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Escrito por Neo Mondo | 31 de março de 2026
São Paulo pode se tornar inabitável, alertou o climatologista Carlos Nobre (à direita) durante o seminário Cidades e Mudanças Climáticas, promovido pela Finep no Rio de Janeiro. Ao fundo, o presidente da Finep, Luiz Antônio Elias - Foto: Lucas Landau
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Treze por cento. É a cobertura vegetal da maior metrópole da América Latina. Em vários bairros da região central de São Paulo, esse número cai para menos de 8%. Carlos Nobre está finalizando um estudo que vai calcular o que acontece com a cidade se esse percentual for mantido e os índices de emissão de gases continuarem no patamar atual. A conclusão antecipada pelo climatologista no seminário "Cidades e Mudanças Climáticas", realizado na última segunda-feira, 30 de março, na sede da Finep, no Rio de Janeiro, foi direta: a cidade ficará inabitável. "E vamos comparar com o que pode ocorrer se houver um projeto de cidade verde", acrescentou.
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A palestra de abertura coube a Nobre — e o fez no mesmo dia em que o Papa Leão XIV o nomeou Conselheiro do Vaticano para o desenvolvimento humano. A coincidência de datas condensou, em poucas horas, dois registros distintos do mesmo reconhecimento: o da ciência que alcança a esfera moral. No auditório da Finep, porém, Nobre falou como cientista. Sua tese foi precisa: de todas as iniciativas disponíveis para tornar as cidades sustentáveis — eficiência energética, transporte de baixo carbono, reaproveitamento de resíduos, conservação da água —, a recuperação vegetal é a que comanda as demais. "Quando não há vegetação, são formadas ilhas de calor, com temperaturas entre 6 e 10°C mais altas. E, hoje, morrem no mundo mais de 500 mil pessoas em função do calor", afirmou.
O seminário, promovido pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) em parceria com a Secretaria de Políticas e Programas Estratégicos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (SEPPE/MCTI), a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), reuniu pesquisadores, gestores públicos e representantes do setor privado em torno de uma pergunta que o Brasil ainda não soube responder com a velocidade que a ciência exige: como tornar as cidades brasileiras resilientes diante de um clima que já não é o mesmo de quando elas foram planejadas? O presidente da Finep, Luiz Antônio Elias, nomeou com precisão o obstáculo que o evento pretendia enfrentar. "Sabemos que o problema não é a falta de conhecimento, e sim, muitas vezes, a distância entre quem sabe e quem decide. Este seminário busca reduzir essa distância", disse na abertura.
Nobre percorreu o argumento com a metodologia de quem tem consciência de que o tempo de convencer já passou e que o tempo de implementar está sendo desperdiçado. Comentou o projeto das cidades-esponja desenvolvido pelo arquiteto chinês Kongjian Yu — falecido no Brasil no ano passado, em acidente aéreo no Pantanal — como referência de uma arquitetura urbana que trabalha com a água e a vegetação em vez de lutar contra elas. Apresentou a meta de restauração de 12 milhões de hectares de florestas até 2030 e o fim do desmatamento e da degradação em todos os biomas como condições sem as quais o Brasil não consegue reduzir 60% das emissões per capita de gases de efeito estufa. A escala nacional e a escala municipal não são substitutos uma da outra. São, na leitura de Nobre, complementares e igualmente inadiáveis.
Na primeira mesa temática do seminário, Paulo Artaxo, professor titular do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da USP e um dos laureados com o Planet Earth Award 2026 da Alliance of World Scientists — reconhecimento por quatro décadas de investigação sobre as conexões entre a floresta amazônica e o sistema climático global —, trouxe o dado que reposiciona a hierarquia do risco climático nas cidades brasileiras. Nos últimos dez anos, o Brasil registrou 48 mil mortes adicionais atribuídas a efeitos do calor. O número supera, com folga, os óbitos provocados por deslizamentos e enchentes — as catástrofes que dominam o noticiário e as prioridades orçamentárias municipais. O calor mata mais, mata em silêncio e mata de forma desigual: os bairros sem árvores são, invariavelmente, os bairros mais pobres.
Artaxo situou o problema dentro de uma projeção que a física atmosférica torna difícil de contestar. Com as trajetórias de emissões atuais, países tropicais e continentais como o Brasil podem enfrentar um aumento de temperatura da ordem de 4°C a 4,5°C até o fim do século. O efeito das ilhas de calor urbanas acrescenta pelo menos 1°C a essa conta. Oitenta por cento da população mundial viverá em cidades em 2050. A vegetação urbana, nesse quadro, deixou de ser uma questão de qualidade de vida para se tornar uma questão de viabilidade fisiológica da cidade. Ela regula temperatura, ciclo hidrológico e qualidade do ar ao mesmo tempo — funções que nenhuma infraestrutura cinza replica com a mesma eficiência ou ao mesmo custo.

A segunda mesa do seminário abordou planejamento territorial e justiça climática, dimensão que os números tornam impossível de tratar como questão secundária: cerca de 40% do crescimento urbano no Brasil ocorre em assentamentos informais, onde as populações são sistematicamente mais expostas a enchentes, deslizamentos e ondas de calor. A cobertura vegetal, quando existe, concentra-se nos bairros de maior renda. A terceira mesa, coordenada pela SBPC, articulou soluções baseadas na natureza, economia circular e inovação tecnológica, com representantes do BNDES, da CNI, da Finep e de uma liderança comunitária de Belém — a cidade que, meses antes, recebeu o mundo para discutir o mesmo problema em escala diplomática, sem que os acordos alcançados tenham alterado, até agora, a cobertura vegetal de nenhum bairro de São Paulo.
O estudo que Carlos Nobre está finalizando sobre a inabitabilidade de São Paulo chegará publicado. Quando chegar, provavelmente provocará o mesmo ciclo que a ciência climática brasileira conhece bem: cobertura, repercussão, debate, e então a lenta dissolução da urgência nas prioridades do calendário político. O seminário da Finep existiu, em parte, para tentar interromper esse ciclo — para criar uma linha direta entre o dado científico e o gestor que assina o decreto de zoneamento, que aprova o plano diretor, que decide o que será plantado ou cimentado no quarteirão seguinte. A pergunta que ficou no ar, ao fim do dia, não era técnica. Era política: quantas cidades precisam se tornar inabitáveis antes que a recuperação vegetal entre de vez no orçamento municipal?
Fontes
Finep / SEPPE-MCTI / ABC / SBPC, Seminário Cidades e Mudanças Climáticas, 30 mar. 2026 Jornal da USP, Paulo Artaxo recebe Planet Earth Award 2026, 2026 Artaxo, P.; Hansson, H.C.; Machado, L.A.T.; Rizzo, L.V., Tropical forests are crucial in regulating the climate on Earth, PLOS Climate, 2022 IPCC, Sixth Assessment Report, 2022
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