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Invasão alienígena no litoral do Paraná?

Escrito por Neo Mondo | 12 de agosto de 2026

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Invasão silenciosa avança pelo litoral paranaense, onde o siri-capeta, espécie exótica, já disputa espaço e alimento com a fauna nativa - Foto: Gabriel Marchi

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

Documentário revela espécies que atravessaram oceanos, chegaram ao nosso litoral e agora disputam espaço com a vida nativa

Trailer do documentário "Invasão Silenciosa" - Imagem: Divulgação

E se os alienígenas já tivessem chegado ao litoral do Paraná? Não vieram do espaço. Não atravessaram galáxias. Vieram pelo mar!

São espécies que cruzaram oceanos, sobreviveram a semanas de viagem em navios e encontraram, do outro lado do mundo, condições favoráveis para viver, se reproduzir e se espalhar. O nome alien species, usado na literatura científica, ajuda a explicar a brincadeira do título: são organismos que não pertencem originalmente àquele ambiente.

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“O nome ‘alienígena’ é para lembrar que a espécie é de outro lugar”, explica o pesquisador Pablo Guilherme, do projeto Marés de Mudança da Unespar.

A brincadeira termina quando percebemos que o assunto é sério. Talvez o mais desconfortável nessa história seja perceber que os chamados “alienígenas” não chegaram sozinhos.

O litoral do Paraná tem pouco mais de 100 quilômetros de costa. É um território de enorme diversidade: baías, estuários, manguezais, rios, montanhas e áreas de floresta. Um ambiente complexo e sensível. É também um litoral conectado ao mundo pela atividade portuária intensa.

Um navio que chega ao Porto de Paranaguá pode ter partido de muito longe. No casco ou na água de lastro viajam organismos que jamais teriam alcançado naturalmente o outro lado do planeta. É uma viagem silenciosa. Muitas vezes, invisível.

E há uma ironia nisso. As espécies “alienígenas” que conseguem sobreviver à travessia chegam ao destino mais resistentes do que quando partiram. “Os organismos que chegam, depois de duas semanas de viagem em um navio, são sobreviventes. Já foram selecionados, ou seja, são muito resistentes. Estamos numa ‘briga’ muito difícil”, explica Rosana Rocha, professora da UFPR.

Talvez seja aqui que a história deixe de ser apenas sobre animais marinhos e passe a ser também sobre nós. Porque esses organismos não escolheram invadir o litoral paranaense. Não decidiram abandonar seu ambiente de origem. Não compraram uma passagem para o Brasil.

Nós criamos as condições para que chegassem. E, uma vez aqui, algumas espécies encontram algo ainda mais favorável: um ambiente onde não existem predadores, competidores e parasitas que ajudavam a controlar suas populações no local de origem. É como entrar em uma casa confortável, com comida farta e sem ninguém preparado para impedir a ocupação.

Essa bioinvasão ganha uma dimensão ainda mais concreta através do olhar inquieto do jornalista e documentarista Gabriel Marchi, que decidiu investigar uma história até então restrita, em grande parte, aos laboratórios e aos pesquisadores. Uma história que acontece no vai-e-vem das marés, mas diz respeito a todos nós.

O filme Invasão Silenciosa, com lançamento previsto para 22 de agosto, observa o que está acontecendo com três espécies marinhas que chegaram ao litoral paranaense e encontraram condições muito favoráveis para se estabelecer e se proliferar: o siri-capeta, a ostra-de-capuz e o mexilhão-verde. Nenhuma delas é nativa daqui.

Elas conseguiram vencer as primeiras barreiras de sobrevivência e passaram a competir intensamente com organismos nativos por espaço e alimento.

Gabriel Marchi, lembra que nosso imaginário geralmente liga as grandes ameaças vindas do oceano a coisas como ataques de tubarão, tsunamis, furacões ou até o derretimento das geleiras. Só que a bioinvasão acontece de um jeito bem diferente, quase sem ser notada. Ela vai avançando em silêncio, e os efeitos aparecem aos poucos, a ponto de a gente acabar achando que é algo normal. Quando percebemos, já houve grandes mudanças na região, algumas irreversíveis.

“O pior de tudo é que tercerizamos às ameaças do oceano, culpando o próprio pelos desastres, mas esquecemos (talvez por arrogância ou ignorância) que somos uma vertente importante, senão a maior delas, na causa desses desastres. Por isso, fazer este trabalho é justamente tentar mostrar uma ameaça que é menos visível, mas que pode ser tão grave quanto as outras”, reflete o documentarista.

O caso é grave! A bioinvasão já chegou às áreas de cultivo de ostras na Baía de Guaratuba, região que recentemente conquistou o Selo de Indicação Geográfica do INPI pela tradição e qualidade da produção de ostras.

E é nesse ponto que a discussão ganha outra dimensão, além da ambiental. Porque siris, ostras e mexilhões não são apenas organismos marinhos. Eles fazem parte da alimentação, da economia e dos costumes de comunidades que vivem da pesca e da coleta. É toda cultura tradicional e centenária que está sob ameaça. Essa invasão silenciosa pode atingir também quem depende desses organismos para viver.

É difícil falar sobre isso sem lembrar do pescador Romildo do Rosário. Ele foi uma das primeiras pessoas a registrar a presença do siri-capeta no litoral paranaense. Seu registro ajudou a acender o alerta entre pesquisadores e contribuiu para o início do monitoramento. É uma história que também nos lembra de algo que às vezes esquecemos: o conhecimento sobre um ambiente não está restrito aos laboratórios.

Quem vive diariamente no mar reconhece seus ciclos, seus animais e suas mudanças. Quando o conhecimento tradicional encontra o científico, a transformação pode ser percebida mais cedo. Talvez a tempo de conter um possível desastre ambiental?

E talvez essa seja uma das maiores lições do documentário. O problema é que, quando uma espécie invasora se estabelece, não existe necessariamente um botão de “desfazer”.

A pesquisadora Cassiana Metri é direta. “Não encontrei nenhuma iniciativa no mundo que tenha conseguido controlar uma bioinvasão de caranguejo ou siri exóticos. Muito pelo contrário, são histórias tenebrosas de espécies nativas desaparecendo,” afirma a responsável pelos estudos de fauna de manguezal do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), iniciativa da Associação MarBrasil, patrocinada pelo programa Petrobras Socioambiental.

Essa talvez seja a parte mais incômoda. Estamos falando de organismos que atravessam fronteiras sem passaporte, chegam escondidos em embarcações e encontram novos territórios para ocupar. Mas a questão não deveria ser simplesmente como combater o “invasor”.

Precisamos perguntar por que ele conseguiu chegar. E, principalmente, o que está sendo feito para evitar que mais espécies agressivas cheguem à nossa costa.

Os chamados “alienígenas” não chegaram sozinhos. Eles vieram pelas rotas que nós mesmos construímos. Uma vez aqui, até onde essas espécies conseguirão chegar, e até onde estamos dispostos a ir para proteger nossa biodiversidade?

“Quando vai terminar isso? O que de pior pode acontecer?”, pergunta o pescador Romildo.

As respostas, algumas delas incômodas, fica para quem assistir ao filme.

foto do poster da capa do documentário invasão alienígena
Imagem: Divulgação

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