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Um mangue sem caranguejos em Iguape: o raio-X do litoral que o Rebimar leva ao Congresso de Oceanografia

Escrito por Neo Mondo | 24 de agosto de 2026

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Mangue de Cananéia (SP) visto por drone, área onde o monitoramento do Rebimar registrou os maiores estoques de carbono aéreo do levantamento, entre 65 e 107 toneladas por hectare - Foto: Gabriel Marchi

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Estudos inéditos da Associação MarBrasil medem carbono, vigor da vegetação, densidade de caranguejo-uçá e contaminação em raias entre São Paulo e Santa Catarina

No manguezal do Valo Grande, em Iguape (SP), os pesquisadores não encontraram um único caranguejo-uçá. O índice de vigor vegetativo da floresta deu negativo e o estoque de carbono acima do solo ficou em 43,8 toneladas por hectare, bem abaixo do medido a poucas dezenas de quilômetros dali. O dado integra um dos estudos que a Associação MarBrasil apresenta entre 24 e 28 de agosto no 9º Congresso Brasileiro de Oceanografia, em Vitória (ES), sob o tema "Ciência e tecnologia para um oceano sustentável". Os trabalhos foram desenvolvidos por pesquisadores ligados ao Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha, o Rebimar, patrocinado pelo Programa Petrobras Socioambiental.

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O estudo que produziu o número de Iguape se chama "Monitoramento integrado da saúde dos manguezais da Grande Reserva Mata Atlântica, Sul e Sudeste do Brasil". Foi conduzido por Sarah Charlier-Sarubo (MarBrasil), Cassiana Baptista Metri (UNESPAR), Laura Krama (LAGEAMB/UFPR) e Marília Cunha Lignon (UNESP). Em 2025, a equipe monitorou 42 parcelas permanentes nos litorais de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, todas dentro da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, reconhecida pela UNESCO. Mediu estrutura da vegetação, estimou biomassa e estoques de carbono, e usou drones para captar vigor vegetativo e teor de clorofila. Somou a isso a densidade do caranguejo-uçá (Ucides cordatus), espécie que sustenta economicamente comunidades inteiras ao longo do corredor.

Os resultados desenham um gradiente. Em Cananéia e Icapara, no litoral paulista, o carbono aéreo variou entre 65 e 107 toneladas por hectare, com alto desenvolvimento estrutural das florestas. Em Paranaguá, sob influência de um dos maiores complexos portuários da América do Sul, a floresta manteve estoque moderado, de 57,7 toneladas por hectare, enquanto a densidade de caranguejos caiu para 0,06 indivíduo por metro quadrado, considerada crítica pela equipe. Em Superagui, no Paraná, o estoque ficou em 18,5 toneladas por hectare, resultado de um evento climático extremo em 2019 que matou árvores adultas. O local mostra regeneração e população de caranguejo em recuperação.

Esses valores medem apenas a parte aérea. No mangue, a maior fração do carbono fica retida no solo lamoso, onde a falta de oxigênio (hipoxia) trava a decomposição. A escala do que está em jogo aparece em outros levantamentos: estudo publicado na Nature Communications em março de 2024 estimou estoques totais da ordem de 468,3 toneladas por hectare nos mangues amazônicos, de três a vinte vezes acima dos biomas terrestres brasileiros, e o Brasil é o segundo país em área de manguezal no mundo, com cerca de 1 milhão de hectares. Só a Grande Reserva Mata Atlântica abriga aproximadamente 49 mil hectares, segundo o mapeamento do Rebimar com o LAGEAMB da UFPR.

O caso de Iguape tem endereço histórico. O Valo Grande, canal artificial escavado entre 1827 e 1852 para ligar o rio Ribeira ao complexo lagunar de Cananéia-Iguape, foi barrado e reaberto duas vezes entre 1978 e 1995, quando ficou definitivamente aberto. O Ribeira carrega contaminação por metais pesados originada da mineração na bacia. Uma decisão de engenharia do século XIX segue legível hoje em um índice de clorofila negativo e na ausência de uma espécie inteira.

