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Escrito por Neo Mondo | 5 de maio de 2026
Kunhã Arã transforma cacau do Médio Xingu em autonomia produtiva, valor cultural e presença no mercado — do território indígena direto para as prateleiras - Foto: Divulgação
Produzido pelo NM Studio em parceria com a Norte Energia

Kunhã Arã: da semente ao chocolate
Pela primeira vez no Médio Xingu, uma comunidade indígena planta, processa e embala seu próprio chocolate. O que levou cinco anos para acontecer
Em 2021, quatro mulheres Jurunas no ramal do Picadinho, a 115 quilômetros de Altamira, começaram a transformar cacau cultivado em seu próprio território num chocolate sem nome definitivo, sem equipamentos adequados e sem garantia de mercado. Chamaram-no de Chocodjá — uma fusão de "chocolate" com "Yudjá", o nome do próprio povo em sua língua. Era o ponto de partida de algo que, naquele momento, ninguém conseguia dimensionar inteiramente.
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O que veio depois é uma progressão que o Médio Xingu nunca havia visto. Em 2023, a Norte Energia lançou, no festival Chocolat Xingu, em Altamira, o Sidjä Wahiü — criado por Katyana Xipaya, da comunidade ribeirinha Jericoá 2, e depois reconhecido pelo World Business Council for Sustainable Development como referência global de bioeconomia — e o Iawá, premiado no mesmo evento com o terceiro lugar na categoria de melhor chocolate ao leite. Em 2024 vieram o Karaum Paru, das 78 famílias Arara da Volta Grande do Xingu, e o Yudjá, das cerca de 92 famílias distribuídas pelas seis aldeias da Terra Indígena Paquiçamba. No mesmo ano, o Ita'Aka Akauwa, do povo Asurini da Terra Indígena Koatinemo, fechou a quinta posição dessa sequência. Em todos esses casos, o cacau saía das comunidades para ser finalizado externamente — na Cacauway, fábrica da Coopatrans em Medicilândia. A lógica produtiva seguia sendo parcialmente extrativista: a matéria-prima originava-se no território indígena, mas o valor final do produto se formava fora dele.
O Kunhã Arã muda essa equação. Lançado no Chocolat Amazônia 2026, em Belém, o chocolate da Associação Indígena Tubyá é o primeiro dessa série em que nenhuma etapa ocorre fora da comunidade. Do plantio de aproximadamente 19.000 pés de cacau em sistema agroflorestal à fermentação, secagem, torra, formulação e embalagem — a cadeia inteira permanece em Altamira, nas mãos das 51 famílias que formam a associação. O nome carrega a declaração implícita dessa conquista: Kunhã Arã significa, em tupi, Guerreira da Luz ou Guerreira da Vida.
A escolha do sistema agroflorestal não é apenas uma decisão técnica de manejo sustentável. É uma tomada de posição sobre como essa comunidade entende seu território e sua relação com ele. Cultivar cacau sombreado, em consórcio com outras espécies da floresta, é recusar o modelo que por décadas converteu a biodiversidade amazônica em passivo ambiental e os povos originários em trabalhadores periféricos de cadeias que nunca controlaram. Os 19.000 pés de cacau no Médio Xingu não são só uma lavoura — são a base fundiária de um empreendimento que agora também refina, formula e embala.
Irasilda Morais Pereira Fernandez Juruna, presidente da Associação Indígena Tubyá e uma das idealizadoras do projeto desde seus dias como Chocodjá, não usa o vocabulário da gratidão institucional quando fala sobre o que construiu. Fala em expansão para outros estados, em exportação, em fornecimento para a merenda escolar via Programa de Aquisição de Alimentos. São os planos de quem administra um negócio, não de quem recebe um benefício. Essa distinção é analiticamente consequente: projetos que estruturam capacidade produtiva autônoma geram dinâmicas diferentes dos que distribuem apoio sem transferência de controle. O Kunhã Arã, com sua própria linha de produção, sua marca registrada e sua identidade visual elaborada em parceria com a Norte Energia, representa a consolidação dessa segunda lógica.
A identidade visual merece leitura própria. Os Jurunas do Médio Xingu carregam uma perda específica: seus grafismos tradicionais e parte de sua língua foram progressivamente erodidos após o contato com não indígenas, em 1750. O trabalho de reconstituição cultural que a comunidade conduz há anos encontrou no Kunhã Arã um suporte inesperado — a embalagem de um chocolate de mercado. A logomarca traz uma figura feminina coroada por um cocar em forma de sol, com o cacau como elemento central de uma cosmologia que se recusa a ser apenas decorativa. Cada barra vendida em Belém ou, eventualmente, em São Paulo ou no exterior, circula como veículo de memória coletiva.
A Norte Energia entrou nesse processo como estruturadora técnica e financeira, não como protagonista narrativo. O suporte incluiu mais de 11.000 mudas de cacau, cinco secadores solares, um melangê para refino, formas para moldagem das barras e o custeio inicial de mil embalagens — tudo dentro do Plano Básico Ambiental do Componente Indígena da Usina Hidrelétrica Belo Monte. A capacidade instalada permite produzir 50 kg de chocolate por mês, volume suficiente para estabelecer presença no mercado antes de escalar. O que o caso demonstra é que os instrumentos de licenciamento ambiental — quando operados com essa orientação — podem funcionar como alavanca de capacitação produtiva real, e não apenas como compensação passiva por impactos de grandes empreendimentos.
O Pará responde por mais da metade da produção nacional de cacau, numa cadeia que movimenta cerca de R$ 3,5 bilhões por ano. O Médio Xingu está no centro desse mercado. Em cinco anos, a Norte Energia e as comunidades indígenas da região construíram seis marcas de chocolate, cada uma representando uma etnia, um território, uma identidade visual distinta. O Kunhã Arã não é o ponto de chegada dessa trajetória — é o momento em que ela muda de natureza. As comunidades anteriores produziram cacau e participaram da criação de seus chocolates; a Associação Tubyá fabrica o seu. A diferença entre essas duas posições é a diferença entre fornecedor e produtor, entre participante e dono do processo.
O Chocodjá nasceu sem nome definitivo, sem equipamento, sem mercado. Cinco anos depois, o Kunhã Arã chega às prateleiras com identidade visual, linha de produção própria e planos de exportação. A distância entre esses dois pontos não é só cronológica — é estrutural. Quantas outras associações ao longo do Xingu têm o cacau, a cultura e a capacidade organizacional para percorrer esse mesmo caminho — e ainda aguardam as condições mínimas para começar?
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