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O Cantareira está secando — e a culpa não é da chuva

Escrito por Neo Mondo | 7 de maio de 2026

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Cantareira: reservatório opera em maio de 2026 com 51,5% da capacidade — abaixo dos níveis registrados no mesmo período do ano anterior, enquanto a probabilidade de um Super El Niño cresce no horizonte - Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Com o Cantareira abaixo dos níveis do ano passado e um Super El Niño no horizonte, Rubens Benini, da TNC Brasil, explica por que a crise hídrica de São Paulo não começa na represa — e por que a resposta também não pode terminar nela

São Paulo bebe de um sistema que já não se sustenta sozinho. O Sistema Cantareira opera em maio de 2026 com 51,5% da capacidade — abaixo do mesmo período do ano anterior — enquanto a NOAA projeta 62% de probabilidade de um El Niño emergindo neste mês, com chance real de se tornar o mais intenso em 140 anos. Mas a crise que se aproxima não começa no Pacífico. Começa, segundo a ciência, no solo nu que substituiu a Mata Atlântica nas bordas dos mananciais que abastecem nove milhões de pessoas.

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Rubens Benini é engenheiro florestal formado pela ESALQ/USP, mestre em Engenharia Ambiental pela USP e há mais de vinte anos trabalha com restauração florestal na América Latina. Lidera a estratégia da The Nature Conservancy no Brasil e integra a coordenação da Coalizão Brasil Clima, Floresta e Agricultura. É um dos autores intelectuais do conceito de "reservatório invisível" — a tese, desenvolvida em parceria com a Sabesp, de que a floresta nativa faz o que nenhuma represa consegue: infiltrar, reter e liberar água no ritmo exato em que o sistema precisa.

Esta entrevista começa onde a maioria das conversas sobre água em São Paulo não chega: antes do reservatório.

O estudo The Invisible Reservoir demonstra que restaurar 15% da área de drenagem do Cantareira entregaria 33% mais água na seca. Mas esse dado pressupõe que o sistema político e fundiário ao redor dos mananciais permite essa restauração. Quais são os obstáculos reais — não os técnicos, os estruturais — para que esse número saia do papel?

O principal obstáculo não é técnico, nem científico — o conhecimento necessário já está disponível. Os entraves são institucionais, fundiários e econômicos.

Primeiro, o uso do solo nos mananciais é regido por incentivos desalinhados. Hoje, infelizmente, ainda é economicamente mais vantajoso degradar do que conservar. A restauração ecológica gera benefícios coletivos, água, biodiversidade, combate às mudanças climáticas, estabilidade econômica, redução de riscos de enchentes e deslizamentos, mas o custo recai sobre poucos proprietários, na ausência de mecanismos estruturados de reconhecimento e remuneração de quem restaura e conserva.

Segundo, há um vazio de governança territorial. O Sistema Cantareira atravessa dezenas de municípios e dois estados. A água flui de forma integrada, mas as decisões sobre o território seguem fragmentadas. Falta coordenação entre políticas de saneamento, uso do solo, agricultura e desenvolvimento urbano.

Por fim, existe um viés histórico da política pública: investir em obras visíveis de infraestrutura cinza é politicamente mais simples do que investir em floresta, cujo retorno é difuso no tempo e no espaço. O estudo mostra que restaurar 15% da área é suficiente para alterar o balanço hídrico, mas isso exige decisão política de tratar a floresta como infraestrutura essencial, não como agenda ambiental periférica.

O CEMADEN atribui a redução de umidade atmosférica principalmente à mudança no uso do solo, não às emissões. Se a causa primária da crise hídrica em São Paulo é territorial e não climática, por que a resposta pública continua sendo tratada como problema de infraestrutura cinza — mais reservatórios, mais tubulações — e não de cobertura florestal?

Porque nos habituamos a tratar sintomas, não causas. O CEMADEN e os resultados do estudo mostram que a perda de umidade atmosférica e a redução dos fluxos de base estão fortemente associadas à mudança no uso do solo, especialmente à perda da Mata Atlântica e à compactação do solo.

Ainda assim, a resposta padrão continua sendo ampliar reservatórios e transferências de água. A infraestrutura cinza redistribui água existente, mas não cria resiliência. Sem cobertura florestal, a chuva escoa rapidamente, não infiltra, não recarrega aquíferos. O conceito de “reservatório invisível” mostra que o solo e a água subterrânea são a principal reserva estratégica contra a seca.

Persistimos na engenharia civil porque ela pertence ao repertório institucional tradicional. Mudar essa lógica exige reconhecer a restauração florestal como política de segurança hídrica, com o mesmo status de uma barragem, mas com melhor relação custo-benefício no longo prazo.

A crise de 2014-2015 custou US$ 450 milhões e não produziu nenhuma alteração estrutural na gestão dos mananciais. O que faz o senhor acreditar que um novo colapso hídrico — com o Cantareira já abaixo dos níveis do ano passado e um Super El Niño no horizonte — produziria uma resposta diferente desta vez?

Nada garante que será diferente, e este é justamente o alerta. A crise de 2014-2015 custou cerca de US$ 450 milhões e, ainda assim, foi tratada como exceção climática, não como falha estrutural do sistema.

