Destaques Política Saúde Segurança Sustentabilidade
Escrito por Neo Mondo | 15 de setembro de 2021
A caravana passou, com os cães latindo ao volante de caminhões, caminhonetes e (muitos) carros caros e (alguns) nem tanto, além de incontáveis motociclistas – tipos mal-encarados ao estilo Selvagens de Alphaville ou Demônios do Condomínio de Luxo – e muita gente a pé e em ônibus. Foi grande, não vou mentir: assisti da calçada, em Brasília, a um desfile que parecia interminável de gente disposta a derrubar a democracia em nome de um governo genocida e corrupto.
Mas, para imaginar o que virá a seguir, convém deixar a parada de bolsonaristas e as missivas de lado e olhar para as figuras que levaram Bolsonaro ao Planalto, e que vêm chamando muito menos atenção do que deveriam: o tal do Partido Militar. Os generais da reserva que escoltaram o indisciplinado ex-capitão à Presidência e que se movimentam para se manterem no poder – e com poder – enquanto Bolsonaro se dedica a aterrorizar o país com a ameaça de um autogolpe.
O que vai a seguir são informações recolhidas pelo boletim mensal com foco nas Forças Armadas brasileiras do Instituto Tricontinental que monitora a participação militar na política. O levantamento parte de informações públicas e é coordenado pela cientista social Ana Penido, também pesquisadora do Grupo de Estudos em Defesa e Segurança Internacional da Universidade Estadual Paulista, a Unesp.
Enquanto Bolsonaro latia ameaças ao Supremo Tribunal Federal, o vice-presidente Hamilton Mourão, general de quatro estrelas da reserva, se embrenhou numa série de palestras em que se apresentou como a voz da ponderação do governo. Falou numa live fechada ao grupo Parlatório, um ajuntamento de empresários, economistas, gente do mercado financeiro e advogados que montou um grupo no WhatsApp. Abriu a Conferência Anual sobre Macroeconomia e Estratégia no Brasil do bancão Goldman Sachs. Também deu uma série de entrevistas, entre elas a Carlos Alberto Di Franco, um jornalista ligado ao Instituto Millenium e à organização católica ultraconservadora Opus Dei, simpático a extremistas de direita e colunista de jornais como O Globo e Estadão – do qual diz ser também consultor.
Falando na imprensa, o ministro da Defesa, Walter Braga Netto, bateu um papo a portas fechadas com o jornalista Antônio Guerrero, vice-presidente de jornalismo da TV Record. A emissora da Igreja Universal, vale lembrar, recebe uma fatia generosa das verbas federais de publicidade. Talvez por isso, segue firme no apoio ao presidente. E Braga Netto subiu no palanque de onde no 7 de setembro Bolsonaro anunciou que não mais cumpriria decisões judiciais do STF.
Já que falamos de negócios: o general da reserva Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, recebeu em seu gabinete Alessandro Bruno Antunes Carvalho, diretor financeiro de uma startup mineira que afirma desenvolver "uma plataforma tecnológica envolvendo nióbio (uma obsessão de Bolsonaro) na preparação de nanomateriais avançados para soluções inovadoras em lifescience, energia e agronegócio".
Ramos, tido como o mais bolsonarista dos ex-fardados do Planalto, recebeu o empresário acompanhado do general de divisão Luis Antônio Duizit Brito. Apesar de ser militar da ativa com salário de R$ 20 mil mensais líquidos, Duizit Brito ocupa cargo de nomeação política no Ministério da Defesa: é diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação. É apenas um dos mais de 2 mil militares da ativa e mais de 600 da reserva com uma boquinha em 70 órgãos da administração federal. O general Brito tem um carguinho à toa, que lhe rende um acréscimo de R$ 2 mil ao contracheque. Mas nem sempre é assim. Joaquim Silva e Luna, presidente da Petrobras, embolsa R$ 230 mil mensais pelo trabalho na estatal, que se somam aos R$ 30 mil da aposentadoria paga a generais de quatro estrelas como ele. Nada mau.
Foto - Pixabay
Foto - PixabayO agronegócio que envenena os polinizadores que o sustentam
O Cantareira está secando — e a culpa não é da chuva