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O calor que vem de baixo: o El Niño de 2026 e o que o Brasil tem a temer

Escrito por Neo Mondo | 15 de junho de 2026

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Calor que não aparece apenas nos termômetros: ele seca rios, racha a terra e redefine o futuro de quem vive dela - Foto: Ilustrativa/Magnific

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

No fundo do Pacífico equatorial, a temperatura da água já não obedece à média. Em abril de 2026, sensores do National Centers for Environmental Prediction registraram anomalias subsuperficiais superiores a 4°C em trechos da costa oeste da América do Sul, enquanto nas regiões Niño 3 e Niño 4, no centro e no oeste do oceano, os desvios já ultrapassavam 3°C. Esse calor acumulado nas camadas mais profundas é o sinal precursor que os climatologistas aprendem a temer: é ele que alimenta o El Niño antes mesmo de o fenômeno se manifestar na superfície.

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O El Niño voltou a se estabelecer no Oceano Pacífico Equatorial e deve ganhar intensidade nos próximos meses, com alta probabilidade de alcançar intensidade forte durante a primavera austral de 2026. A confirmação veio em junho, quando a NOAA, a agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, emitiu um aviso de El Niño, sinalizando que as condições já estão presentes e devem persistir. Modelos climáticos estimam 63% de chance de que a temperatura da superfície do mar supere 2,0°C acima da média na região monitorada do Pacífico, o limiar que a NOAA classifica como "muito forte" — e o que a literatura climática e o debate público convencionaram chamar de "super El Niño".

O El Niño é a fase quente do ENOS, o sistema oceânico-atmosférico acoplado que governa grande parte da variabilidade climática interanual do planeta. Quando os ventos alísios que sopram de leste para oeste ao longo do equador enfraquecem, a água quente represada no Pacífico Ocidental escorrega para o leste, aquecendo a superfície oceânica numa faixa que se estende por milhares de quilômetros. Esse repositório de calor redesenha os padrões de pressão atmosférica em escala global, deslocando sistemas de chuva, intensificando bloqueios atmosféricos e alterando trajetórias de frentes. O que começa no Pacífico termina como seca no Nordeste, enchente no Rio Grande do Sul ou onda de calor no Centro-Oeste.

A dimensão do que está por vir, porém, não pode ser lida apenas pela intensidade do fenômeno em si. O surgimento de um forte El Niño num mundo que aquece continuamente em razão das mudanças climáticas causadas pela atividade humana pode alimentar extremos climáticos sem precedentes. Friederike Otto, professora de ciência do clima no Imperial College London, afirmou que o El Niño em si não é, por si só, razão de alarme — mas sim o fato de que ele agora ocorre sobre uma linha de base cada vez mais quente. As temperaturas médias globais em 2024 atingiram 1,55°C acima dos níveis pré-industriais, o ano mais quente já registrado. Os anos de 2023, 2024 e 2025 estão entre os mais quentes da história instrumental. O El Niño de 2026 não chegará a um planeta neutro. Chegará a um planeta já aquecido, onde mesmo um evento moderado pode produzir efeitos que, em décadas anteriores, exigiriam um evento forte.

A seca de 2023/2024 foi a mais extensa e intensa dos últimos 70 anos no Brasil, atingindo mais de 80% dos municípios em algum grau. O El Niño de 2026 se forma sobre essa base degradada. Reservatórios que não se recuperaram plenamente, solos que secaram mais profundamente do que o usual, biomas que acumularam estresse hídrico por anos consecutivos. A memória climática do território ainda carrega 2023 e 2024.

A nota técnica conjunta publicada em abril de 2026 pelo INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM indica alta probabilidade de configuração do fenômeno ao longo do segundo semestre, podendo se estender até, pelo menos, o início de 2027. O documento reúne projeções de quatro grandes conjuntos de modelos climáticos globais: os do Copernicus Climate Change Service, da OMM, do NMME e do APCC. Todos convergem para o aquecimento progressivo do Pacífico equatorial, com o fortalecimento do fenômeno previsto até o verão 2026-2027.

Para o Brasil, o El Niño não é um evento uniforme. O território continental do país faz com que o mesmo fenômeno se manifeste de formas opostas em regiões vizinhas, o que torna qualquer generalização equivocada e perigosa. A lógica geofísica é relativamente conhecida: o El Niño tende a inibir a convecção na Amazônia e no Nordeste, reduzindo as chuvas e elevando as temperaturas, enquanto fortalece o transporte de umidade em direção ao Sul, amplificando precipitações na metade meridional do país. A magnitude e a distribuição exatas dos efeitos, porém, dependem de fatores adicionais, como as condições do Atlântico Tropical, que exercem influência particular sobre a Amazônia e o Nordeste.

