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Escrito por Lígia Camargo | 14 de julho de 2026
Ativismo também se constrói pela estética: antes de mudar estruturas, é preciso transformar a forma como enxergamos o mundo - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - LÍGIA CAMARGO*
O ativismo costuma ser associado a protestos, manifestos, campanhas e disputas políticas explícitas. No entanto, existe uma forma de ação que opera em um território mais sutil e, ao mesmo tempo, profundamente influente: o ativismo estético. Trata-se da utilização consciente da imagem, da arte, do design, da moda, da arquitetura, da linguagem visual e das experiências sensoriais para questionar valores estabelecidos e propor novas formas de enxergar o mundo — e, cada vez mais, para transformar a própria "aesthetic" em manifesto.
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A estética é um campo de disputa, pois nunca é neutra. Os objetos que consumimos, as roupas que vestimos, os espaços que habitamos e as imagens que compartilhamos carregam visões de mundo. Cada escolha visual comunica uma ideia sobre identidade, pertencimento, poder e desejo.
O filósofo francês Jacques Rancière ajuda a explicar por que isso importa tanto. Para ele, todo regime político se sustenta sobre uma "partilha do sensível" — um sistema que define o que pode ser visto, dito e percebido, e por quem, enquanto o restante permanece invisível. Mudar essa partilha, portanto, não é um gesto decorativo: é redistribuir quem tem direito à visibilidade e à voz. O ativismo estético parte exatamente dessa compreensão: mudar a forma como as pessoas percebem a realidade pode ser um passo decisivo para mudar a própria realidade.
Em uma sociedade saturada por imagens, os símbolos vêm antes das leis. Já nos anos 1960, Guy Debord descrevia esse fenômeno como a "sociedade do espetáculo", na qual a vida social é cada vez mais mediada por representações. Nesse contexto, a disputa por atenção tornou-se também uma disputa por significado.
O ativista estético, assim, não atua apenas por meio de discursos racionais, mas por meio da criação de símbolos, narrativas e experiências capazes de provocar reflexão. Ele entende que muitas transformações culturais começam antes das leis, dos partidos ou das instituições — começam no imaginário coletivo. É esse mesmo território que Walter Benjamin explorava ao discutir a "estetização da política": quando a forma de apresentar uma ideia se torna tão decisiva quanto a ideia em si.
O ativismo estético não busca apenas denunciar problemas; sua função também é apresentar alternativas. Em vez de limitar-se à crítica, ele constrói referências visuais que apontam para futuros possíveis. Um projeto artístico, uma intervenção urbana ou uma identidade visual podem funcionar como protótipos culturais de uma sociedade diferente — o que Herbert Marcuse, em A Dimensão Estética, já defendia ao afirmar que a arte carrega uma capacidade própria de antecipar formas de liberdade ainda não realizadas na vida social.
Marcas têm demonstrado, na prática, esse poder de antecipação simbólica. A Dove, com a campanha "Retratos da Real Beleza", usou a linguagem visual da publicidade para questionar padrões de beleza impostos havia décadas. A Patagonia transformou sua comunicação em manifesto ambiental, ao ponto de estampar em suas próprias peças o convite para que o consumidor não as comprasse sem necessidade real. E a própria Heineken, ao construir sua identidade em torno da sustentabilidade — metas de neutralidade de carbono, reflorestamento, economia circular —, usa design, linguagem e experiência de marca para tornar tangível um futuro ainda em construção. Em todos esses casos, a estética não ilustra uma posição: ela a materializa.
Essa abordagem reconhece que as pessoas raramente mudam apenas porque recebem informações. Elas mudam quando encontram novas formas de sentir, perceber e interpretar o mundo. Por isso, a estética possui um papel estratégico: cria pontes entre a razão e a emoção, entre a análise e a experiência.
No século XXI, marcado pela velocidade das redes digitais, o ativismo estético tornou-se ainda mais relevante. Uma imagem pode atravessar fronteiras em segundos. Um símbolo pode mobilizar milhares de pessoas. Uma linguagem visual coerente pode transformar uma ideia marginal em um movimento cultural.
Mais do que uma busca pela beleza, o ativismo estético representa uma busca por significado. Ele entende que transformar a aparência das coisas pode ser uma maneira de transformar sua essência social. Nesse sentido, criar, projetar e comunicar tornam-se atos políticos. A estética deixa de ser apenas decoração e passa a ser instrumento de consciência, identidade e mudança.
O ativismo estético não substitui outras formas de ação social — ele as complementa. Sua força está em revelar que toda transformação duradoura depende também de uma transformação simbólica. Antes que uma sociedade mude suas estruturas, ela precisa imaginar novas possibilidades. E é justamente nesse espaço entre imaginação e realidade que o ativismo estético encontra sua maior potência.
*Ligia Camargo - Apaixonada por sustentabilidade e acredita no poder das empresas como agentes de transformação. Como Diretora de Sustentabilidade do Grupo HEINEKEN, atua para unir propósito, impacto positivo e engajamento das pessoas em torno de um futuro mais consciente.

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