios. A lógica é sólida. O risco está em que a solução favorece o comprador externo mais do que resolve o problema estrutural interno.

A Alemanha recebe amônia verde para descarbonizar sua indústria. O Rio Grande do Norte fornece o vento, o sol, o território, a licença ambiental e a mão de obra. A propriedade intelectual do processo de eletrólise pertence à Thyssenkrupp Uhde. A tecnologia de controle de processo, à Siemens. O fluxo de valor agregado segue o mesmo caminho histórico das commodities brasileiras — sai como matéria-prima ou semielaborado, chega como produto industrial. O presidente da Confederação Nacional da Indústria, Ricardo Alban, celebrou o anúncio como exemplo do que a relação comercial Brasil-Alemanha pode produzir: "É factível que essa relação dobre em valores em cinco anos." A afirmação é provavelmente verdadeira. A questão é onde ficará a maior parte desse valor, quando dobrado.

Isso não torna o projeto menos relevante. Uma planta da escala de Morro Pintado, se realizada, movimentaria cadeias produtivas locais, geraria empregos diretos e indiretos, consolidaria o RN como referência global em energia limpa e colocaria o Brasil em posição de barganha numa geometria energética global em plena reconfiguração. A amônia verde poderia, em parte, abastecer a própria agricultura brasileira, reduzindo uma dependência crítica — o país importa hoje cerca de 85% do nitrogênio que usa nos campos. O terminal portuário seria infraestrutura permanente. A regulação construída pelo estado criaria precedente para outros empreendimentos.

Mas projetos de hidrogênio verde têm um histórico recente de anúncios grandiosos e execuções lentas. O mecanismo H2Global, no qual o Projeto Morro Pintado busca se inserir, ainda enfrenta críticas de setores industriais que questionam sua complexidade e os atrasos nos processos de licitação. A segunda rodada de contratos, que movimenta 2,5 bilhões de euros, ainda estava em fase de avaliação de candidaturas em meados de 2026, com contratos previstos apenas para o período 2029-2038. A janela entre o anúncio e a receita é longa — e nessa janela cabem mudanças de governo, revisões regulatórias, oscilações no custo do capital e redefinições nas políticas europeias de subsídio.

O que foi entregue em Hannover foi, portanto, um sinal — e sinais têm valor. Sinalizam intenção, criam compromisso público, mobilizam a atenção de outros investidores. Num setor onde a confiança é a principal moeda de troca antes da molécula, a licença prévia exibida no maior encontro industrial do mundo não é um ato burocrático. É uma declaração de abertura.

O Rio Grande do Norte tem vento e tem sol em proporções que poucos lugares do planeta podem oferecer. Tem agora uma regulação pioneira e um projeto âncora com parceiros europeus de peso. O que falta — e isso não está no comunicado da ApexBrasil nem nos discursos de Hannover — é a garantia de que a transição energética que o mundo precisa não reproduza, no Nordeste brasileiro, a mesma lógica extrativista que a narrativa da sustentabilidade promete superar. A amônia verde pode partir pelo porto de Areia Branca rumo a Hamburgo. A pergunta que permanece no litoral potiguar é outra: o que fica?

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