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Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 10 de agosto de 2026
Floresta em pé, conhecimento ancestral e protagonismo feminino se encontram nas cadeias da bioeconomia amazônica, transformando biodiversidade em renda, autonomia e conservação - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DRA. MARCELA BARALDI*
Antes do laboratório, a cadeia da cosmética natural passa pelas mãos de mulheres amazônicas que convertem conhecimento e biodiversidade em renda. Dados do IPÊ mostram que elas coordenam ou dirigem 75% das organizações comunitárias voltadas a biocosméticos e fitoterápicos
Antes de um óleo vegetal, um extrato ou uma manteiga natural virar ingrediente de um cosmético, existe uma cadeia de pessoas que conhece a floresta, identifica seus recursos, faz a coleta, seleciona a matéria-prima e participa do beneficiamento. Em boa parte dessas cadeias, são as mulheres que ocupam o centro do processo.
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A Amazônia abriga uma das maiores biodiversidades do planeta. Biodiversidade, porém, não significa desenvolvimento econômico por si só. A questão está em converter essa riqueza natural em oportunidades para quem vive no território, sem comprometer a capacidade de regeneração da própria floresta. É aí que entra a bioeconomia. Em vez de extrair valor da floresta pela destruição, a proposta cria valor a partir de produtos e conhecimentos manejados de forma sustentável.
Óleos e extratos de espécies como andiroba, copaíba e pracaxi, entre outras matérias-primas da sociobiodiversidade amazônica, podem alimentar cadeias produtivas que chegam à indústria de cosméticos e higiene pessoal. Existe uma diferença entre apenas usar um ingrediente amazônico e construir uma cadeia sustentável de verdade. É preciso saber de onde ele veio, quem o coletou, como foi produzido e quem se beneficia economicamente dessa atividade.
Em comunidades tradicionais, o trabalho feminino esteve historicamente ligado ao cuidado da família, à agricultura, ao extrativismo e à transmissão de conhecimentos entre gerações. Hoje, esse mesmo conhecimento se transforma em empreendimento. Dados do Fundo Legado Integrado da Região Amazônica (LIRA), iniciativa do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), mostram que 75% das organizações comunitárias apoiadas, voltadas à produção de fitoterápicos, biocosméticos e outros produtos da sociobiodiversidade, têm mulheres em posições de coordenação ou direção.
O número revela algo além da representatividade. A participação feminina na bioeconomia amazônica pode significar autonomia financeira, fortalecimento das famílias, maior peso nas decisões da comunidade e novas perspectivas econômicas para as próximas gerações. Na Ilha do Combu, no Pará, mulheres extrativistas trabalham com o manejo sustentável da andiroba e a produção de óleo e derivados, entre eles produtos de higiene pessoal e cosméticos. A iniciativa reúne saberes tradicionais, conhecimento científico, autonomia econômica e conservação. A mulher deixa de ser parte invisível da cadeia produtiva e passa a atuar como produtora, empreendedora, gestora e guardiã de conhecimentos tradicionais.
Entre uma semente encontrada na floresta e o produto na prateleira existe uma trajetória longa. A matéria-prima precisa ser coletada de forma adequada, selecionada, armazenada, beneficiada e, conforme o produto, transformada em óleo ou extrato. A partir daí entra a cadeia que envolve pesquisa, desenvolvimento, controle de qualidade, formulação, indústria, logística e comercialização. É uma cadeia que conecta o conhecimento ancestral e a ciência moderna, e essa conexão pode ser poderosa. Projetos recentes da Embrapa trabalham para fortalecer cadeias da biodiversidade amazônica lideradas por mulheres, apoiando a profissionalização de produtos já desenvolvidos em comunidades tradicionais e sua chegada a novos mercados. Sustentabilidade, nesse caso, não significa voltar ao passado. Significa usar ciência e tecnologia para valorizar o que já existe, sem apagar o conhecimento de quem vive na floresta.
Há uma frase recorrente quando se fala de Amazônia: a floresta precisa valer mais em pé do que derrubada. Essa ideia só se concretiza quando a conservação gera oportunidades reais para as pessoas do território. Não basta afirmar que a floresta deve ser preservada. É preciso criar condições para que famílias tenham renda, acesso a mercados, infraestrutura, capacitação e segurança econômica por meio de atividades sustentáveis. Quando uma comunidade obtém renda de produtos da biodiversidade sem destruir a floresta, surge outra relação com o território. A floresta passa a ser patrimônio ambiental e também fonte de trabalho, renda e identidade.
A indústria cosmética tem papel nessa história. O interesse crescente por ingredientes naturais e da biodiversidade abre mercados para comunidades produtoras, mas esse movimento precisa vir com responsabilidade. Não basta colocar uma espécie amazônica no rótulo e contar uma história bonita. Uma cadeia sustentável olha para rastreabilidade, manejo adequado, valorização do conhecimento tradicional, remuneração justa e distribuição de valor. Quanto mais próximo o consumidor estiver dessa história, maior sua capacidade de fazer escolhas conscientes. Ao comprar um produto com ingrediente da sociobiodiversidade, ele não leva apenas um cosmético. Movimenta uma cadeia econômica que começa muito longe dos grandes centros urbanos.
Como dermatologista, trabalho todos os dias com produtos que dependem de ciência, pesquisa e tecnologia para chegar à pele. Cada vez mais acredito que precisamos ampliar o olhar sobre o que usamos. Um ingrediente não é só uma molécula dentro de uma fórmula. Ele carrega uma história: conhecimento transmitido entre gerações, o trabalho de uma família, a organização de uma comunidade e a relação de um povo com seu território. Quando uma mulher coleta, seleciona e beneficia um recurso da floresta, quando esse trabalho gera renda para a família, quando uma empresa compra a matéria-prima de forma responsável, quando a ciência transforma esse recurso em um produto seguro e eficaz, e quando o consumidor entende a origem daquela embalagem, a cadeia vai além da cosmética. Por trás do produto há uma floresta preservada, uma cadeia valorizada e mulheres construindo o próprio futuro.
*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

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