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da água 2026

O paradoxo das margens: viver rodeado de água e sem acesso a ela

Escrito por Neo Mondo | 22 de março de 2026

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Paradoxo hídrico brasileiro: um país de abundância global que ainda não garante acesso regular à água potável para parcelas significativas de sua população urbana - Foto: ilustrativa/Divulgação

POR – KAMILA CAMILO, COLUNISTA DO NEO MONDO

Eu morava na Vila Mirante, na Avenida Raimundo Pereira de Magalhães, durante a crise hídrica de 2014–2015. A água simplesmente parava de sair da torneira no meio da tarde. Era uma ladeira. Quando o abastecimento voltava, chegava apenas às casas da parte mais baixa. Lá em cima, onde eu estava, restava ouvir a explicação recorrente: "A água não tem força para subir."

Aquela experiência deixou de ser apenas uma memória pessoal para se tornar um símbolo do que o estresse hídrico representa no Brasil: não é apenas sobre a falta de água — é sobre a desigualdade no acesso.

O estresse hídrico deixou de ser um alerta distante para se consolidar como realidade nos grandes centros urbanos do Sudeste. Pesquisadores da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) vêm alertando para um cenário paradoxal: convivemos simultaneamente com secas prolongadas, eventos extremos de chuva e com a crescente dificuldade de acesso à água potável de qualidade.

O paradoxo é ainda mais evidente em São Paulo. A cidade está localizada em uma região de cabeceiras e é atravessada por importantes bacias hidrográficas, como as dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, além de estar próxima aos sistemas produtores que abastecem a Região Metropolitana, como Cantareira, Guarapiranga e Alto Tietê. É uma metrópole construída sobre múltiplos fluxos de água, superficiais e subterrâneos, e, ainda assim, enfrenta crises recorrentes de abastecimento.

O Sudeste concentra cerca de 42% da população brasileira e responde por mais da metade do Produto Interno Bruto nacional. Essa densidade demográfica, somada à expansão urbana desordenada, à impermeabilização do solo e à pressão sobre os mananciais, torna cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte particularmente vulneráveis.

Em 2025, a situação voltou a se agravar com a redução da pressão da água pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Para Amauri Pollachi, coordenador do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (Ondas), a medida afeta de forma mais severa os moradores das periferias. Quem possui grandes caixas d'água praticamente não sente os efeitos. Já quem vive em áreas mais altas e depende da pressão da rede sofre imediatamente o desabastecimento — uma realidade que eu já havia experimentado anos antes.

Mas o estresse hídrico não é apenas uma questão de quantidade. É, sobretudo, uma questão de qualidade e de acesso. Em diversas regiões urbanas e periurbanas, comunidades vivem às margens de grandes rios e, ainda assim, não têm acesso regular à água potável. Durante enchentes, enfrentam um cenário dramático: estão cercadas por água contaminada, mas não podem consumi-la.

Esse é um dos rostos mais cruéis do estresse hídrico: não se trata apenas da escassez física de água, mas da incapacidade estrutural de garantir água segura para todos, especialmente para as populações em situação de maior vulnerabilidade.

Diante desse cenário, a agenda de adaptação precisa ganhar centralidade tanto nas políticas públicas quanto nas estratégias corporativas. Adaptar-se significa reconhecer que eventos extremos serão mais frequentes e que os sistemas precisam ser resilientes.

Algumas frentes são essenciais: proteção e recuperação de mananciais; criação de parques lineares; implantação de jardins de chuva e telhados verdes para ampliar a infiltração e reduzir as enchentes; além de investimentos robustos na coleta e no tratamento de esgoto para diminuir a contaminação dos rios.

As soluções baseadas na natureza são conhecidas, simples e eficazes. O que frequentemente falta é prioridade política e coordenação institucional.

O estresse hídrico expõe desigualdades históricas. Enquanto os bairros centrais contam com infraestrutura mais robusta e redes redundantes, as periferias dependem de sistemas precários. Em enchentes ou períodos de racionamento, são essas comunidades as primeiras a perder o pouco acesso que tinham.

O Brasil ainda possui abundância hídrica em termos globais. Mas abundância não é sinônimo de segurança. Sem governança integrada, planejamento urbano responsável e investimentos consistentes em saneamento e adaptação, o estresse hídrico pode se tornar um dos principais vetores de instabilidade social e econômica nas próximas décadas.

O desafio está posto: transformar crises recorrentes em oportunidade para reorganizar nossas cidades sob a lógica da resiliência, da equidade e do acesso universal à água de qualidade.

Este artigo faz parte do especial Semana Mundial da Água, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre os recursos hídricos do planeta e o papel do Brasil nessa equação global.

Kamila Camilo é uma empreendedora social negra brasileira LGBTIQ+ dedicada a conectar grandes organizações a movimentos de base para impulsionar ações climáticas de impacto. Como fundadora do Instituto Oyá e da iniciativa Creators Academy, ela lidera uma rede de 120 influenciadores que alcançam mais de 12 milhões de pessoas no Brasil. Atualmente, Kamila integra os conselhos dos Institutos Talanoa e Igarapé, promovendo políticas climáticas e estratégias de segurança pública, além de colaborar com a GainForest para impulsionar soluções climáticas baseadas em dados. Finalista da competição XPrize Rainforest com a equipe ETH BiodiX, Kamila continua a defender abordagens inovadoras para a sustentabilidade e a justiça climática.

foto de kamila camilo, autora do artigo O paradoxo das margens: viver rodeado de água e sem acesso a ela
Kamila Camilo - Foto: Divulgação

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