Cultura Destaques Economia e Negócios Emergência Climática Meio Ambiente Oceano Política Saúde Segurança Sustentabilidade
Escrito por Neo Mondo | 27 de janeiro de 2026
Abrolhos é um exemplo onde a Biodiversidade e Sociodiversidade caminham juntos e geram uma grande Sociobiodiversidade, onde a vida marinha e a humana saem ganhando - Foto: Marco Antônio Teixeira / WWF-Brasil
POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DE NEO MONDO
Por que a região mais biodiversa do Atlântico Sul também é um hotspot de sociobiodiversidade — e o que isso revela sobre o Brasil que queremos ser
Existe uma palavra que anda ganhando espaço nos debates ambientais globais — mas que ainda soa nova para muita gente: sociobiodiversidade. Ela pode até parecer técnica demais à primeira vista, mas carrega uma ideia simples, quase óbvia, e profundamente transformadora: não existe natureza protegida sem gente protegida junto.
Leia também: O oceano ganhou lei — e agora?
Leia também: Estudo revela áreas críticas sem proteção em Abrolhos
É exatamente por isso que a Região dos Abrolhos, no litoral entre o extremo sul da Bahia e o norte do Espírito Santo, vem sendo reconhecida como um Hotspot de Sociobiodiversidade. Mais do que um título, trata-se de um reconhecimento político, científico e simbólico. Abrolhos não é apenas um dos lugares mais ricos em vida marinha do planeta — é um território onde biodiversidade e modos de vida tradicionais formam um mesmo ecossistema.
E talvez esteja aí o ângulo mais surpreendente dessa história: Abrolhos não é um relicário do passado. É um ensaio do futuro.
Tradicionalmente, hotspots de biodiversidade são regiões com alta concentração de espécies — muitas delas ameaçadas — sob forte pressão humana. A ideia de sociobiodiversidade amplia esse conceito ao incluir algo que durante décadas ficou fora do centro das decisões ambientais: as pessoas que vivem, trabalham, produzem e cuidam desses territórios.
No caso de Abrolhos, isso significa reconhecer que:
É por isso que pesquisadores de universidades como Universidade de São Paulo, Universidade Estadual do Rio de Janeiro e Universidade Federal do Espírito Santo, em parceria com organizações da sociedade civil, apontam Abrolhos como o hotspot dos hotspots marinhos do Brasil.
A Região dos Abrolhos abriga cerca de 6,18 milhões de hectares de ambientes costeiros e marinhos. Ali estão:
E como se não bastasse, Abrolhos é também o maior berçário de baleias-jubarte do Atlântico Sul, que retornam todos os anos, entre junho e novembro, para se reproduzir e criar seus filhotes.
Não é à toa que, desde 2013, a região também é reconhecida como um Hope Spot pela Mission Blue, iniciativa liderada pela oceanógrafa Sylvia Earle. Um “ponto de esperança” num oceano cada vez mais pressionado.
Talvez o dado mais ignorado — e mais poderoso — seja este: cerca de 11 mil pessoas dependem direta ou indiretamente da pesca na região, movimentando mais de R$ 100 milhões por ano.
São comunidades tradicionais que há gerações aprenderam a ler as marés, respeitar os ciclos da vida marinha e manejar recursos de forma sustentável. Três Reservas Extrativistas Marinhas (Corumbau, Cassurubá e Canavieiras), além de Terras Indígenas e Territórios Quilombolas, existem justamente para proteger esse elo entre natureza e cultura.
Aqui, sociobiodiversidade deixa de ser conceito e vira prática cotidiana:
➡️ peixe no prato,
➡️ renda local,
➡️ conservação real.
Apesar de toda essa importância, grande parte dos habitats de Abrolhos ainda não está adequadamente protegida. Bancos de rodolitos, recifes mesofóticos (de média profundidade) e buracas seguem vulneráveis a atividades predatórias e aos impactos das mudanças climáticas.
É nesse ponto que entra o trabalho do Coletivo Abrolhos para Sempre, que reúne organizações como WWF-Brasil, Instituto Baleia Jubarte, Instituto Coral Vivo, Conservação Internacional Brasil, Voz da Natureza, Associação Mãe dos Extrativistas da Resex Canavieiras (AMEX Canavieiras), ArteManha, Associação das Marisqueiras e Pescadores de Belmonte (AMPB), Aliança Futuri e MOVE.
O coletivo atua para ampliar as áreas marinhas protegidas e alinhar o Brasil à meta global 30x30 — proteger 30% dos oceanos até 2030.
Abrolhos não é só parte dessa meta. É peça-chave.

Talvez a pergunta mais honesta não seja “por que Abrolhos é um hotspot de sociobiodiversidade?”, mas outra, mais incômoda:
Por que ainda insistimos em separar economia, conservação e pessoas?
Abrolhos mostra que é possível gerar renda sem destruir, conservar sem excluir e desenvolver sem apagar culturas. Num mundo em busca de novos modelos de desenvolvimento, a região oferece algo raro: uma economia baseada na vida.
E isso não é romantismo. É estratégia.
Falar de Abrolhos não deveria soar como mais um alerta ambiental — desses que cansam e paralisam. Deveria soar como um convite.
Convite para repensar políticas públicas.
Convite para reposicionar o Brasil no debate climático global.
Convite para entender que proteger o oceano é proteger quem vive dele.
Abrolhos não pede piedade.
Pede visão.
E, sobretudo, coragem para aprender com quem sempre soube cuidar.
*Com informações do WWF-BRASIL
Heloisa Schurmann apresenta série infantil sobre preservação marinha na Bienal do Livro de São Paulo
Gerdau reforça presença no agronegócio em parceria com maior evento de cultura agro do Brasil