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Contra a escala 6X1: uma explicação filosófica

Escrito por Neo Mondo | 6 de outubro de 2025

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Escala 6x1: a sociedade do desempenho ameaça nossa capacidade de simplesmente viver. - Imagem gerada por IA - Foto de Friedrich Nietzsche: Ilustrativa/Divulgação

ARTIGO

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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo

Pena que Nietzsche tenha sido tão pouco claro e didático ao defender que o ser humano devia romper com a tradição moral que vinha desde Platão e que se espalhara pelo Ocidente com o pensamento cristão — uma moral de rejeição do corpo e de fixação de metas em um futuro que só ocorreria depois da morte. Pena que seus leitores acadêmicos e intelectuais também não tenham conseguido alcançar uma linguagem mais próxima do senso comum, aquela que o estudante e o trabalhador conseguem manejar, para dizer que esse caminho moral de origem platônica é baseado na ideia do sacrifício, da diminuição do potencial de criação do ser humano, da restrição da originalidade cotidiana, da condenação da busca por prazer e satisfação no dia a dia — e não na eternidade.

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O conceito de sacrifício como algo positivo, em particular, dificulta muitas das nossas questões contemporâneas, tanto individuais quanto sociais. Vejamos a discussão da escala 6x1, por exemplo. Quem, em sã consciência, pode imaginar um cidadão vivendo plenamente se precisa entregar ao trabalho as melhores horas e dias de sua vida, sobrando um único dia para dormir à solta e repor as energias — e então retomar, como o Sísifo da mitologia, seu trabalho de repetição infinita — até que as forças se esgotem e o cidadão seja então ejetado para o limbo dos incapazes? E nesse meio tempo, qual projeto de vida realizou? O que construiu para si e sobre si, buscando tornar-se aquilo que é — um horizonte amplo de possibilidades, alegrias e contribuições?

O capitalismo foi o grande beneficiário da lógica de sacrifício do cristianismo — da recusa do corpo agora, para a salvação da alma acolá. Não há nada de novo no que digo, mas nunca é demais retomarmos essa relação e pensarmos como, particularmente nas últimas décadas, a religião dos resultados — que associa o sucesso ao bom entendimento com o Senhor — ganha corações e mentes por todos os lugares. E quem reclama de seu fardo insuportável é porque não compreendeu corretamente os ditames “superiores”: sacrifício agora, glória amanhã.

Um amanhã que se perde nas brumas do horizonte da promessa — que somos convencidos de que está lá, mas onde apenas os eleitos terão um lugar nesse espaço mágico. Os eleitos são os que se sacrificam hoje, deixando o corpo de lado — seus desejos, vontades, sonhos delirantes e planos “inúteis”, como a vontade de fazer do mundo uma ciranda sem começo nem fim, sem hora para terminar. Não, nada disso é possível para o homem e para a mulher que buscam a salvação. O preço — já dizia Platão — para sair da caverna e enxergar a luz da Verdade é livrar-se das amarras do corpo e assumir o sacrifício da caminhada. Mas o resultado final, a visão do mundo da verdade, vale a pena o sacrifício de uma vida “falsa”? Vale a pena? Vida falsa?

Diferente de Platão, o filósofo de Nietzsche não traz nenhuma boa-nova, não quer multidões atrás de si, não tem o que ensinar — apenas vive como tem de viver, como as crianças, que dizem “sim” a tudo e experimentam tudo, sem preocupação com o que vai durar ou desaparecer.

Em Assim Falou Zaratustra, podemos ler:
“Mas dizei-me, irmãos, que pode fazer a criança que nem mesmo o leão pôde fazer? Por que o leão rapinante tem de se tornar uma criança? Inocência é a criança e esquecimento, um novo começar, um jogo, uma roda que gira por si mesma, um primeiro movimento, um sagrado dizer-sim.”

Então, em vez da memória da culpa, do pecado e do ressentimento, Nietzsche propõe uma moral sem que se precise carregar o peso do passado nem o julgamento do futuro. Para ele, o que enriquece nossa existência é a possibilidade de criação de novos valores — sempre alegres e lúdicos, e não sérios e sombrios. O “sagrado dizer sim” é a manifestação mais ampla do amor ao destino: a aceitação e o amor incondicional por tudo o que a vida traz; a afirmação prazerosa de todos os instantes, sem sofrer com o desejo de que nada seja diferente.

O que Nietzsche quis dizer — e que ficou tão distante do leitor comum — é que a alegria de viver não depende de uma recompensa futura, de um paraíso; e que não devemos nos envergonhar da nossa existência terrena, de tal maneira que, se tudo se repetisse em um eterno retorno, sentiríamos alegria — e não desespero — em repetir nossa vida.

Por isso precisamos de tempo para viver e transformar nossas vidas em obras de arte. É hora de superarmos a ideia de que vida e trabalho são a mesma coisa — ou de que o trabalho é mais importante do que a vida. Lembrem-se de que quem trabalhou seis dias e descansou um criou um mundo inteiro nesse tempo. Sacrificou-se para que não precisássemos nos sacrificar. Não precisamos imitar D’us; podemos ser apenas seus filhos queridos — e curtir a vida e o mundo que Ele nos proporcionou.

A essa ilação religiosa, até Nietzsche diria sim — sorrindo ironicamente.

*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Articulista do Portal Neo Mondo.

E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com

Instagram: @profdanielmedeiros

foto de daniel medeiros, autor do artigo Contra a escala 6X1: uma explicação filosófica
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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