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À espera

Escrito por Neo Mondo | 20 de outubro de 2025

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Uma poderosa reflexão sobre o tempo, o amor e a finitude - Foto: Ilustrativa/Freepik

ARTIGO

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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo

Eu, que já tenho quase oitenta e oito anos… — diz mamãe sobre qualquer assunto que movimenta a pequena mesa de três banquetas na qual tomamos o café da manhã, cedíssimo, faça chuva ou faça sol.
Meu pai se insurge:
— Oitenta e oito não, Lola. Você tem oitenta e sete. Viva o presente! O que importa é o dia de hoje — diz, quase exasperado com a melancolia que se expressa na insistência de mamãe em parecer ainda mais velha.

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O fato é que nem o presente interessa mais a mamãe. Praticamente cega por causa de uma degeneração macular que evoluiu na última década, ela foi sendo obrigada a abandonar as coisas que mobilizavam o seu dia: a cozinha, a costura, as receitas anotadas com sua letra peculiar em cadernos escolares enquanto assistia a Ana Maria Braga; a leitura das revistas que eu levava para ela; o cuidado com as plantas e com as árvores frutíferas do pequeno quintal de sua casa; os bolos e doces para os netos — principalmente para o meu filho, que ela, não sem uma certa indelicadeza em relação às outras quatro netas que tem, diz ser o “seu preferido”.

Quanto ao futuro, para ela, são só dores e escuridão. Há algum tempo não a vejo mais sorrindo, mas circunspectamente presa à rotina que lhe resta: tomar remédios — vários, espalhados pelas diversas horas do dia —, o banho matutino, longo e cuidadoso, as refeições (sempre reclamando, porque nenhuma comida é como a dela, nem mesmo a minha, que faço de vez em quando, cheio de receio da sua avaliação mordaz), e as intermináveis reprises das novelas que ela ouve, o rosto grudado na televisão enorme, tentando distinguir um rosto ou uma paisagem no torvelinho de sombras em que sua visão se tornou.

Nesses momentos, ela fala do cansaço, do peso do corpo, da largura imensa dos dias — todos iguais. Provoco-a para sair, passear, viajar, comprar algo em algum lugar, visitar um parque ou qualquer outra coisa que ela deseje, mas não há ânimo para quase nada. Exceto a visita aos bisnetos, quando é convidada. Três dos cinco netos não moram mais aqui, incluindo o “preferido”. As duas que ficaram, com filhos, às vezes convidam para um aniversário e tal. Mas aparecem pouco. Os dias ficam assim, áridos da presença querida. As irmãs, mortas ou igualmente afetadas pela pouca mobilidade. Os outros parentes ligam de quando em vez — fidelidades sempre filtradas pelo crivo calvinista do meu pai, que cobra a todos e a tudo, sem perceber que, nessa época da vida, ou semeamos o perdão ou só colhemos a solidão.
Mas, como um cão obcecado por seu dono, meu pai vigia minha mãe como vaso frágil, sempre repetindo a ladainha de que vive para ela, de que faz tudo por ela, em um pânico antecipado de seu desaparecimento.

Visito-os regularmente e ouço as histórias repetidas de uma vida de poucas aventuras. Casados há mais de 60 anos — ele tinha 20 e ela, 23 —, passaram da pobreza para a vida remediada e, então, depois de décadas, ingressaram na classe média estabilizadora, com casa, carro e plano de saúde. Meu pai é um homem saudável: come de tudo, dirige, lê, caminha sem dores maiores. Mamãe declina. Daí o clima de constante tensão que habita a casa na qual, todos os dias, chova ou faça sol, às seis e trinta ele acorda para fazer o café, com os mesmos ingredientes — torrada, queijo, manteiga, café e leite para ele, chá para ela, uma fatia de mamão para os dois, a batelada de remédios para ela — e então aquele momento do dia termina.
Se há algo a fazer — lavar roupa, estender, ir ao banco pagar uma conta —, tudo é feito por ele no período da manhã. Depois, ele busca o almoço em um bufê local. Ele come com apetite; ela mal toca a comida, reclamando dos odores e temperos. Depois, ele tira uma soneca e ela vai para as novelas. E ficam assim até o fim da tarde, quando então vem o banho dele, o lanche — nunca jantam — e ela volta para as novelas, e ele, para alguma leitura ou um filme na tevê da salinha.
Ele tem ainda o entretenimento do celular, com os vídeos engraçados ou as conspirações políticas, que replica sem peias. Para mim, reclama que ela não acha graça de nada que ele mostra. Nos fins de semana, põe discos antigos na vitrola, no volume máximo. Não se importa com os vizinhos. Explica-se, com a sua lógica militar: “É música alegre, não tem como eles não gostarem.”

Nos melhores dias, consigo fazê-los falar das lembranças boas do passado. Aí ouço narrativas sempre repetidas das agruras dos primeiros anos. O nascimento dos filhos (meu irmão mais velho e eu), a melhoria da vida material — quando saíram da casa de madeira para a de alvenaria, quando trocaram a bicicleta pelo primeiro automóvel — ocupam lugar de destaque. Lembram de nomes de velhos amigos desaparecidos, de poucos desafetos, de detalhes dos lugares onde se encontraram e começaram a namorar, incluindo o tempo — se fazia sol ou chuva —, a cor da bota que ela usava, o casaco dele. Eu os ouço com cara de falsa surpresa, alegre por perceber ainda alguns brilhos intensos nos olhares baços de mamãe.

Despeço-me beijando-lhe a cabeça de cabelos claros e ralos, cheirosos como os de uma criança. Meu pai me acompanha até o carro e repete apreensões sobre o futuro dela. Sei que o medo óbvio é sobre o futuro dele: o que fará com as duas asas quebradas, pássaro engaiolado por esse amor de mais de sessenta anos?

Parto e prometo sempre voltar na semana seguinte. Nem sempre consigo cumprir a promessa e, então, na outra semana, vou com o coração culpado pelo dia perdido na companhia de uma vida inteira — agora com os dias, meses, anos (quem dera!) contados. E então sento-me na banqueta da cozinha e acompanho a rotina dos dois velhos amantes como quem assiste a um ritual sagrado.

*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Articulista do Portal Neo Mondo.

E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com

Instagram: @profdanielmedeiros

foto de daniel medeiros, autor do artigo À espera
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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