Hoje, o risco é maior porque partimos de um patamar mais degradado de cobertura florestal e enfrentamos eventos extremos mais frequentes. A diferença potencial agora é que o diagnóstico está completo. Não estamos mais discutindo hipóteses, sabemos quanto restaurar, onde restaurar e quanto custa não agir. Se mesmo assim optamos por repetir respostas emergenciais, estaremos assumindo conscientemente um modelo de colapsos recorrentes. O estudo não promete eliminar crises, mas mostra que a restauração reduz a profundidade e o custo das crises, justamente nos momentos de maior pressão sobre o sistema.

Existe um paradoxo no centro do conceito de "reservatório invisível": a floresta só entrega seu serviço hídrico pleno quando ninguém a derruba — mas o incentivo econômico para derrubá-la permanece maior do que o incentivo para mantê-la. Como se quebra essa equação sem depender de voluntarismo?

Internalizando o valor da floresta no sistema econômico. Hoje, a floresta, se plantada no local correto, presta serviços essenciais, como armazenamento superficial de água e rios voadores, mas não gera renda direta para quem a mantém em pé.

O estudo demonstra que um programa de restauração em escala, de cerca de 32 mil hectares, é economicamente viável e apresenta relação benefício-custo positiva. Isso abre caminho para mecanismos estruturais, como pagamento por serviços ambientais, inclusão da proteção de mananciais na tarifa de água e uso de recursos públicos e privados como parte do custo operacional do saneamento.

Não se trata de pedir boa vontade ao proprietário da terra, mas de corrigir uma falha econômico histórica, pois a água urbana depende do território rural, mas nunca o remunerou adequadamente por seus serviços.

No Vale do Paraíba e no entorno do Cantareira, o senhor acompanha proprietários rurais com nascentes que não secam na estiagem porque restauraram a vegetação nativa. Esse resultado é replicável em escala metropolitana — ou estamos falando de exceções que funcionam justamente porque estão cercadas de degradação?

São replicáveis, desde que haja escala e critério espacial. O diferencial não é um caso isolado de um proprietário exemplar, mas a paisagem funcional. Os modelos do estudo mostram que, quando a restauração é bem localizada, priorizando áreas de recarga e de descarga hídrica, o efeito deixa de ser pontual e passa a ser sistêmico.

O cenário, que restaura apenas 15% da área, gera até 33% mais água nos períodos críticos de estiagem. Isso prova que não precisamos reflorestar tudo, mas refazer a lógica da paisagem. O que hoje aparece como exceção pode se tornar padrão com política pública consistente.

A Mata Atlântica captura umidade da neblina independentemente da chuva. Dado o grau de fragmentação florestal na região metropolitana de São Paulo, esse mecanismo ainda opera em escala relevante — ou já cruzamos o limiar abaixo do qual a floresta remanescente perdeu a capacidade de influenciar o ciclo hídrico local?

Funciona, mas está no limite. A Mata Atlântica tem capacidade comprovada de capturar umidade atmosférica além da chuva. Esse mecanismo, porém, depende de continuidade florestal, relevo e microclima. A fragmentação reduz drasticamente essa função.

O estudo mostra que restaurar áreas estratégicas recria condições microclimáticas capazes de reativar esse serviço ecossistêmico. Ainda não ultrapassamos um ponto de não retorno, mas cada ano de atraso reduz a eficácia da restauração e aumenta o seu custo.

Se o Super El Niño se confirmar na intensidade projetada e os reservatórios encerrarem 2026 abaixo de 60%, em que ponto a restauração florestal deixa de ser solução e passa a ser apenas resposta de longo prazo para um sistema que já entrou em colapso no curto?

A restauração ecológica sempre foi uma resposta estrutural, não emergencial. Ela não substitui medidas de curto prazo, como gestão da demanda, operação de sistemas e contingência.

Mas quanto mais se adia, mais o sistema depende de soluções caras e frágeis. O paradoxo é que quanto mais grave a crise, maior é o retorno marginal da restauração, porque ela atua justamente nos fluxos de base da seca.

Se o sistema entrar em colapso operacional, a floresta não a salva sozinha. Mas sem a floresta, não há cenário de estabilidade futura, por mais obras que se façam. A restauração é o que separa um ciclo de colapsos sucessivos de uma trajetória real de adaptação.

O que Rubens Benini descreve não é uma crise futura. É uma crise em curso, cuja velocidade é disfarçada pela inércia dos sistemas hídricos — que levam anos para colapsar e décadas para se recuperar. A floresta que não foi restaurada na última estiagem já está fazendo falta nesta. A que não for restaurada agora fará falta na próxima geração.

O Sistema Cantareira é um espelho. O que ele reflete não é só o nível da água — é a qualidade das decisões que uma metrópole de 22 milhões de pessoas tomou, ou deixou de tomar, sobre o território que a alimenta. E o que o "reservatório invisível" propõe é, no fundo, uma pergunta incômoda: quanto vale, em tarifa de água, em preço de alimento, em dano de enchente, a floresta que não existe mais?

foto de rubens benini, entrevistado na matéria O Cantareira está secando — e a culpa não é da chuva
Rubens Benini - Foto: Divulgação

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