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Escrito por Neo Mondo | 28 de outubro de 2025
Domingo de um Brasil que trabalha demais e vive de menos - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
ARTIGO
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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
Acordar tarde no domingo, para quem trabalha na escala 6 por 1, é uma recompensa e, ao mesmo tempo, um desalento, porque o dia mais importante da semana já começa assim, meio fraturado: mais duas horas, duas horas e meia e já será a hora do almoço. Como é todo dia na firma — aqueles 40 minutos apressados para uma refeição por quilo, sem graça e sem gosto, sem poder exagerar em nada sob pena de uma tarde empanzinada e de baixo rendimento. O tempo de almoço é de uma hora, mas ninguém lembra que há o deslocamento, a fila para comer, para pagar, o tempo de voltar, a higiene no apertado banheiro da sala dos funcionários, o olhar do supervisor se apenas cinco minutos se passam do tempo que você vendeu para a empresa — e que é dela para produzir e gerar receita, faturamento e, depuradas as complexas operações da contabilidade, o lucro dos sócios que nunca aparecem ali. Ou, quando aparecem, nunca olham de verdade para ver o seu esforço e o sacrifício de dedicar seis dias de uma semana de sete ao “sucesso empresarial deles”.
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E chega o domingo. Você acorda amassado de tanto dormir, o corpo exaurido da semana, doído, um pouco desconfortável pela situação quase estranha de ter permanecido na horizontal tanto tempo. E olha para o relógio e pensa: mais duas horas e já é o almoço. O que farei hoje?
A lista de possibilidades é enorme, a começar pelas urgências domésticas: lavar lençóis de três semanas, toalhas, calças jeans, cuecas e meias que se amontoam no canto da pia — jogadas ao fim de cada dia insano de trabalho que, contado o deslocamento, nunca fica abaixo das 12 horas. Isso quando não há crianças. Quando há, nem a pergunta é necessária: o domingo será de faxinal geral. Talvez só no fim da tarde dê para dar uma volta e arejar um pouco — mas aí é o cansaço que não deixa.
Mas o nosso trabalhador é jovem e solteiro, está começando a vida, fazendo uma faculdade online e sonhando com dias melhores. O domingo pode ser só para ele, então. Isso depois de dar um jeito na roupa e uma geral nos poucos cômodos do apartamento (que paga com uma ajuda do pai), distante dois ônibus do local de trabalho, espremido entre prédios, de forma que só é possível pressentir se há sol por causa da nesga de claridade que entra pela janela da sala — o paredão cinza do prédio da frente domina a paisagem.
Resolve fazer um lanche rápido na esperança de comer bem depois, mais tarde. Sair com os amigos? Ir ver os pais (opção sempre adiada, moram longe, dois ônibus no domingo ninguém merece), passear a esmo no shopping, ver se há alguma promoção para comprar uma camisa melhor — o chefe da seção já reclamou que ele anda meio desleixado — ou até um sapatênis novo (os amigos já até batizaram o que ele usa, sempre o mesmo, há tempos). Mas aí terá gasto o domingo fazendo coisas para o trabalho, e ele quer esse dia para si. No entanto, o que sabe fazer para si?
Há leituras da faculdade — curso que já pensou em desistir várias vezes, sem estímulo, sem ver a cara dos colegas, todos com as câmeras fechadas, o professor sonolento, lendo os textos dos slides que passa. Outro dia descobriu que um dos seus professores — um dos melhorzinhos — já morreu há três anos. Assiste a aulas de um fantasma. Os colegas brincaram: parece ensino “médium”. Ele pensa na faculdade — outro “case” de sucesso — ganhando dinheiro com o trabalho do morto. Um pouco como o que fazem com ele. No seu caso, morto de tédio. Ou de desesperança.
A manhã termina e ele mal saiu da cama. Toma um banho, esquece o café, arruma as coisas da casa (pela metade — semana que vem eu termino) e resolve, de supetão, que visitaria os pais, tentar ainda pegar a macarronada da mãe com maionese. De repente, os sabores invadem sua boca e sua mente, e sente algo como uma alegria. Não sabe bem dizer. Liga para os pais, que dizem que vão esperá-lo — o outro irmão irá com a família, será bom ver todos reunidos uma vez que seja. Arrepende-se na hora: o irmão mais velho, gerente de um posto de gasolina, considera-se um dos que “venceram na vida” e engrossa a fala de que “esse país tem muitos direitos”, “essa nova geração não quer nada com nada”, ou “a gente precisa é de um governo que acabe de vez com essa moleza”. Mas agora já era.
Dois ônibus depois — o primeiro atrasou meia hora (“horário de domingo”, diz o motorista, “colocam menos carros na rua pra economizar”) — ele chega à casa dos pais. O almoço já está servido, o macarrão da sua imaginação bem diferente do que começa a comer quase de imediato, enquanto explica as razões do atraso diante do olhar desconfiado do irmão e da cunhada.
“Você está mais magro”, diz a mãe.
“É o trabalho”, responde.
O irmão bufa e comenta: “Trabalho? Você nem sabe o que é trabalhar, rapaz. Queria ver se tivesse as responsabilidades que eu tenho lá no posto.”
O rapaz cala-se, põe mais uma colherada de maionese no prato, para atender ao olhar preocupado da mãe com a sua saúde. Na hora do café, coado na hora pelo pai — silencioso o tempo todo, exceto para comentar sobre os planos de uma viagem que o irmão planejava (“Vamos sair em abril, na baixa estação, e aí aproveitamos os preços melhores; a ideia é ficar vinte dias, vamos ver...”) — o rapaz percebe que já passam das três e que, com sorte, estaria em casa às cinco, quando o sol já começasse a sua descida, despedindo-se do seu dia de folga.
Logo seria noite. Ele comeria um ovo mexido com um suco de caixinha, prepararia suas coisas para o dia seguinte, repetiria as promessas de estudar durante a semana — ao mesmo tempo em que acreditava que aquilo não daria em nada. Não estava aprendendo nada. É só dinheiro jogado fora. Quem sabe se fosse para outra cidade, tentasse um trabalho em uma fábrica... sei lá.
O dia agora findo, a noite já bem fechada. Chove um pouco, e ele adormece com o som das gotas batendo na folha de alumínio da janela do pequeno apartamento de frente para o nada. Como sua rotina. Sua vida. Sua semana 6 por 1 dedicada ao crescimento da economia do país.
*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Articulista do Portal Neo Mondo.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros

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