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O clima na fila dos credores: países vulneráveis pagam quase 25 vezes mais em dívida do que em ação climática

Escrito por Neo Mondo | 15 de setembro de 2026

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Clima na fila dos credores deixa países vulneráveis sem recursos para concluir obras de adaptação e proteger suas populações - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

A ActionAid lança nesta quarta-feira (16) o relatório Dívida agrava crise climática: Como o Financiamento Flui, que cruza receitas públicas, pagamentos de dívida, orçamentos nacionais e planos climáticos dos 65 países mais expostos à crise do clima. O achado central é aritmético e brutal. Esses países gastam quase 25 vezes mais com o serviço da dívida do que com ação climática, e os pagamentos aos credores consomem 65% de suas receitas governamentais somadas.

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O Senegal mostra a escala da distorção. Em 2026, o serviço da dívida do país equivale a mais de 600 vezes o valor que o orçamento nacional reserva para clima e supera 96% de toda a receita do governo. Sobra quase nada para agroecologia, para segurança alimentar, para adaptação. A conta é paga antes de qualquer política pública existir.

O quadro é generalizado. Segundo o levantamento, 93,5% dos países mais vulneráveis à crise climática já estão em sobre-endividamento ou sob risco significativo de chegar a essa condição. A organização projeta US$ 8,8 trilhões em pagamentos de dívida pelo Sul Global em 2026, contra US$ 39 bilhões em doações para clima registrados em 2024, o dado mais recente disponível. A proporção de 225 para um compara anos distintos e agregados distintos, um dado projetado para o conjunto do Sul Global contra um dado observado de financiamento em doações, e a própria ActionAid explicita isso. A ordem de grandeza, ainda assim, não depende do ajuste metodológico.

O mecanismo que o relatório descreve tem quatro tempos. Um desastre climático destrói infraestrutura e produção. O país toma novos empréstimos para reconstruir. O pagamento dessa dívida e a austeridade que vem com ela comprimem os investimentos em adaptação, serviços públicos e transição energética. Para obter as divisas que os credores exigem, o governo amplia a extração de combustíveis fósseis e a agricultura de escala industrial, o que produz mais emissões, mais danos ambientais e o desastre seguinte.

"A dívida representa um golpe triplo para o clima: impulsiona a expansão dos combustíveis fósseis e da agricultura industrial, bloqueia ações climáticas vitais e deixa as comunidades perigosamente expostas quando ocorrem desastres. Esta é uma relação tóxica", afirma Teresa Anderson, líder global de Justiça Climática da ActionAid Internacional e uma das autoras do estudo.

Arthur Larok, secretário-geral da organização, situa o problema no terreno do diagnóstico: "Por tempo demais, as crises da dívida e do clima foram tratadas separadamente. Esta pesquisa revela como elas estão profundamente interligadas e quantifica o custo devastador envolvido."

Há um segundo dado que desmonta a contabilidade oficial do financiamento climático. Dois terços do que os países ricos classificam como financiamento climático chegam ao Sul Global na forma de empréstimos, boa parte deles a taxas comerciais. O que é registrado como apoio funciona, na prática, como acréscimo de passivo.

A literatura revisada por pares chegou à mesma direção por outro caminho. Gerhard Kling, Yuen C. Lo, Victor Murinde e Ulrich Volz publicaram em 2025, na Oxford Open Economics, a primeira investigação sistemática do efeito da vulnerabilidade climática sobre o custo da dívida soberana, com 46 países entre 1996 e 2016. Em trabalho anterior da mesma equipe, países expostos a desastres naturais pagavam, em média, 1,17 ponto percentual mais caro para se financiar. John Beirne, Nuobu Renzhi e Volz, no International Review of Economics & Finance de 2021, estimaram prêmios de risco da ordem de 275 pontos-base nos títulos soberanos das economias mais expostas ao clima. Ou seja: o mercado cobra mais justamente de quem tem menos margem para pagar, e a vulnerabilidade física vira preço antes de virar política.

O contexto macro não ajuda. A UNCTAD registrou dívida pública global recorde de US$ 102 trilhões em 2024, com os países em desenvolvimento desembolsando US$ 921 bilhões apenas em juros, 10% mais que em 2023. Hoje, 3,4 bilhões de pessoas vivem em países que gastam mais com juros da dívida do que com saúde ou educação. O Banco Mundial apontou que, em 2024, as taxas médias de juros sobre novos empréstimos atingiram o maior nível em mais de duas décadas para credores oficiais e o maior patamar em 17 anos para credores privados.

A agenda diplomática travou onde importa. Em julho de 2025, a IV Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento aprovou o Compromisso de Sevilha, que menciona a revisão da arquitetura da dívida soberana e abre um processo intergovernamental na ONU. A proposta de um marco legal multilateral para reestruturação e cancelamento foi rejeitada. Segundo a Eurodad, União Europeia e Reino Unido queriam suprimir o parágrafo inteiro sobre reforma da dívida; aceitaram uma redação diluída e se dissociaram dela, junto de Canadá, Coreia do Sul e Japão. A China não se dissociou.

Na COP30, realizada em novembro de 2025 em Belém, o financiamento voltou ao centro sem resolver a variável dívida. As presidências da COP29 e da COP30 apresentaram o Mapa do Caminho de Baku a Belém, que projeta ao menos US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 e inclui a conversão de dívida externa em investimento climático, com potencial estimado de até US$ 100 bilhões. O Pacote de Belém, aprovado por 195 partes, apenas tomou nota do roteiro. Um grupo de especialistas ficou encarregado de refinar os cálculos até outubro de 2026.

No Brasil, o Ipea tentou quantificar o outro lado da conta. O estudo Operacionalizando a justiça climática, de Rodrigo Fracalossi, publicado em outubro de 2025, adota custo social do carbono mediano de US$ 417 por tonelada de CO₂ e calcula que os Estados Unidos ultrapassaram seu orçamento de carbono em 326%, acumulando dívida climática de US$ 47,9 trilhões. O texto propõe tributação de super-ricos e imposto corporativo mínimo global como fontes de pagamento.

A ActionAid pede o cancelamento de dívidas impagáveis ou injustas dos países que destinam mais de 10% das receitas ao pagamento da dívida externa, uma regra universal de suspensão automática após desastres climáticos, válida para todos os credores e não apenas para os que adiram voluntariamente, e uma Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Dívida Soberana. Pede também legislação em Londres e Nova York que obrigue credores privados a participar das reestruturações, já que cerca de 90% dos contratos de títulos soberanos seguem a lei britânica, além de regulação das agências de classificação de risco e criação de agências públicas regionais ou multilateral.

O cálculo final do relatório mede o que está em jogo. Cancelar a dívida desses 65 países liberaria recursos para financiar seis vezes seus planos climáticos nacionais incondicionais, ou para cobrir duas vezes tudo o que eles gastam somando clima, saúde, educação e proteção social.

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