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Dar uma chance à guerra?

Escrito por Neo Mondo | 23 de junho de 2025

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Imagem gerada por IA - Foto: Divulgação

ARTIGO

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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo

Hegel insere na Filosofia um sinal positivo para o confronto violento. Em sua dialética, o avanço do espírito humano só é possível pela superação de sua antítese, de forma que, ao longo da História, a Liberdade conquistada é o resultado da superação — pela força — daquilo que a impede de se realizar. O alemão Hegel, que lotava salas nas aulas que ministrava na Universidade de Berlim, resgatou para o mundo a lição quase olvidada por Heráclito: o que move o mundo é o Fogo, em sua lógica de destruição/construção. E, depois disso, nada mais foi como antes.

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O jovem Marx, vivenciando as agruras do movimento operário de seu tempo, viu nas densas páginas de Hegel o caminho para sua teoria da superação das contradições econômicas e sociais — isto é, a luta de classes, a revolução. Para ele, era inevitável que cada momento histórico engendrasse as condições para a sua própria destruição, em que os explorados se tornariam os carrascos de seus exploradores, até que nada restasse do mundo conhecido, pois “tudo que é sólido desmancha no ar”.

No século XX, Carl Schmitt, outro alemão, via a Política como a relação entre amigo/inimigo — sendo o inimigo, nesse caso, o inimigo público, alguém que representa uma ameaça à existência da comunidade. Política não é negociação ou consenso, mas a capacidade de afirmar identidades coletivas diante de um inimigo comum. Se um grupo, religião ou governo põe em risco a existência do meu grupo, ele é o inimigo. Destruí-lo, portanto, é o que a Política deve preconizar.

A violência é o elemento base do pensamento desses filósofos, em meio à consolidação dos Estados-nação e das articulações em torno dos interesses de seus grupos majoritários.

A Segunda Guerra Mundial parecia ter demonstrado os limites dessas políticas violentas, e a criação da ONU foi uma tentativa — quase utópica — de modificá-las, substituindo a ideia da violência pela da negociação, e a lógica amigo/inimigo pelo multilateralismo, no qual as diferenças não precisariam ser vistas como antagonismo, nem as objeções como ameaças à nossa existência.

No entanto, a ONU fracassou em seus propósitos. E a lógica da guerra como solução básica para as diferenças voltou com força total. A guerra nunca esteve ausente — sabemos disso —, mas, ao menos, era vista como um mal extremo, sempre condenável, um capítulo à parte nos esforços diplomáticos que deveriam prevalecer nas relações entre países. Daí o termo cunhado no pós-45: “guerra fria”.

O século XXI parece ter vindo para dar mais uma chance à guerra. A retórica da divisão entre nós e eles é a lógica de Gaza e, agora, do Irã. É a lógica do fechamento das fronteiras e do combate aos imigrantes. É a lógica dos costumes e do gênero. Nós versus eles. Amigos e inimigos. Guerra.

Resta-nos fazer o quê diante da emergência da “balada de Hegel”? Como disse o pensador alemão, “a guerra preserva a saúde moral dos povos.” Para ele, a guerra ajuda a superar as contradições que impedem as sínteses responsáveis por fazer o mundo avançar, rompendo a estagnação. É isso? Trata-se disso? O senhor Trump é um benfeitor? O senhor Netanyahu é um benfeitor? O Hamas e os aiatolás são a antítese da Liberdade, negando o avanço do mundo rumo ao reino da Razão? São o inimigo que põe em risco a comunidade global?

Muitos parecem crer nisso, de forma categórica.

Como Descartes, prefiro: dubito, ergo cogito, ergo sum.

*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.

E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com

Instagram: @profdanielmedeiros

foto de daniel medeiros, autor do artigo Dar uma chance à guerra?
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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