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A herança tóxica da sociedade descartável

Escrito por Neo Mondo | 6 de agosto de 2026

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Herança invisível: os microplásticos já ultrapassaram rios e oceanos. Agora, a ciência investiga o que significa encontrá-los dentro do próprio corpo humano - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

ARTIGO

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Por - Taiane Camargo e Alberto Evangelista, especial para Neo Mondo

Durante décadas, a imagem mais conhecida da poluição plástica foi a de tartarugas presas em redes abandonadas ou aves marinhas alimentando seus filhotes com tampas de garrafa. Essas cenas continuam chocantes, mas talvez não sejam mais as mais preocupantes. O problema mudou de escala. E mudou de endereço.

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Hoje, a grande questão não é apenas o plástico que vemos. É o plástico que não vemos. Os microplásticos, partículas menores que 5 milímetros resultantes da degradação de embalagens, roupas sintéticas, pneus, tintas e inúmeros produtos do cotidiano, já ultrapassaram as fronteiras dos oceanos, dos rios e dos solos. Eles chegaram ao interior do corpo humano.

A descoberta mais inquietante dos últimos anos não ocorreu em uma praia poluída nem em uma área industrial. Aconteceu dentro de laboratórios que analisavam tecidos humanos. Em 2024, pesquisadores da Universidade do Novo México encontraram microplásticos em todas as 62 placentas humanas analisadas. O dado preocupa porque a placenta é um órgão temporário, formado durante a gestação, o que sugere exposição contínua e crescente da população.

foto de Taiane Camargo , autora do artigo A herança tóxica da sociedade descartável
Taiane Camargo - Foto: Divulgação

No mesmo período, estudos detectaram microplásticos em sangue humano, pulmões, fígado, rins e cordões umbilicais. Mais recentemente, pesquisadores identificaram concentrações ainda maiores no cérebro, em níveis superiores aos encontrados em outros órgãos. Os estudos também apontam aumento significativo dessas concentrações entre 2016 e 2024.

Por muito tempo, acreditou-se que o plástico era um problema ambiental. Hoje ele se apresenta também como questão de saúde pública.

Os microplásticos não surgem espontaneamente. São o estágio final de um modelo de consumo baseado no descarte. Uma garrafa plástica abandonada em um terreno baldio não desaparece. Ela se fragmenta. Uma sacola carregada pelo vento não deixa de existir. Ela se transforma em milhares de partículas microscópicas. Um pneu desgastado pelo atrito com o asfalto libera partículas que a chuva, o ar e os sistemas de drenagem urbana transportam.

Esses fragmentos chegam aos rios, lagos e oceanos. Ali, organismos aquáticos os ingerem, e eles entram na cadeia alimentar. No litoral do Paraná, uma pesquisa conduzida pela oceanógrafa Fernanda Possatto identificou microplásticos em 93,6% dos peixes analisados em feiras e mercados da região. Dos 47 indivíduos examinados, 44 apresentavam partículas no trato digestório.

O dado não significa que o consumo desses peixes represente risco imediato à saúde humana, ressalva a própria pesquisadora. Mas evidencia um fenômeno mais amplo: o plástico já circula pelos mesmos sistemas ecológicos que sustentam nossa alimentação.

E não apenas nos pescados. Microplásticos já foram identificados em sal de cozinha, açúcar, água potável, cerveja, frutas, vegetais e alimentos ultraprocessados. Evitar completamente a exposição tornou-se praticamente impossível.

Uma das maiores dificuldades desse debate é que a ciência ainda constrói respostas. Não existe, até o momento, consenso sobre quais concentrações representam risco direto à saúde humana, nem sobre os efeitos acumulativos ao longo de décadas de exposição.

A ausência de respostas definitivas não significa ausência de riscos. Diversos estudos experimentais sugerem que microplásticos e nanoplásticos podem desencadear processos inflamatórios, estresse oxidativo, alterações metabólicas e danos celulares. Cresce também a preocupação com compostos químicos associados aos plásticos, como ftalatos e bisfenóis, conhecidos por interferir no funcionamento hormonal do organismo.

Há um agravante frequentemente ignorado: os microplásticos funcionam como uma espécie de "ônibus molecular". Durante sua trajetória no ambiente, podem adsorver metais pesados, pesticidas, compostos tóxicos e microrganismos patogênicos. Quando ingeridos por organismos vivos, transportam consigo esses contaminantes. O problema não é apenas a partícula plástica, mas a carga invisível que ela carrega.

Nunca houve tanta preocupação com alimentação saudável, atividade física e qualidade de vida. E nunca produzimos tanto plástico. Segundo estimativas internacionais, a produção mundial supera hoje 400 milhões de toneladas por ano e continua crescendo. Grande parte desse volume vira embalagem de uso único, que permanece no ambiente por décadas ou séculos.

É como se cuidássemos do corpo enquanto ampliamos a contaminação do ambiente de que dependemos para viver. A natureza não processa rapidamente essa avalanche de polímeros sintéticos. O resultado é previsível: eles se acumulam. Primeiro nos rios, depois nos oceanos e, por fim, nos alimentos. E agora, em nós.

Existem soluções. Tecnologias de tratamento de água, sistemas de filtração mais eficientes, melhorias na reciclagem, biopolímeros e embalagens biodegradáveis representam avanços. Mas nenhuma inovação tecnológica bastará se a cultura do descarte permanecer inalterada.

Reduzir o consumo de plásticos de uso único continua sendo a medida mais eficaz. Optar por recipientes reutilizáveis, evitar aquecer alimentos em embalagens plásticas, ampliar a coleta seletiva e exigir políticas públicas mais rigorosas são ações que parecem pequenas isoladamente, mas ganham peso quando adotadas em escala social.

foto de Alberto Evangelista, autor do artigo A herança tóxica da sociedade descartável
Alberto Evangelista - Foto: Divulgação

A história da saúde pública mostra que as grandes transformações costumam ocorrer antes da certeza absoluta. Foi assim com o tabagismo, com o amianto, com o chumbo na gasolina. Primeiro surgem os sinais. Depois, as evidências acumuladas. Por fim, a sociedade reconhece que ignorou, por tempo demais, algo que estava diante de seus olhos.

No caso dos microplásticos, talvez estejamos exatamente nesse momento. A pergunta já não é se eles chegaram ao ambiente, mas quanto tempo levaremos para reagir ao fato de que chegaram ao nosso próprio organismo.

*Taiane Mota Camargo - Doutora em Ciência e Tecnologia de Alimentos e pesquisadora do Biopark.

*Alberto Gonçalves Evangelista - Doutor em Ciência Animal e pesquisador do Biopark.

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