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O mico-leão-dourado escapou da extinção e esbarrou na falta de floresta

Escrito por Neo Mondo | 1 de agosto de 2026

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Mico-leão-dourado com filhote agarrado às costas, no interior do Rio de Janeiro, onde a espécie saiu de 200 para 4.800 indivíduos em meio século - Foto: Divulgação/AMLD

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Duzentos. Esse era o número de micos-leões-dourados vivos na natureza no início dos anos 1970, quando a espécie se aproximou tanto da extinção que coube a um único primatólogo, Adelmar Coimbra Filho, montar as bases de um resgate que ninguém garantia dar certo. Meio século depois, o último censo da Associação Mico-Leão-Dourado contou 4.800 animais na bacia do rio São João, no interior do Rio de Janeiro. É a diferença entre uma nota de rodapé na história da fauna brasileira e um dos casos de recuperação de primata mais citados do mundo.

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Neste 2 de agosto, Dia do Mico-Leão-Dourado, a ExxonMobil Brasil renova o apoio à AMLD com R$ 1,1 milhão, repassados por meio do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade. O dinheiro vai para a manutenção do Parque Ecológico Mico-Leão-Dourado, em Silva Jardim, e das mudas nativas plantadas em fases anteriores do projeto. Desde 2019, foram mais de 45 mil mudas em 35 hectares de Mata Atlântica reflorestada, área equivalente a 35 campos de futebol. O aporte total da empresa à associação chega a R$ 7 milhões no período.

O número que importa, porém, não está nos hectares plantados. Está no salto populacional. Entre 2019 e 2023, a estimativa de micos na natureza passou de 2,5 mil para 4,8 mil. O crescimento carrega um peso maior do que a aritmética sugere. Em 2017, um surto de febre amarela varreu a bacia do rio São João e derrubou a população em cerca de um terço. O censo divulgado em 2023 foi o primeiro, desde então, a registrar recuperação. A resposta da AMLD combinou vacinação, monitoramento contínuo e reflorestamento das matas onde o animal vive.

“Estamos muito felizes em chegar a 7 anos de projeto com resultados tão positivos, como o aumento do número de micos na natureza”, afirmou Alberto Ferrin, presidente da ExxonMobil Brasil. “Este sempre foi o nosso objetivo, ao apoiar iniciativas que colaboram com o meio ambiente e as comunidades ao redor dos locais onde atuamos.”

O 4.800 esconde uma armadilha. Livrar o mico-leão-dourado do risco de extinção não depende só de contar cabeças. A meta da AMLD é ter 2 mil animais vivendo em uma floresta protegida e conectada de 25 mil hectares. Esse patamar de indivíduos já foi ultrapassado. O de floresta, não. O maior bloco contínuo de mata na região tem 15.696 hectares, e nem esse está inteiramente protegido. O mico é vítima de um problema que não se resolve plantando árvores em pontos isolados: a fragmentação.

A Mata Atlântica que resta ao Brasil é uma coleção de retalhos. Sobram cerca de 24% da cobertura florestal original, segundo o MapBiomas, abaixo dos 30% que a ciência considera o piso para manter o bioma funcionando. O que restou está partido em manchas pequenas, cercadas por estradas, pastagens e cidades, quase 80% delas em propriedades privadas. Fragmentos pequenos perdem espécies. Sofrem com o efeito de borda, a variação brusca de luz, temperatura e umidade nas margens de cada mancha. E deixam de oferecer, em escala, os serviços que uma floresta inteira presta.

Para um animal que precisa de 50 hectares por grupo para buscar alimento e se reproduzir, floresta picada é sentença. Daí a lógica do reflorestamento da AMLD não ser paisagística. Cada trecho de mata replantado tenta costurar dois pedaços que a ocupação humana separou, abrindo passagem para que os micos circulem, cruzem entre grupos e mantenham a diversidade genética que sustenta a espécie no longo prazo. O corredor florestal é a engenharia por trás do número bonito.

O Parque Ecológico Mico-Leão-Dourado virou a face pública desse trabalho. Em Silva Jardim, recebeu neste ciclo a certificação Wildlife Heritage Areas, selo global que atesta que os animais vivem livres e em segurança e que a observação de fauna pelos visitantes obedece a protocolo rígido de proteção da espécie. Em 2024, a AMLD já havia transformado o parque em Reserva Particular do Patrimônio Natural. Só em 2025, mais de 3 mil pessoas passaram por lá. Ao longo dos anos, o apoio da ExxonMobil bancou a exposição “Casa do Mico”, dois decks, uma torre de observação e o Centro de Referência em Restauração Ecológica, dedicado à pesquisa e ao engajamento sobre a recuperação do bioma.

A nova fase acrescenta duas frentes de participação da comunidade. O evento “Mico com Arte” e a rede de ciência cidadã “Miconsciência”, em que moradores da região ajudam a coletar dados de avistamento dos animais. É o reconhecimento tácito de que nenhum programa de conservação sobrevive isolado da população que divide o território com a espécie que ele tenta salvar.

O sauí-piranga, o mico vermelho dos indígenas, apareceu pela primeira vez num registro escrito em 1519, no diário de bordo de Antônio Pigafetta, cronista da expedição de Fernão de Magalhães. Cinco séculos depois, o bicho de 20 centímetros que quase desapareceu da Mata Atlântica ainda depende de floresta conectada para continuar existindo. Os 4.800 provam que dá para trazer uma espécie de volta. Os 15.696 hectares fragmentados lembram por que o trabalho está longe do fim.

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