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Um mundo cheio de gente solitária

Escrito por Daniel Medeiros | 24 de agosto de 2026

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Mundo em que uma em cada seis pessoas convive com a solidão - Foto: Ilustrativa/Freepik

POR - DANIEL MEDEIROS*

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que uma em cada seis pessoas no mundo sofre com a solidão, fenômeno associado a cerca de 871 mil mortes por ano e com efeitos profundos sobre o bem-estar emocional e físico. Entre os mais atingidos estão os jovens de 13 a 29 anos, dos quais 17% a 21% se dizem solitários com frequência. O quadro se agravou depois da covid-19, sobretudo entre aqueles que, nos dois anos trágicos da pandemia, viram as chances de socialização se reduzirem a quase zero, justamente na idade em que esse aprendizado, já difícil e muitas vezes aflitivo, costuma começar. Com o fim das máscaras e das restrições, boa parte da juventude teve receio de trocar as redes sociais pelas relações presenciais. Criou-se assim uma cauda longa de afastamento que pesquisadores e estatísticas ainda hoje registram.

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A solidão nasce da dificuldade de responder às exigências das relações reais. Nos aplicativos e nas conversas por mensagem, tudo é mais controlado, e qualquer momento constrangedor termina com um toque. O anonimato também é mais fácil. E, desde o advento da inteligência artificial, que coincidentemente se popularizou pouco depois do fim da pandemia, a interação com humanos deixou de ser necessária. Uma pesquisa da Arco Educação com 936 estudantes da rede privada, do 6º ano do ensino fundamental ao 3º do ensino médio, publicada em O Globo no dia 6 de junho deste ano, revelou que mais da metade dos adolescentes brasileiros tem dificuldade para fazer novas amizades. Quase um em cada cinco (19%) já recorre à inteligência artificial como companhia quando se sente sozinho ou precisa conversar. Entre as meninas, o percentual que busca a IA por causa da solidão é quase o dobro do registrado entre os meninos.

Mas o dado que mais me chamou a atenção foi outro: 32% dos entrevistados sentem que as pessoas raramente ou nunca se interessam pelo que eles dizem.

Aqui está um dos aspectos que, de um lado, expõem um grave problema do nosso tempo e, de outro, iluminam uma saída. Essa solidão por indiferença é o que a pensadora Simone Weil chamou de malheur, isto é, aflição ou ausência de atenção. A sensação difere do sofrimento, porque o sofrimento exige ao menos uma testemunha. O malheur acontece quando ninguém está olhando, na intimidade da esfera doméstica, escondido da luz do espetáculo. Não se trata de crueldade, mas de cancelamento. Não se trata de perseguição, mas de eliminação do outro no círculo dos seus próximos. Fica o vazio, difícil de administrar e de suportar. Como disse Ana Ilievska, professora de Artes Liberais Globais na Universidade Americana de Beirute-Mediterrâneo, o malheur é como ver a grande Biblioteca de Alexandria queimar diante dos próprios olhos e não ter uma palavra para água.

E por que esse quadro trágico aponta, em si mesmo, a saída? Porque, como escreveu Primo Levi, escritor e sobrevivente de Auschwitz, ninguém é capaz de ser totalmente infeliz o tempo todo. Há um momento, por mais grave e trágico que seja o contexto, como o dos campos de concentração, que testa nossa humanidade a ponto de revelar o que existe de mais profundo em nós. E essa essência é compartilhável.

O século XXI é o período em que mais seres humanos vivem no planeta. E é, ao mesmo tempo, o que mais complica a questão mais propriamente humana que conhecemos: aceitar a presença do outro como outro, e não como cópia ou complemento de nós mesmos. O afastamento entre as pessoas, movido pela incapacidade de reconhecer e administrar as próprias limitações e defeitos, parece chegar a um ponto de paralisia social. É hora do retorno a Ítaca: olhar o outro não para encontrar sucesso, riqueza, performance jovial e sorrisos contagiantes, mas para seguir junto em um caminho a ser percorrido e admirado, com os mistérios e as surpresas que só outro ser humano é capaz de oferecer.

*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

foto de daniel medeiros, autor do artigo Um mundo cheio de gente solitária
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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