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Onde a luz nunca chegou, a extinção já foi decidida

Escrito por Neo Mondo | 28 de julho de 2026

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Luz que penetra a coluna d'água e se dissipa antes de tocar o fundo, onde vive parte das espécies que a Lista Vermelha da IUCN classificou como ameaçadas em julho de 2026. - Foto: Ilustrativa/Freepik

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Na versão 2026-1 da Lista Vermelha da IUCN, publicada em 9 de julho, o dado que mais chamou atenção não veio de uma savana africana nem de uma floresta tropical. Veio de fontes hidrotermais a cinco mil metros abaixo da superfície do oceano, onde a luz nunca chegou. Dos 201 moluscos avaliados que vivem exclusivamente nesses respiradouros — caramujos, lapas, bivalves —, 125 estão ameaçados de extinção. Muitos foram descritos pela ciência há menos de uma década. A ameaça que pesa sobre eles ainda não começou: é a mineração de minerais no leito marinho, projetada para os próximos anos.

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O 28 de julho, Dia Mundial da Conservação da Natureza, chega em 2026 marcando a metade do caminho até 2030. Foi para esse ano que 196 países assinaram, em dezembro de 2022, o compromisso de proteger 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta — a chamada meta 30x30, o terceiro dos 23 alvos do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal. O calendário virou. Os números, nem tanto.

Até maio de 2026, segundo a base consolidada por Protected Planet, 17,3% das terras e águas interiores e 9,8% das áreas marinhas estavam sob proteção. Somadas as chamadas medidas efetivas de conservação baseadas em área, os índices sobem para 18,4% em terra e 10% no mar. Falta um terço do prazo e falta quase metade da meta terrestre. No oceano, o Greenpeace calculou que, mantido o ritmo atual de criação de áreas protegidas, os 30% só seriam alcançados em 2107.

A Lista Vermelha da IUCN agora reúne 169.420 espécies avaliadas, das quais 47.187 estão ameaçadas de extinção. A versão de julho declarou extintas mais 15 espécies animais — seis mamíferos, quatro peixes, um inseto e quatro caramujos. Entre os reclassificados para pior, o sapo-da-chuva-do-deserto (Breviceps macrops), popular nas redes sociais, subiu de Quase Ameaçado para Vulnerável, empurrado pela mineração de diamantes e por projetos industriais na costa da Namíbia e da África do Sul. Cada linha dessas tabelas é o registro de uma decisão econômica tomada em algum lugar acima da superfície.

No Brasil, a notícia corre em direção contrária, e vale medir com precisão o quanto. O desmatamento na Amazônia caiu 11,08% em 2025, segundo o sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Foram 5.796 km² suprimidos entre agosto de 2024 e julho de 2025 — a menor taxa em onze anos e a terceira menor desde que a série histórica começou, em 1988. É o quarto ano seguido de queda. Comparado a 2022, ano anterior ao terceiro mandato de Lula, o recuo acumulado chega a 50%. O Cerrado acompanhou: menos 11,49%.

Marina Silva, então ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, apresentou os dados em outubro de 2025 ao lado de João Paulo Capobianco, na época secretário-executivo da pasta. Meses depois, em abril de 2026, os papéis mudariam: Marina deixou o cargo para viabilizar sua candidatura nas eleições, e Capobianco assumiu o ministério. Oito dos nove estados da Amazônia Legal reduziram o desmatamento, com destaque para Tocantins, que cortou 62,5%. Só o Mato Grosso subiu na contramão: mais 25,06%.

E o Pantanal expõe o outro lado da conta. Depois da queda expressiva de 65,4% no Prodes de 2025, os alertas do sistema Deter voltaram a subir 45,5% no ciclo mais recente. A degradação florestal na Amazônia em 2024, o próprio ministério reconhece em nota, esteve associada à seca extrema e aos incêndios que ela alimentou. A vegetação que se conserva num ano queima no seguinte quando o clima aperta. Conservação e clima deixaram de ser duas pastas separadas.

A distância entre a curva brasileira e a curva global tem menos a ver com virtude e mais com o que, exatamente, se mede. Reduzir a supressão de floresta primária é uma coisa. Garantir que 30% de um território esteja sob gestão efetiva, ecologicamente representativa e com os direitos de povos indígenas e comunidades locais respeitados — como exige o texto da meta 3 — é outra. A Colômbia, um dos países mais biodiversos do mundo, já protege 47% de suas áreas marinhas e 26% das terrestres, acima da média global. Fez isso combinando novas áreas públicas e privadas, medidas de conservação baseadas em área e um mecanismo de financiamento de longo prazo batizado de Herencia Colombia. O Canadá anunciou em abril de 2026 um aporte de 3,8 bilhões de dólares canadenses para sair de 13% de proteção terrestre rumo aos 30%.

O que essas trajetórias têm em comum não é o dinheiro, embora ele conte. É a decisão sobre qual pedaço se protege. Pesquisadores que acompanham a meta há anos insistem num ponto que os percentuais escondem: mais relevante que o quanto é o quais 30%. Proteger área remota e já intacta engorda a estatística sem deter a perda de biodiversidade onde ela de fato acontece.

Um estudo publicado em maio de 2026 na Nature Communications levou esse raciocínio a uma dimensão que raramente entra no debate. Num dos cenários de implementação da meta 3, aquele que maximiza a representação da biodiversidade, quase metade da população humana vive a menos de 10 quilômetros das áreas que precisariam ser incluídas. Conservar 30% do planeta não é encontrar espaço vazio. É negociar com quem já mora ao lado.

O sapo-da-chuva-do-deserto e os moluscos das fontes hidrotermais estão nas extremidades do mesmo mapa. Um é fotogênico e viraliza; os outros vivem onde nenhuma câmera alcança. A Lista Vermelha os classificou no mesmo mês, empurrados pela mesma lógica: a fronteira da extração mineral avançando sobre habitats que a ciência mal terminou de descrever. Dos 201 moluscos de respiradouros avaliados, apenas uma espécie recebeu status tranquilo — Provanna exquisita, que por acaso vive dentro de uma reserva marinha protegida da mineração no arco das Marianas. O acaso, nesse caso, é a única política de conservação em vigor.

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