O segundo trabalho responde a uma pergunta que interessa diretamente a quem vive do mangue: quanto dá para retirar sem comprometer a renovação do estoque. A equipe formada por Gabriele Costa Ramos, Júlia Ramos de Oliveira, Tânia Zaleski, Rafael Metri, Cassiana Baptista Metri (UNESPAR) e Sarah Charlier-Sarubo (MarBrasil) acompanhou 13 áreas nos três estados e registrou 4.703 tocas. As tocas abertas foram medidas e convertidas em largura de carapaça, método que dispensa a captura e reduz a dependência da presença de um catador experiente. Nas franjas, mais próximas da água, a média foi de 1,57 caranguejo por metro quadrado. No interior do bosque, 1,27.

A densidade, porém, esconde o problema. Em uma das áreas analisadas na Baía da Babitonga, em Santa Catarina, apenas cerca de 1% dos animais tinha tamanho de captura, acima de sete centímetros de largura. Em Nóbrega, em Cananéia, a proporção entre jovens e adultos apareceu equilibrada. São dois territórios com abundância parecida e capacidade de suporte oposta. A consequência prática é regulatória: regras uniformes de defeso e de tamanho mínimo tratam como iguais populações que a série histórica mostra serem distintas.

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Caranguejo-uçá adulto sobre o lodo do mangue, no litoral da Grande Reserva Mata Atlântica, onde a espécie funciona ao mesmo tempo como base de renda das comunidades e como indicador do estado da floresta monitorada pelo Rebimar - Foto: Gabriel Marchi

Do mangue para a água aberta, o Rebimar leva ao congresso uma frente conduzida com a Fundação Oswaldo Cruz. Um dos estudos analisou a raia-ticonha (Rhinoptera bonasus), classificada como Vulnerável e capturada acidentalmente por pescadores artesanais em Matinhos, no litoral paranaense. Em amostras de sangue e brânquias, os pesquisadores encontraram indícios de que a presença de determinados metais e metaloides se relaciona a alterações no metabolismo, no equilíbrio ácido-base e na osmorregulação. O animal aparenta saúde por fora enquanto o organismo já registra a mudança.

Outro trabalho investigou a raia-viola-de-focinho-curto (Zapteryx brevirostris), ameaçada de extinção, no primeiro levantamento bacteriano da espécie no Atlântico Sudoeste. Em dez animais do litoral do Paraná, a equipe identificou 23 espécies de bactérias, algumas associadas a doenças humanas. Mais da metade dos microrganismos, 57%, resistiu a pelo menos um dos antibióticos testados. A resistência chegou a 95% para a ampicilina e a 83% para a tetraciclina. Também apareceu Escherichia coli, indicativo de contaminação por esgoto. O estudo não mediu resíduos de antibióticos na água, e essa ressalva importa para a leitura do resultado. O pano de fundo é global: a resistência antimicrobiana causou cerca de 1,14 milhão de mortes no mundo em 2021, mais do que HIV e malária, e o projeto GRAM projeta 1,91 milhão de mortes em 2050, alta de quase 70% ao ano em relação a 2021. A pesquisa reúne Fiocruz, MarBrasil, UFPR e UDESC, com Rachel Ann Hauser-Davis, Renata Garcia Costa, Rose Mary Pimentel Bezerra, Izabela Martins Vicente, Renata Daldin Leite, Eloisa Pinheiro Giareta, Natascha Wosnick, Leonardo de Paula Rios, João Pedro Sader Teixeira e Joseli Maria da Rocha Nogueira.

A quinta pesquisa testou um protocolo. Oito cações-anjo (Squatina occulta), espécie Criticamente em Perigo, capturados em redes de emalhe destinadas ao linguado em Pontal do Paraná, foram mantidos 24 horas em ambiente controlado antes da soltura. Sete sobreviveram, taxa de 87,5%, com recuperação mensurável dos indicadores de estresse. É o primeiro registro mundial de protocolo de recuperação em cativeiro para a espécie, assinado por João Pedro Sader Teixeira, Renata Daldin Leite, Natascha Wosnick, Leonardo de Paula Rios, Rachel Ann Hauser-Davis e Eloísa Pinheiro Giareta, da UDESC, MarBrasil, UFPR e Fiocruz.

Sete sobreviventes fazem diferença porque a espécie repõe muito devagar. O cação-anjo só começa a se reproduzir aos 10 anos, dá à luz uma única vez a cada quatro ou cinco anos da vida adulta e gera de 4 a 10 filhotes por gestação. A captura é proibida no Brasil e a IUCN classifica a espécie como criticamente em perigo.

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