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Como os motores a gasolina e etanol se tornaram grandes emissores de poluentes no Brasil

Escrito por Neo Mondo | 20 de janeiro de 2026

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Gasolina e etanol, durante décadas, foram vistos como “limpos” em comparação com os caminhões e ônibus a diesel, tradicionalmente associados à fumaça preta e às altas emissões de poluentes - Congestionamento em São Paulo - Foto: Levi Bianco

ARTIGO

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Por - Flávio Guimarães*, especial para Neo Mondo

Durante décadas, os automóveis a gasolina e etanol foram vistos como “limpos” em comparação com os caminhões e ônibus a diesel, tradicionalmente associados à fumaça preta e às altas emissões de poluentes. No entanto, uma transformação silenciosa nos motores dos veículos leves está mudando esse cenário: a popularização da tecnologia de injeção direta (GDI), que, apesar de mais eficiente no consumo, provoca uma elevação significativa na emissão de material particulado — um dos poluentes atmosféricos mais nocivos à saúde.

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Estudos recentes mostram que, desde 2021, a média de emissão de partículas pelos carros a gasolina e flex começou a subir de forma consistente, alcançando 3 mg/km em 2023. Trata-se de um patamar semelhante ao registrado nos motores a diesel de gerações antigas, antes das grandes evoluções tecnológicas que reduziram drasticamente a fuligem expelida por caminhões e ônibus no país.

Esse movimento preocupa porque o Brasil já havia alcançado avanços notáveis no controle das emissões dos motores pesados, com a adoção de combustíveis mais limpos e filtros cerâmicos que reduziram em até 99% o material particulado. Agora, há o risco desse esforço ser neutralizado pela frota de carros de passeio, justamente os que circulam em maior número nas grandes cidades.

Dessa forma, o material particulado gerado pelos motores GDI não é apenas mais abundante: também é mais perigoso. Estamos falando de partículas ultrafinas, até 400 vezes menores que um grão de poeira visível, capazes de penetrar profundamente nos pulmões e atingir a corrente sanguínea e associadas a doenças respiratórias, cardiovasculares e até ao câncer, elas representam hoje uma das maiores preocupações da saúde pública no campo da poluição atmosférica.

Se por um lado o avanço tecnológico trouxe novos desafios, o Brasil possui uma vantagem competitiva única: o etanol. Pesquisas demonstram que o uso de etanol em motores GDI pode reduzir em até 70% a emissão de material particulado, tanto em massa quanto em número de partículas. Isso significa que o biocombustível nacional, além de ser renovável e contribuir para a redução de gases de efeito estufa, pode também se consolidar como parte da solução para mitigar os impactos locais da poluição.

O estudo indica que o caminho mais eficaz é a adoção de filtros cerâmicos nos escapamentos de veículos com motor GDI — tecnologia já consolidada nos caminhões e ônibus modernos. Esses filtros têm potencial de reduzir em mais de 90% a emissão de partículas, atendendo aos padrões mais exigentes da Europa e dos Estados Unidos.

Enquanto isso, especialistas recomendam que o país adote imediatamente limites mais rígidos de emissões para os carros leves, alinhando-se às normas internacionais e interrompendo a tendência de aumento já verificada nos últimos anos. Uma estratégia de transição poderia incluir limites intermediários, exigindo reduções rápidas, mas viáveis, enquanto a indústria se adapta ao uso generalizado dos filtros.

Sem ajustes, os veículos leves tendem a se tornar, em poucos anos, os maiores responsáveis pela emissão de material particulado no país — justamente quando os pesados já cumprem padrões cada vez mais rigorosos. Isso significa que as conquistas ambientais obtidas com décadas de investimentos no setor a diesel podem ser anuladas.

A equação é clara: o Brasil precisa corrigir rapidamente a rota no controle de emissões dos automóveis leves. A solução envolve regulamentação mais firme, incentivo ao uso de tecnologias de filtragem e, sobretudo, valorização do etanol como aliado estratégico. O país já demonstrou liderança global no uso de biocombustíveis. Agora, tem diante de si a oportunidade de transformar essa vantagem em um pilar também para a saúde pública urbana.

*Flávio Guimarães é presidente da Corning na América Latina e Caribe, uma das líderes mundiais em inovação da ciência de materiais que desenvolve produtos para as áreas de comunicações ópticas, eletrônicos móveis de consumo, tecnologias para displays, automóveis e ciências da vida. 

foto de flávio guimarães, autor do artigo Como os motores a gasolina e etanol se tornaram grandes emissores de poluentes no Brasil
Flávio Guimarães, autor do artigo "Como os motores a gasolina e etanol se tornaram grandes emissores de poluentes no Brasil" - Foto: Divulgação

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