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Escrito por Neo Mondo | 7 de outubro de 2026
Antes de voltarem ao mar, as raias ganharam nomes escolhidos pelas crianças, em uma experiência que aproximou 15 estudantes da ciência e da conservação da vida marinha - Foto: Divulgação
POR - REDAÇÃO NEO MONDO
Estudantes da rede pública de Matinhos acompanharam a reabilitação e participaram da soltura de raias-viola-de-focinho-curto no litoral paranaense, aproximando ciência, educação e conservação do oceano
“Essa é a Zezinha!”
“Vai ser Zazau o nome dela!”
“Essa é a Cleide!”
“A minha é a Vitória!”
Os nomes escolhidos pelas crianças deram identidade às 28 raias-viola-de-focinho-curto que estavam prestes a voltar ao mar. 15 estudantes, de 8 a 11 anos, da rede pública de ensino de Matinhos (PR), deixaram a sala de aula por um dia para conhecer de perto o trabalho de pesquisa e reabilitação desenvolvido pela Associação MarBrasil, em Pontal do Paraná, e participar da devolução dos animais ao ambiente natural.
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Mais do que acompanhar uma soltura, os estudantes conheceram uma etapa de um trabalho que envolve pesquisa, monitoramento da saúde dos animais, parceria com pescadores e conservação da biodiversidade marinha.
Durante a visita, eles conheceram a estrutura e o trabalho do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), iniciativa da Associação MarBrasil, patrocinada pelo Programa Petrobras Socioambiental. O projeto atua na pesquisa e conservação de espécies-chave do litoral, entre elas a raia-viola-de-focinho-curto, também conhecida como raia-gardino e raia-tuiuiu.
Há cerca de 16 anos, o programa mantém uma parceria com pescadores locais. Quando raias são capturadas incidentalmente nas redes de pesca, os animais são entregues à equipe de pesquisadores. Na sede da ONG, passam por avaliação e permanecem em tanques de reabilitação até apresentarem condições adequadas para retornar ao mar.
O resultado desse trabalho aparece também nos números. Desde o início da parceria com os pescadores, 6.093 raias já foram salvas. A taxa de sobrevivência dos animais devolvidos ao mar chega a 96%, segundo a pesquisadora do Rebimar Eloísa Giareta.
O que acontece antes da soltura
Antes de voltar ao ambiente natural, cada animal passa por um acompanhamento detalhado. As condições da água são monitoradas diariamente, com controle de parâmetros como salinidade, temperatura e oxigênio.
Quando chegam da pesca, as raias também passam por avaliação clínica. A equipe coleta amostras de sangue para analisar as condições de saúde dos animais e os efeitos do estresse provocado pela captura, pelo transporte e pela exposição ao ar.
Depois de aproximadamente 24 horas de monitoramento, uma nova coleta é realizada. Os resultados são comparados para verificar a recuperação dos animais.
“Os exames indicam o nível de estresse gerado pela pesca, transporte e exposição ao ar. Depois desse processo de monitoramento, fazemos nova coleta e comparamos parâmetros de triglicérides, colesterol e lactato. Este último é o parâmetro que nos indica o nível de estresse. Logo após a pesca, esse parâmetro normalmente está muito elevado e, depois desse período de 24 horas, está quase zerado”, explica Eloísa.
Segundo a pesquisadora, a redução do lactato é um dos indicativos de que as raias estão recuperadas e prontas para retornar ao mar. Nos tanques elas já ficam muito mais ativas e parecem estar ansiosas para ganhar novamente a liberdade.
Da sala de aula para o litoral
A aproximação dos estudantes com o projeto começou antes da visita. A iniciativa partiu da professora Maria Pastorini, que conheceu o trabalho de pesquisa durante o Curso de Formação de Professores Rebimar: Mata Atlântica e Oceano.
A partir do conteúdo apresentado na formação, ela levou o tema para a sala de aula e passou a trabalhar com os alunos questões relacionadas à fauna marinha. “Durante o curso, recebi materiais e informações sobre as raias e tubarões e decidi levar para a escola para trabalhar esse tema com os alunos”, conta a educadora.
