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Escrito por Neo Mondo | 19 de janeiro de 2026
ESG entrou na fase mais difícil — e mais honesta — da sua história: a zona cinzenta - Imagem gerada por IA - Foto: Divulgação/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Defesa, energia e a nova disputa moral do mercado — quem decide o que pode (ou não) receber o selo verde?
Tem uma coisa que o mercado adora: rótulos.
Eles organizam o caos, acalmam investidores, deixam relatórios mais bonitos e ajudam empresas a contar histórias com começo, meio e fim.
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Mas o ESG… ah, o ESG não nasceu pra ser simples.
E agora ele entrou na fase mais desconfortável — e mais reveladora — da sua existência: a zona cinzenta.
A pergunta que antes era “isso é sustentável?” virou outra, bem mais incômoda:
“Sustentável pra quem?”
E mais ainda: “Sustentável em qual mundo?”
Porque o mundo de 2026 não é o mesmo de cinco anos atrás. E o ESG está sendo reescrito ao vivo, sob pressão, no meio de uma tempestade que mistura guerras, energia, inflação, cadeias globais, segurança nacional e medo coletivo.
E quando o medo entra na sala… os princípios costumam sair pela janela.
Existe uma mudança silenciosa acontecendo. E ela é brutal.
O ESG, que surgiu como uma tentativa de “civilizar” o capitalismo com ética, transparência e responsabilidade ambiental, está sendo puxado para uma lógica nova:
não é mais sobre “o que é certo” — é sobre “o que é necessário”.
O mercado está migrando do ESG idealista para um ESG pragmático, quase militar:
o ESG que tolera o imperfeito para evitar o colapso.
É como se a régua tivesse mudado sem avisar ninguém.
Antes, a pergunta era:
“Isso reduz emissões?”
Agora virou:
“Isso evita apagão?”
“Isso protege a soberania energética?”
“Isso impede um país de ficar refém?”
“Isso garante estabilidade social?”
E nessa nova lógica, defesa e energia entraram no centro do tabuleiro.
Por muito tempo, o setor de defesa foi tratado como “ininvestível” por fundos com critérios rígidos de sustentabilidade. Era uma linha vermelha moral. E, convenhamos, fazia sentido.
Só que o mundo virou.
Com guerras e tensões geopolíticas se multiplicando, cresceu a tese de que defesa não é só guerra — é infraestrutura de proteção do Estado, e que segurança também é um pilar para garantir:
A narrativa que começa a aparecer, meio sem pedir licença, é esta:
“Sem segurança, não existe transição verde.”
E aí o mercado se divide.
De um lado, quem vê isso como realismo.
Do outro, quem vê como desculpa sofisticada para financiar destruição com embalagem ESG.
A zona cinzenta, aqui, é moral.
E ela dói.
Se existe um tema em que o ESG fica exposto — sem maquiagem — é energia.
Porque energia é o coração de tudo:
indústria, comida, hospitais, transporte, internet, dados, cidades.
E a transição energética real não acontece em PowerPoint.
Ela acontece no chão duro da infraestrutura, onde o mundo ainda depende (muito) de fontes fósseis.
A grande contradição contemporânea é simples de dizer, difícil de engolir:
o mundo quer descarbonizar… sem passar pelo desconforto do custo, da obra e do tempo.
E quando o inverno chega, quando a conta sobe, quando a rede falha, o discurso verde costuma perder espaço para uma palavra que manda mais que “sustentabilidade”:
segurança energética.
Aí o mercado começa a relativizar coisas que antes seriam “inadmissíveis”.
E é nesse momento que nasce o ESG em zona cinzenta.
O mercado sempre vendeu sustentabilidade como se fosse um destino:
um lugar limpo, bonito, sem contradições.
Mas sustentabilidade é, na prática, uma escolha constante entre danos diferentes.
E agora ela está sendo redefinida por três forças:
O mundo voltou a ser dividido por blocos, alianças e ameaças.
Isso muda tudo: do petróleo ao fertilizante, do gás ao semicondutor.
O clima não está “dando sinais”.
Ele está batendo na porta com enchentes, secas, calor extremo e colapso de safra.
A população quer energia limpa, sim — mas também quer emprego, comida acessível e conta de luz que caiba no bolso.
E esse triângulo é explosivo.
Uma coisa precisa ser dita sem rodeios:
ESG também é poder.
Quem define o que é sustentável define quem recebe capital barato, prestígio, investimento, expansão.
E isso explica por que o ESG virou um campo de guerra simbólica, com empresas tentando se posicionar como:
A zona cinzenta aparece quando o discurso vira estratégia.
E aí surge o risco mais perigoso de todos:
a sustentabilidade virar só uma estética corporativa — uma embalagem premium para decisões antigas.
Bonita por fora, vazia por dentro.
Aqui entra a parte mais humana (e mais incômoda) dessa história.
Porque, no fundo, o que está em jogo é uma pergunta ética que não cabe em relatório:
É aceitável financiar algo “problemático” hoje para evitar um desastre maior amanhã?
Exemplos desse dilema aparecem o tempo todo:
O mercado, na prática, já respondeu:
sim, aceita.
Só que ninguém quer admitir isso publicamente, porque pega mal.
E aí nasce o ESG cinzento:
o ESG que se explica com pragmatismo e se vende com moralidade.
Se o ESG quiser sobreviver como algo sério, ele vai precisar parar de fingir que é um selo de pureza.
O caminho não é prometer perfeição.
É mostrar decisão com honestidade.
A régua do futuro tende a ser menos “empresa boazinha” e mais:
Porque o mundo está ficando intolerante a narrativa vazia.
E o investidor também.
O Brasil pode ser protagonista nesse debate por um motivo óbvio:
energia limpa em escala, biodiversidade estratégica, capacidade agrícola e uma posição geopolítica que pode virar ponte — ou virar alvo.
Mas o Brasil também carrega um risco:
o de usar o ESG como “marketing de país”, enquanto empurra para debaixo do tapete temas que o mundo está observando com lupa:
O mercado global já não compra discurso fácil.
Ele compra evidência.
E isso muda tudo para o Brasil.
É esta:
“O que a gente está disposto a chamar de sustentável para não encarar o que realmente precisa mudar?”
Porque a zona cinzenta do ESG não é um erro do sistema.
Ela é o retrato do nosso tempo.
Um tempo em que o mundo quer salvar o futuro…
sem brigar com o presente.
E não dá.

O ESG em zona cinzenta não é só sobre defesa e energia.
É sobre uma sociedade inteira tentando conciliar três coisas que raramente andam juntas:
O mercado vai continuar tentando redefinir o “sustentável” conforme o vento sopra.
Mas uma coisa não muda:
se ESG não for transparência, ele vira propaganda.
E se virar propaganda, ele perde o único valor que tinha:
o de ser um freio moral e prático num capitalismo que, sozinho, não se freia.
No fim das contas, o ESG é um espelho.
E a pergunta que ele devolve não é sobre empresas.
É sobre a gente.
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