Na Amazônia, a redução das chuvas pode afetar rios, reservatórios, atividades agropecuárias e elevar o risco de queimadas florestais. Os efeitos mais relevantes devem começar a ser sentidos a partir da primavera de 2026, especialmente na Amazônia e no Nordeste, com potencial de reproduzir condições próximas às registradas durante o El Niño de 2023/2024 — período marcado por seca histórica, rios em níveis críticos e incêndios em larga escala. O Rio Negro chegou a mínimas históricas em outubro de 2023. A memória daquela seca é o ponto de referência para o que pode vir agora, num sistema que parte de uma condição já enfraquecida.

O Pantanal é outra zona de vulnerabilidade aguda. Em anos de El Niño, a combinação de precipitação abaixo da média, calor intenso e baixa umidade cria condições propícias para incêndios em larga escala. Em 2024, o bioma já registrou um dos piores episódios recentes, com vegetação seca e áreas normalmente úmidas tornando-se inflamáveis. Se o padrão se repetir ou se intensificar, o risco de queimadas cresce de maneira expressiva a partir de agosto, quando a estação seca atinge seu pico.

A ameaça ao setor elétrico merece atenção específica. O Sudeste e o Centro-Oeste concentram cerca de 70% da capacidade de geração hidrelétrica instalada do Brasil, tornando essas regiões especialmente vulneráveis à combinação de seca e calor. Em um país cuja matriz elétrica depende fortemente da geração hidrelétrica, a redução dos níveis dos reservatórios pode exigir maior acionamento de usinas termelétricas, elevando custos de geração e aumentando as emissões de gases de efeito estufa. O El Niño, nesse sentido, não é apenas um evento climático: é um multiplicador de custos sistêmicos, com repercussões que se propagam da tarifa de energia ao preço dos alimentos.

No Sul, o vetor se inverte, mas não por isso se atenua. Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná concentram os maiores riscos de enchentes, enxurradas e deslizamentos. Porto Alegre segue como área de atenção máxima, com infraestrutura ainda em recuperação. A cidade ainda reconstruía ruas, viadutos e sistemas de drenagem quando as projeções do próximo El Niño chegaram às mesas das defesas civis estaduais. O governo gaúcho antecipou reuniões com cerca de 60 municípios considerados mais vulneráveis, diante de modelos que apontam 83% de probabilidade de que a temperatura do Pacífico fique entre 1,5°C e 2°C acima da média durante a primavera.

Há ainda um efeito que atravessa fronteiras regionais e setoriais: as ondas de calor. O El Niño favorece o aumento das temperaturas médias globais e regionais, elevando a frequência e a intensidade desses eventos, considerados pela Organização Mundial da Saúde uma das principais causas de mortes relacionadas ao tempo e ao clima. No Centro-Oeste e no Sudeste, bloqueios atmosféricos podem impedir a entrada de frentes frias, mantendo o calor represado por períodos que o sistema de saúde pública não está estruturalmente equipado para suportar.

O perigo não está apenas na probabilidade de um forte El Niño, mas no fato de que este fenômeno natural atingirá o planeta num momento crítico de crise climática. O efeito de amplificação é o dado mais relevante para quem toma decisões de médio e longo prazo: cada décimo de grau acumulado na temperatura média global amplia o espectro dos eventos extremos. A mesma anomalia oceânica que em 1998 produzia determinados efeitos produzirá efeitos mais intensos em 2026, porque a atmosfera que a recebe é outra. Mais quente, mais carregada de vapor d'água, mais instável.

Em 1877, um El Niño de intensidade excepcional desencadeou uma das maiores catástrofes humanitárias do século XIX. No Brasil, o Nordeste foi devastado por uma das piores estiagens de sua história, com lavouras destruídas e êxodo em massa. A analogia histórica não serve para paralisar, mas para calibrar a percepção de risco. Quase 150 anos depois, dispomos de ciência, tecnologia de monitoramento e sistemas institucionais de alerta precoce que os governos de 1877 simplesmente não tinham. A questão é se essa capacidade será ativada com a antecedência necessária — e se os sistemas de proteção social estarão à altura das populações mais expostas, que historicamente são as primeiras a sentir e as últimas a se recuperar.

O Pacífico está aquecendo. O sinal já vem de baixo.

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