O interesse aumentou à medida que as crianças passaram a conhecer as espécies e os riscos enfrentados pela fauna marinha. “Foi muito interessante porque, quando as crianças começaram a ler, desenhar e descobrir que algumas espécies estavam com risco enorme de extinção, foi mais desafiador e eles pediram mais atividades. Quando comentei da possibilidade da soltura de raias, ficaram muito empolgadas.”
Para Maria, o contato direto com os animais tornou o aprendizado ainda mais significativo. “Eles estão eufóricos, é algo que nunca mais vão esquecer. A grande maioria nunca fez algo parecido na vida e acredito que foi um momento muito divertido também”, diz a professora.
Para cada criança, uma raia
Antes da soltura, os estudantes receberam orientações da equipe de pesquisadores sobre o manuseio dos animais e puderam tirar dúvidas. Entre as raias que aguardavam o retorno ao mar, havia muitas fêmeas grávidas, o que significa que a devolução desses animais ao ambiente natural representa também a possibilidade de contribuir para a continuidade da espécie.
A devolução foi feita na praia em frente à Associação MarBrasil, com acompanhamento individual da equipe. Cada criança pôde batizar a raia que ajudaria a devolver ao mar, assumindo simbolicamente o papel de madrinha ou padrinho daquele animal.
E os nomes escolhidos foram criativos:
— “Essa é a Zezinha!”
— “Vai ser Zazau o nome dela!”
— “Essa é a Cleide!”
— “A minha é a Vitória!”
— “Tchau, Luiz!”, despediu-se um dos estudantes.
A raia-viola-de-focinho-curto não possui ferrão, o que permite o manuseio seguro. Quando os animais começaram a desaparecer na água, vieram os gritos, as palmas e a comemoração das crianças. O encerramento da atividade foi no jardim da ONG, com um piquenique.
Para a pesquisadora Renata Daldin Leite, a aproximação com os animais pode ajudar a transformar conhecimento em vínculo profundo com o ambiente.
“Essas crianças terem esse momento, poderem tocar os animais, dar nome a eles, acaba despertando esse senso de pertencimento. É uma experiência que tem um resultado muito positivo e, para nós, é muito satisfatório ter essa ação que une a educação ambiental, a soltura e um momento único para as crianças. É muito gratificante”, diz Renata.
Uma aula que continua depois da praia
Antes de voltar para casa, os estudantes receberam brindes e materiais educativos do Rebimar e de outros projetos executados pela Associação MarBrasil como o projeto One (Blue) Health. Livros, apostilas, adesivos e um ecocopo passaram a fazer parte da experiência que começou na escola e terminou à beira-mar.
Para as crianças, a atividade também deixou uma mensagem sobre a responsabilidade individual na conservação dos oceanos.
“É muito legal. Estou tão feliz! É o melhor dia da minha vida. Eu adorei soltar a minha raia e todos precisamos cuidar delas, não jogando lixo no mar”, disse Alice Maria.
A atividade contou ainda com a participação da Miss Eco Paraná, Lucimara Maciel, que também realizou a soltura de duas raias e conversou com os estudantes sobre a importância da proteção da fauna marinha.

“Eu vim de Curitiba hoje para realizar esse trabalho voluntário e acompanhar de perto a educação ambiental voltada aos oceanos. Lembrando que as nossas ações de hoje mudam e influenciam o futuro que nós queremos amanhã”, afirma a Miss, que batizou as raias de Lola e Apollo.
Para Marjorie Ramos, técnica em Educação Ambiental do Rebimar, experiências fora da sala de aula ajudam a ampliar o contato dos estudantes com os temas trabalhados pela educação ambiental.
“Esse tipo de atividade é marcante na memória da criança, que fixa essa experiência fora da sala de aula. É um dos tipos de atuação que temos, como a exposição itinerante, atividades extracurriculares e essa experiência prática. Tanto para os adultos quanto para as crianças, é algo único.”
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