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Escrito por Neo Mondo | 14 de julho de 2026
Lama com rejeitos de minério, decorrente do rompimento da barragem do Fundão, chega à foz do Rio Doce, em dezembro de 2015. Foto: Arnau Aregio, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO NEO MONDO
Há dez anos, cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração desceram o curso do Rio Doce depois do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. A lama passou. A água voltou a correr clara em boa parte do trajeto. Mas sob a superfície, a comunidade de peixes que habita a calha principal do rio mudou de composição de um jeito que nenhuma limpeza reverte com facilidade. Em alguns trechos, metade dos peixes encontrados hoje não pertence originalmente à bacia.
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O dado vem de uma pesquisa da Universidade Federal de Lavras (UFLA), coordenada pelo professor Paulo Pompeu, do Instituto de Ciências Naturais. A equipe usou isótopos estáveis — uma técnica que permite reconstituir, a partir de tecidos do próprio animal, quais fontes alimentares cada espécie de peixe efetivamente consome — para mapear a dieta de cerca de 65 espécies em dez pontos ao longo da calha do rio. O resultado desenha um gradiente nítido: quanto mais perto da área atingida pela lama de rejeitos, menor a diversidade de recursos alimentares disponíveis aos peixes.
Essa redução na base alimentar tem um efeito em cascata sobre quem consegue sobreviver ali. Espécies especialistas — aquelas que dependem de um leque estreito de presas ou de condições muito específicas do ambiente — perdem espaço. Espécies generalistas, com maior plasticidade de dieta e comportamento, ocupam o vazio deixado por elas. É esse mecanismo, mais do que a simples contagem de mortandade, que explica por que peixes invasores como tucunaré, tilápia, piranha e uma pequena espécie de lambari têm avançado sobre a calha principal — eles competem por recursos já escassos e predam as espécies nativas remanescentes. Hoje, espécies não nativas já respondem por cerca de 25% da fauna de peixes de toda a bacia.
Medir essa mudança exigiu contornar um problema metodológico que precede o próprio desastre: a bacia do Rio Doce nunca foi extensamente estudada, o que impede qualquer comparação direta entre o "antes" e o "depois" do rompimento. Pompeu é direto sobre essa lacuna. Segundo ele, a calha do rio já chegava degradada em 2015, com histórico de lançamento de esgoto doméstico, mineração e desmatamento na bacia — a fauna de peixes já estava alterada antes da chegada da lama.
Para contornar a ausência de uma linha de base histórica, os pesquisadores recorreram a um espelho vivo: compararam a calha principal, atingida pelo rompimento, com rios afluentes que ficaram fora da rota dos rejeitos. A diferença confirma o que o gradiente isotópico já sugeria — os afluentes preservados mantêm comunidades de peixes mais próximas do que seria a condição original da bacia, e essa comparação é o que permite atribuir a simplificação observada na calha principal, com razoável segurança, ao desastre.
É também nesses afluentes que reside a explicação para um dado que poderia soar contraditório: mesmo dez anos depois de um dos maiores desastres ambientais da história do país, o Rio Doce mostra sinais de recuperação em trechos mais distantes da área do rompimento. Rios como o Santo Antônio, o Manhuaçu e o Piranga não foram atingidos pela lama e preservam parte significativa da fauna original — o Santo Antônio sozinho mantém 80% das espécies de peixes da bacia. À medida que a qualidade da água melhora na calha principal, peixes nativos desses afluentes voltam a ocupá-la.
Essa recolonização, porém, tem um teto definido pelo que for feito — ou não — rio acima. Pompeu condiciona a velocidade da recuperação à execução efetiva das obras planejadas: tratamento de esgoto das cidades ribeirinhas, retirada dos rejeitos remanescentes, reflorestamento das margens. Sem isso, a fauna pode levar décadas para se reorganizar. Com isso, as chances de uma recuperação mais rápida aumentam — mas persiste um obstáculo para o qual não existe, hoje, solução conhecida: o controle das espécies invasoras já estabelecidas. Segundo o pesquisador, não há registro internacional de erradicação bem-sucedida de uma espécie invasora de peixe em ambiente fluvial aberto — elas se reproduzem rápido e são difíceis de localizar e remover. O que resta é conter o avanço, não revertê-lo.
O paradoxo que a pesquisa da UFLA documenta é este: o mesmo rio que perdeu parte de sua identidade biológica na calha principal preserva, em suas margens menos visíveis, o material genético e ecológico de sua própria reconstrução. A bacia não sucumbiu porque o desastre não a atingiu por inteiro. O que aconteceu ao Rio Doce entre 2015 e 2026 não foi apenas um envenenamento pontual — foi a reescrita, ainda em curso, de quem tem direito a viver ali.
As conclusões integram o livro Recuperação Ambiental da Bacia do Rio Doce: Contribuições da Ciência Após Dez Anos do Rompimento da Barragem de Fundão, com lançamento previsto para setembro.
*Com informações da Universidade Federal de Lavras (UFLA).
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