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Protetor solar mineral ou químico: a confusão que as marcas não têm interesse em desfazer

Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 24 de agosto de 2026

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Protetor solar entre a saúde da pele e a saúde dos oceanos, uma escolha que exige menos rótulos e mais ciência - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DRA. MARCELA BARALDI*

Poucos produtos de beleza provocam tanta dúvida quanto o protetor solar. Mineral ou químico? Físico ou orgânico? Qual é mais seguro? Qual protege melhor? Qual agride menos o meio ambiente? Basta entrar em uma farmácia para encontrar uma coleção de palavras que parecem científicas, mas que muitas vezes dizem mais sobre a estratégia de comunicação de uma marca do que sobre o funcionamento real do produto.

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A primeira confusão está no próprio nome. Quando dizemos "protetor químico", parece que estamos opondo química e natureza, como se um produto fosse feito de substâncias químicas e o outro não. Essa divisão não existe. Tudo o que compõe um cosmético é formado por substâncias químicas, inclusive o óxido de zinco e o dióxido de titânio, os principais filtros dos chamados protetores minerais. A diferença está no tipo de filtro empregado e na maneira como ele interage com a radiação ultravioleta.

Os filtros orgânicos, tradicionalmente chamados de químicos, absorvem a radiação ultravioleta e convertem essa energia em calor, o que reduz a quantidade de radiação que chega às estruturas celulares da pele. Os filtros inorgânicos, como o óxido de zinco e o dióxido de titânio, também absorvem parte da radiação e ainda espalham e refletem outra parcela. Por isso, a explicação simplificada de que um "absorve" enquanto o outro "fica na superfície refletindo o sol" não descreve mais o que sabemos sobre fotoproteção.

A segunda confusão envolve a palavra "absorção". A pele absorve alguns filtros orgânicos, que podem ser detectados na circulação sanguínea depois de aplicações repetidas em grandes áreas do corpo. Estudos farmacocinéticos demonstraram isso, e agências regulatórias passaram a pedir mais dados sobre a segurança de determinados filtros. Existe, porém, uma diferença essencial entre detectar uma substância no sangue e demonstrar que ela provoca uma doença. Uma coisa é mostrar que houve exposição sistêmica. Outra, muito diferente, é provar que essa exposição produz efeito clínico prejudicial.

Essa distinção desaparece com frequência quando a ciência chega às redes sociais. Um estudo mostra a presença de um filtro na circulação e, poucas horas depois, surge a conclusão de que "protetor solar faz mal". Não é isso que os estudos demonstraram. Também não seria correto afirmar que a absorção sistêmica não merece atenção. Muitas pessoas usam protetor solar todos os dias, durante décadas, e por isso a avaliação de segurança precisa considerar não apenas uma aplicação isolada, mas a exposição repetida ao longo da vida.

No Brasil, a discussão precisa começar por uma realidade que não pode ser ignorada: a radiação ultravioleta é um fator conhecido de envelhecimento cutâneo e de câncer de pele. A fotoproteção não é uma tendência de beleza. É uma medida de saúde. A regulamentação brasileira estabelece critérios para os protetores solares e exige que a proteção declarada na embalagem seja comprovada.

É por isso que me incomoda quando a conversa sobre protetor solar transforma uma questão de saúde pública em disputa entre dois produtos. O consumidor não precisa escolher entre proteger a pele e cuidar do meio ambiente. A pergunta mais inteligente é outra: como fazer as duas coisas ao mesmo tempo?

Essa pergunta nos leva ao oceano.

Pesquisadores já encontraram em ambientes aquáticos filtros ultravioletas usados em produtos de proteção solar, entre eles a oxibenzona, o octinoxato e o octocrileno. Estudos experimentais investigaram seus efeitos sobre diferentes organismos marinhos, incluindo corais, e há evidências de que determinados filtros produzem efeitos ecotoxicológicos em certas condições de exposição. A mesma literatura mostra lacunas importantes sobre concentrações ambientais reais, exposição prolongada, mistura de diferentes substâncias e interação com outros fatores de estresse dos recifes.

Dizer que "o protetor químico destrói os corais" é tão simplista quanto afirmar que qualquer protetor mineral é inofensivo para o ambiente. O branqueamento dos corais está relacionado principalmente ao aquecimento dos oceanos e a múltiplos fatores ambientais. Alguns filtros presentes em produtos de cuidado pessoal podem participar dessa equação, mas não explicam sozinhos a degradação dos recifes. A ciência não autoriza uma narrativa tão confortável.

O caso da oxibenzona tornou a discussão ainda mais conhecida. Experimentos laboratoriais encontraram efeitos sobre corais expostos a determinadas concentrações da substância, e alguns lugares passaram a restringir a venda de produtos com certos filtros. Daí a popularização de expressões como "reef safe", usadas para sugerir que determinado protetor seria seguro para os recifes. O problema é que "reef safe" não é uma definição científica universal, capaz de garantir sozinha que um produto não cause nenhum efeito ambiental.

O mesmo raciocínio vale para a palavra "mineral". Um protetor não se torna sustentável porque usa óxido de zinco ou dióxido de titânio. É preciso olhar a formulação inteira, a concentração dos ingredientes, a forma como são utilizados, a embalagem, o processo de produção e o destino do produto depois que ele deixa a nossa pele. Sustentabilidade não cabe em uma única palavra escrita na frente de um frasco.

Há ainda uma questão que raramente aparece nessa conversa: o melhor protetor solar é aquele que a pessoa consegue usar corretamente. Um produto que deixa a pele excessivamente branca, faz arder os olhos ou provoca oleosidade tende a ser aplicado em quantidade insuficiente, quando não é abandonado. E produto abandonado não protege ninguém, seja ele mineral, orgânico ou vendido como a opção mais sustentável da prateleira.

A fotoproteção também não deveria ser resumida ao creme. Chapéu, roupas adequadas, sombra, óculos de sol e redução da exposição nos horários de maior intensidade da radiação fazem parte de uma estratégia mais ampla. Quando incorporamos essas medidas ao cotidiano, a proteção deixa de depender exclusivamente de reaplicar um produto sobre a pele ao longo de todo o dia.

Talvez seja esse o ponto em que a beleza sustentável precise amadurecer.

Em vez de dividir os produtos em dois times, o exercício é olhar para o produto inteiro: quais filtros a fórmula usa, qual é a evidência sobre a segurança deles, qual proteção ela oferece, como se comporta na pele, qual é a embalagem, quanto produto realmente precisamos usar e o que acontece com essas substâncias depois que elas deixam nosso corpo.

Como dermatologista, eu não gostaria que alguém deixasse de usar protetor solar por medo de um ingrediente. A radiação ultravioleta é um risco bem mais documentado para a saúde da pele do que muitas das ameaças que viralizam nas redes sociais. Também não acho razoável que a indústria use palavras como "natural", "mineral" ou "amigo dos oceanos" para encerrar uma discussão que está apenas começando.

A próxima geração de produtos de beleza precisa exatamente disso: menos promessas absolutas e mais transparência sobre o que colocamos na pele, sobre o que sabemos a respeito dessas substâncias e sobre o que ainda não sabemos. A escolha consciente não nasce do medo. Nasce da informação.

*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

foto da dra marcela baraldi, autora do artigo Protetor solar mineral ou químico: a confusão que as marcas não têm interesse em desfazer
Dra. Marcela Baraldi - Foto: Arquivo pessoal

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