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Escrito por Neo Mondo | 23 de abril de 2026
Patagônia chilena: lago, aves e o vulcão Osorno ao fundo — paisagem registrada por Mário Barila em expedição anterior à região - Foto: Mário Barila
POR - ELENI LOPES*, DIRETORA DE REDAÇÃO
Há algo de obstinadamente anacrônico na figura do homem que embarca sozinho, com recursos próprios, para plantar árvores num território que o fogo acabou de varrer. Mário Barila, fotógrafo e ambientalista paulista, parte neste sábado, 25 de abril, em direção à Patagônia argentina — mais precisamente à cidade de Cholila, na província de Chubut — para integrar uma frente de recuperação ambiental em áreas devastadas por aquilo que especialistas já classificam como a pior tragédia florestal da região em pelo menos três décadas.
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O destino não é arbitrário. A Patagônia argentina enfrentou, no início de 2026, a mais grave crise ambiental registrada na região em pelo menos duas décadas: incêndios de grandes proporções devastaram mais de 12 mil hectares apenas na porção andina de Chubut, provocaram a evacuação de ao menos três mil pessoas e avançaram sobre florestas nativas de altíssimo valor ecológico. O episódio não foi isolado: os moradores da Patagônia andina ainda carregam a memória dos incêndios de janeiro e fevereiro de 2025, quando a área queimada quadruplicou em relação à temporada anterior — os piores registros em três décadas, segundo o Greenpeace Argentina.
O que arde ali não é apenas vegetação. Embora incêndios florestais possam ter causas naturais, 95% deles resultam de ação humana, segundo a Agência Federal de Emergências da Argentina — com origem em fogueiras mal apagadas, abandono de terras e preparo de pastagens com fogo, agravados por seca, vento e temperaturas extremas. Em Chubut, múltiplos focos simultâneos cercaram a cidade de Cholila enquanto rajadas de vento ameaçavam romper os perímetros de contenção, levando o governo nacional a declarar estado de emergência. O próprio governador da província, Ignacio Torres, afirmou publicamente que ao menos um dos focos teve origem intencional.
A dimensão política do desastre tampouco é invisível. O colapso ocorreu em meio ao desmonte do orçamento ambiental promovido pelo governo de Javier Milei, que reduziu drasticamente os recursos destinados à prevenção e ao combate a incêndios — com cortes que, segundo estudos do Centro de Economía Política Argentina, chegam a 69% em relação a 2023.
O que se perde nas chamas da Patagônia pertence a uma categoria rara de patrimônio natural. A floresta andino-patagônica de Chubut integra a ecorregião das florestas temperadas valdivianas — a segunda maior floresta temperada do mundo, herdeira de uma flora de origem gondwânica partilhada com Nova Zelândia, Tasmânia e Austrália, onde metade das espécies de plantas lenhosas são endêmicas. Nesse território crescem araucárias milenares, lengas, ñires e cipreses — espécies de crescimento lento e longevidade secular que, uma vez destruídas pelo fogo, podem levar séculos para se reconstituir. Os incêndios da temporada 2024-2025 já haviam destruído espécimes vegetais em zonas de reserva natural estrita — áreas de máxima proteção —, entre eles araucárias milenares e extensas manchas de colihué.
É nesse chão carbonizado que Barila irá trabalhar. A atuação prevista em Cholila envolve plantio de espécies nativas em áreas degradadas, implantação de um viveiro para produção de mudas patagônicas e introdução de colmeias de abelhas para estimular a polinização — conjunto de intervenções que os especialistas em restauração ecológica reconhecem como estratégia coerente diante da complexidade do problema. O primeiro passo da reconstituição em ecossistemas patagônicos é a seleção de pontos estratégicos para reflorestamento, em zonas favoráveis à dispersão de sementes pelo vento, de modo que as árvores plantadas funcionem como futuros viveiros naturais. Cholila não é território novo nesse ciclo de destruição e tentativa de cura: registros locais documentam esforços de recomposição florestal após os incêndios de 2021 e 2022, com plantio de coihues e cipreses coordenado pela ONG Reforestarg e pela Secretaria de Bosques de Chubut.

A iniciativa de Barila se insere numa trajetória de engajamento que antecede em muito este episódio. Fundado em 2014, seu Projeto Água Vida percorreu todos os biomas brasileiros, sempre articulando o registro fotográfico como instrumento de pressão e memória ambiental. Na Patagônia, há cerca de uma década, colaborou na viabilização de um documentário que contribuiu para o debate que barrou a construção de hidrelétricas no rio Futaleufú, no Chile — uma vitória que poucos recordam e que as paisagens preservadas daquele vale carregam em silêncio.
Desta vez, entre Cholila e Bariloche, Barila volta com pás e câmera. Na Patagônia que ainda fuma, cada muda plantada é também uma imagem que o tempo levará anos para revelar.
*Com informações da LILÁS COMUNICAÇÃO.
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