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Escrito por Neo Mondo | 15 de setembro de 2026
Fundo Baobá reúne mulheres negras em um espaço de escuta, diálogo e construção coletiva - Foto: Divulgação
POR - REDAÇÃO NEO MONDO
Edital selecionará dez organizações, grupos, coletivos, redes ou movimentos em todo o país; cada iniciativa receberá R$ 300 mil, com foco no desenvolvimento institucional
O Fundo Baobá abriu, no dia 14 de setembro, as inscrições para a segunda edição do edital de apoio coletivo do Programa Marielle Franco. Serão selecionadas dez organizações, grupos, coletivos, redes ou movimentos de mulheres negras (pretas e pardas) cis, trans ou travestis de todo o país. As iniciativas podem ser formalizadas ou não, ou seja, com ou sem CNPJ, e cada uma receberá R$ 300 mil ao longo de 20 meses, com foco no desenvolvimento institucional, totalizando um investimento direto de R$ 3 milhões. As inscrições são gratuitas e vão até 19 de outubro de 2026.
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A nova chamada dá continuidade ao Programa Marielle Franco, criado em 2019 pelo Fundo Baobá para ampliar e consolidar a participação de mulheres negras em espaços de poder e influência. Desde então, o programa combina investimento financeiro, formação e fortalecimento institucional de organizações e lideranças negras. A iniciativa é realizada com o apoio da Fundação Kellogg, Fundação Ford, Open Society Foundations e Instituto Ibirapitanga.
O Edital de Apoio Coletivo foi concebido para fortalecer organizações de mulheres negras, ampliando suas condições de atuação por meio do desenvolvimento institucional e do investimento em suas lideranças. Na primeira edição, o Programa apoiou organizações já enraizadas em seus territórios a fortalecer sua gestão, ampliar parcerias e ocupar novos espaços políticos, comunitários e institucionais.
Quem pode participar e como será a seleção
Podem se inscrever organizações, grupos, coletivos, redes ou movimentos com ou sem CNPJ e com atuação iniciada em 2024 ou antes. A composição deve ter pelo menos 85% de mulheres negras tanto na diretoria quanto entre as integrantes.
O processo seletivo terá quatro etapas: análise dos pré-requisitos; avaliação das informações apresentadas no formulário de inscrição; entrevistas e análise final por um Comitê de Seleção. A seleção considera a proposta apresentada e as condições para sua realização, respeitando as diferentes formas de organização e os contextos territoriais de cada iniciativa.
Redes, movimentos, grupos e coletivos que acumulam conhecimento sobre suas comunidades e desenvolvem soluções a partir de suas próprias experiências nem sempre encontram as mesmas condições de acesso aos recursos da filantropia. O apoio financeiro busca ampliar a autonomia dessas iniciativas e as condições para que desenvolvam plenamente sua missão de transformação social.
Em caso de empate, terão prioridade organizações com perfis que historicamente encontram mais obstáculos no campo do financiamento, entre elas:
“A segunda edição do edital de apoio coletivo do Programa Marielle Franco reforça o compromisso do Fundo Baobá com o fortalecimento de organizações de mulheres negras em nosso país. A partir dos aprendizados e resultados da primeira edição e da escuta do campo, lançamos uma segunda edição com uma oferta redesenhada, reafirmando nossa visão sobre a importância do desenvolvimento e fortalecimento institucional das organizações. O objetivo do edital é apoiar um processo factível de ampliação das capacidades das organizações e de suas lideranças, entendido por nós como condição central para a sustentabilidade de sua atuação. Acreditamos que esse processo é essencial para que elas possam, por seus próprios caminhos e objetivos, manter-se atuando em condições estruturadas, de modo a seguirem capazes de enfrentar os desafios de suas lutas e cumprirem suas missões”, afirma Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá.
Primeira edição combinou investimento, formação e desenvolvimento institucional
A primeira edição do Programa Marielle Franco foi lançada em setembro de 2019. Foram selecionadas 15 organizações no edital de Apoio Coletivo. Entre as organizações participantes do edital de Apoio Coletivo, o investimento direto variou de R$ 70 mil a R$ 170
mil. O apoio financeiro foi acompanhado por atividades voltadas ao desenvolvimento político, ao cuidado diante dos efeitos psicossociais do racismo e ao fortalecimento institucional.
