Escrito por Daniel Medeiros | 27 de julho de 2026
"A Odisseia" novo filme dirigido pelo ganhador do Oscar, Christopher Nolan (‘Oppenheimer’) - Foto: Divulgação/Banner do filme
POR - DANIEL MEDEIROS*
Há uma cena inesquecível no filme Odisseia, do diretor e roteirista britânico Christopher Nolan: o olhar que Penélope dirige ao marido, Odisseu, depois de vinte anos de ausência. O resto é esquecível. Não que não se trate de um bom filme, ou que não valham as quase três horas diante da telona. Há ação, boas interpretações, momentos angustiantes — tudo de que precisamos para uma boa tarde ou noite de entretenimento. Por isso creio que o filme foi visto de forma diferente por quem leu e por quem não leu a Odisseia. Para estes últimos, deve ter sido espetacular. Não tive essa sorte. O tempo todo fiquei lamentando as escolhas do roteirista e diretor, suspirando pela falta de um diálogo aqui, de um personagem ali, pela mudança de uma personalidade acolá — enfim, por quão peculiar, digamos, é a leitura que Nolan fez da obra.
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Por outro lado, entendo o diretor. Afinal, que sucesso comercial ele poderia almejar se fizesse um filme apenas para os leitores de Homero? Quem lê os mais de doze mil versos da Odisseia nos dias de hoje? E lê cantando, escandindo os versos até quase perder o fôlego, seguindo a métrica nunica do tradutor Carlos Alberto Nunes, ou derrapando a língua nas contrações feitas por Odorico Mendes para caberem os versos gregos de até dezessete sílabas em decassílabos brancos? Quem se perde nas leituras reflexivas sobre a obra, desde o texto de abertura de Erich Auerbach em seu magnífico Mimesis até as explicações de Jeanne Marie Gagnebin sobre a trajetória civilizatória de Ulisses? No filme, Nolan tenta atualizar debates contemporâneos por meio dos personagens clássicos. Vemos uma Penélope feminista, que discute por que não poderia governar Ítaca, e um Ulisses que faz discurso antibelicista. Erra o cineasta ao seguir esse caminho? Ora, não. Frustra os leitores da obra, apenas. Mas quantos, dos milhares de espectadores que ajudarão a tornar o filme um sucesso de centenas de milhões de dólares, sentiram essa frustração íntima por não ouvir Polifemo gritar "Ninguém quer me matar!", ou por não ver Ulisses chorar diante da corte dos Feácios, ou conversar com Aquiles no Hades? Ora, quem se importa?
Recentemente, o filósofo Leandro Karnal, em uma inusitada "conversa" com a inteligência artificial Claude, perguntou se, com a padronização dos textos produzidos pela máquina, a IA não inviabilizaria o surgimento de novos autores como Tolstói ou Dostoiévski. A IA, então, perguntou se há, hoje, novos leitores para essas obras.
Pois bem. Possivelmente o único contato da maioria das pessoas com a épica magistral de Homero será por meio do filme. Que seja. Parabéns ao diretor pela iniciativa. Afinal, aquele olhar de amor, justificador de todos os retornos para a casa de Penélope, já faz tudo valer a pena.
*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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