Para as organizações, grupos e coletivos, o programa ofereceu ainda sessões de assessoria técnica para a revisão de planos de ação, indicadores e metas. A avaliação da primeira edição registrou avanços em áreas como gestão, articulação em rede, estabelecimento de parcerias e capacidade de atuação nos territórios. Organizações apoiadas relataram também maior presença em espaços políticos e institucionais e melhores condições para dedicar recursos a aspectos de sua estrutura que anteriormente não conseguiam priorizar.
A experiência extrapolou as participantes diretamente envolvidas: mais de 500 mil pessoas foram impactadas indiretamente e mais de mil atividades de compartilhamento de conhecimentos realizadas durante a primeira edição.
Para Diana Mendes, uma das diretoras do Mulheres Negras Decidem, organização que
esteve entre as 14 selecionadas na primeira edição do Programa, em 2019, o apoio do Fundo Baobá foi fundamental para que o movimento ganhasse estrutura e autonomia naquele momento de sua trajetória.
“Quando fundamos o Mulheres Negras Decidem, nossa dedicação era voluntária e estávamos muito voltadas à construção e ao fortalecimento do movimento, inicialmente com as articuladoras da região Sudeste, antes de conseguirmos ampliar nossa atuação para
todo o país. O apoio do Fundo Baobá nos deu a possibilidade de dedicar integralmente nosso tempo à construção política do movimento. Isso fez toda a diferença para estruturar o Mulheres Negras Decidem e consolidar nossa atuação nacional, que hoje está presente em 19 estados. Foi também o primeiro apoio que possibilitou a criação de uma equipe executiva do movimento, e isso foi fundamental para chegarmos onde estamos hoje”, afirma.
Ela também destaca a importância que o apoio teve em sua própria trajetória e na consolidação de um movimento político voltado à participação de mulheres negras. “Aquele momento foi muito importante e significativo na minha vida, porque consolidava a fundação de um movimento pensado por e para mulheres negras e nos fazia compreender ainda mais o quanto essa iniciativa era necessária e poderia mobilizar mulheres onde quer que elas
estivessem. Pensar a existência e a atuação das mulheres negras é crucial para fortalecer a organizações, coletivos e a articulação entre mulheres negras.”
Mulheres negras no Brasil: presença demográfica e desigualdades de acesso
As mulheres negras formam uma parcela expressiva da população brasileira. Segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher – Raseam 2026, elaborado pelo Ministério das Mulheres com dados da PNAD Contínua, 56,2% das mulheres se declararam pretas ou
pardas. Isso corresponde, aproximadamente, a 61 milhões de mulheres ou 28,8% da população brasileira.
No Norte e Nordeste do Brasil, justamente duas das regiões priorizadas pela nova chamada, a proporção de mulheres pretas ou pardas chegava, respectivamente, a 77,3% e 73,9% da população feminina.
No mercado de trabalho, os recortes de raça e gênero continuam aparecendo tanto nas condições de inserção quanto no acesso a postos de decisão. Dados do quarto trimestre de 2025 da PNAD Contínua, analisados pelo DIEESE, mostram que 39,9% das mulheres
negras ocupadas estavam na informalidade, ante 30,5% das mulheres não negras. Apenas 2,1% das mulheres negras ocupadas estavam em cargos de direção ou gerência.
Os dados afirmam que o principal desafio da transformação social das mulheres negras ainda inclui participação política, justiça reprodutiva, cuidado, direito à terra, à moradia e à justiça ambiental, educação, saúde, trabalho e cuidado. Segundo o Estudo da Marcha ao Bem Viver a reparação histórica só se concretiza com a transferência real de poder e investimentos. Quando as organizações e redes de mulheres negras acessam recursos
financeiros, técnicos e institucionais, os efeitos multiplicadores incluem eficácia na incidência política, soluções integradas para problemas complexos, autonomia e transformação de território, além de protagonismo em redes globais e locais.
Os indicadores também ajudam a dimensionar o contexto em que atuam as organizações às quais a nova edição do Programa Marielle Franco se dirige. Mulheres negras são maioria entre as mulheres brasileiras e estão presentes em diferentes territórios, movimentos e formas de organização social. Ao mesmo tempo, os dados registram desigualdades persistentes no acesso à educação, ao trabalho protegido, à renda e aos espaços de direção. O Apoio Coletivo se insere nesse cenário fortalecendo organizações construídas e lideradas por mulheres negras, reconhecendo seus conhecimentos, suas trajetórias e sua capacidade de formular respostas para os territórios e comunidades onde atuam.
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